AS SETE VIDAS DOS DAZKARIEH
September 29, 2003
N�o sei onde � que eles foram arranjar o nome. Mas na capa do disco de estreia deste colectivo lisboeta, pode ler-se que Dazkarieh � “uma palavra m�gica de origem praticamente desconhecida. Talvez signifique o arrebatar de energias que se d� quando v�rios mundos, ess�ncias e influ�ncias se tocam, capaz de nos fazer fluir por entre momentos intimistas e outros de grande expansividade”. Palavras certeiras que funcionam como um adequado “Mission Statement” da banda. Quem os viu a semana passada ao vivo no antigo Cine Plaza da Amadora e quem escuta o seu disco de estreia, � levado pelo ar, por v�rios universos, como se tivesse sido arrebatado por um furac�o que passa repentinamente pelo Mediterr�neo, pela Europa de Leste e por �frica. A m�sica dos Dazkarieh sente o pulsar do universo. � ap�trida e intemporal. Vagueia por todo o lado, por v�rias �pocas, n�o se fixa em lado nenhum. � um encanto e um arrebatamento de contradi��es. Assenta na comunh�o entre a veia tribal de Filipe Neves, comandante de uma “orquestra” de percuss�es africanas e a criatividade e a delicadeza harm�nica Vasco Ribeiro Casais, em bouzouki, flauta e gaitas. Louve-se o risco e a ambi��o de criar a m�sica de raiz pelas pr�prias m�os, sem qualquer repert�rio de recolha, louve-se a ousadia de nada ecoar a portugalidade (apesar de Vasco prometer explorar as nossas tradi��es no pr�ximo �lbum que est�o neste momento a preparar). Mas nem tudo o que luz � ouro. Por vezes, os confrontos entre o tribalismo negro e o “classicismo” da folk europeia ao servi�o das antigas casas de dan�a, � inevit�vel. N�o tanto em disco. Mas mais vis�vel ao vivo. Isso desculpa-se, se atendermos ao facto de os Dazkarieh apresentarem na passada semana sete novos elementos (de onde se destaca o fulgor � irlandesa do violino de Maria Gon�alves), restando apenas os dois elementos e principais mentores do projecto, j� referidos. No final do espect�culo houve quem os congratulasse por se parecerem com os Dead Can Dance. Tamb�m, mas essa faceta � apenas uma pequena por��o do puzzle sonoro que os Dazkarieh apresentam. H� vozes femininas on�ricas, que nos levam a deitarmo-nos nas nuvens e a contemplar a terra (qual Lisa Gerrard em Cly). Mas a liga��o ao solo, quer atrav�s de um certo xamanismo, quer atrav�s do poder do tambor e da fantasia medieval-celto-mediterr�nica (um pouco ao estilo de Ghalia Benali), �vida de tecnologia para ser o ingrediente perfeito numa pista de dan�a trance / house, provoca-nos estados de esp�rito bem mais turbulentos. Um projecto com uma grande margem de progress�o que precisa apenas de tornar um pouco mais consistente o seu espectro sonoro, balizando um pouco melhor o raio de inspira��o.
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ENCONTROS DE M
September 29, 2003
As Cr
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SONS EM TR
September 22, 2003

Susheela Raman
O festival de m
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AT-TAMBUR:A VELHA (NOVA) EUROPA
September 17, 2003

At-Tambur, teatro Gil Vicente, 13 de Setembro
Gostei de ver os At-Tambur no passado S�bado em Cascais. Al�m de me ter sido dado a oportunidade de conhecer mais um teatro hist�rico (o Gil Vicente, t�o bonito quanto o Lethes de Faro), o projecto mostrou em palco todas as credenciais de se tratar, actualmente, de uma das mais interessantes propostas nacionais de miscigena��o de v�rias correntes e �pocas da folk europeia. Longe v�o os tempos em que se limitavam a servir de banda de anima��o de bailes de m�sica tradicional, popularizados pelo Festival Andan�as. Nessa noite assistimos a uma banda personalizada. Que sabe muito bem planear um espect�culo. Foi bonito ver-se a coreografia de duas bailarinas em .Arabesca. e o sapateado � .River Dance. (�s tr�s dan�arinas s� faltou mesmo uma posi��o mais hirta e conseguirem chegar com os p�s � altura das suas cabe�as) em .Jig Horizonto / Dan�a do Urso..
Um jig? Um scotish? Um bourre? Uma mazurca? N�o os podem acusar de n�o serem portugueses. Nem t�o pouco de serem irlandeses, suecos ou franceses. Tudo soa a At-Tambur. Com os defeitos e as virtudes relevados em disco e confirmados em palco. N�o � por acaso que um projecto que trabalha sobre uma matriz de m�sica tradicional granjeia facilmente a simpatia de uma r�dio como a Antena 2, sendo uma presen�a ass�dua no programa da manh� de V�tor Nobre. Os At-Tambur, tem uma abordagem cl�ssica do seu repert�rio, influenciada, certamente, pela r�gida forma��o de alguns m�sicos, que os torna algo formais. No entanto, a postura em palco de um certo distanciamento, n�o condiz com a sua vontade de inovar, de reescrever � sua imagem uma dan�a klezmer (.Israelita.). S�rgio Cris�stomo (violino) e Tiago Costa-Freire (Flautas), dois dos m�sicos mais bem formados (na escola cl�ssica), foram os principais transgressores do formalismo que o projecto respira. S�rgio, o .carregador de piano. e o principal pir�mano, foi impulsionador mor das saud�veis explos�es que fizeram levantar o p�blico das cadeiras. Tiago, o criativo que tem asas . ele voa, voa, voa . � o m�sico vagabundo, de toque nervoso e mais r�pido que a sombra. Anda por toda a parte. Ele � uma das principais almas dos At-Tambur. Escute-se os aerofones em .Arabesca. e .Sueca.. Por aqui passa a sede que o colectivo tem de revolu��o. O Tiago �, pois, a candeia que os ilumina.
Mais discretos, mas n�o menos importantes, de real�ar tamb�m o interessante trabalho da dupla bateria e contrabaixo que, em registo jazz�stico, estendem o tapete r�tmico, com uma grande dose de classe e subtileza, contribuindo decisivamente para a idiossincrasia dos At-Tambur. A cereja em cima do bolo.
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September 15, 2003
J
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FESTA DO AVANTE: DOMINGO, 7SET03
September 12, 2003
RONDA DOS QUATRO CAMINHOS. Entre o c�u e o inferno.
Ver a Ronda dos Quatro Caminhos apresentar ao vivo o disco .Terra de Abrigo. � j� motivo mais do que suficiente para nos deslocarmos � Quinta da Atalaia. No entanto, � pena que, devido a quest�es puramente log�sticas e de organiza��o, um espect�culo que em circunst�ncias normais seria sublime, acabou por se tornar numa frustrante experi�ncia.
� admir�vel a forma como a Ronda conseguiu com .Terra de Abrigo. abanar a toda a sua estrutura e os tiques de m�sica .pumba. (express�o inventada por Ant�nio Pires do Blitz) � volta do ressoar dos bombos e das omnipresentes chulas. N�o foi um pr�dio que caiu e outro que se ergueu dos escombros de uma certa acomoda��o tradicional-urbana de banda de bar, que se vinha a notar nos �ltimos discos. Remodelou-se, por�m, uma nova fachada, com materiais semelhantes, mas com outras cores bem mais vivas. N�o sendo t�o ambiciosos no espect�culo como foram no disco . faltaram outras vozes como a Katia Guerreiro e Amina Alaoui, al�m de uma maior aproxima��o � m�sica �rabe-andaluz . a Ronda cumpriu aquilo que lhe competia fazer. Trouxe para o palco uma orquestra cl�ssica . a Sinfonienta de Lisboa . para proporcionar ao cante alentejano uma maior aproxima��o entre o c�u e a terra. Um puro exerc�cio de levita��o que a Ronda arbitrava. Aqui e ali, l� impunha as marcas do passado. L� vinham as chulas e a dispens�vel voz de Jo�o Oliveira que, apesar de tudo, se conseguia tolerar.
Completamente inexplic�vel foi a decis�o da organiza��o da Festa em programar um concerto destes no pequeno palco do Audit�rio 1� de Maio. Ser� que o palco 25 de Abril estaria assim t�o inacess�vel a um projecto respons�vel por um dos melhores discos de 2003 na �rea da m�sica tradicional? Apesar de tudo, deu-se um milagre de f�sica. Sessenta pessoas em palco, bem aconchegadas entre si, n�o foram suficientes para partir o estrado. A bancada da assist�ncia tamb�m n�o caiu por acaso. No meio dos palavr�es e dos encontr�es (por sorte n�o chegaram a vias de facto) que alguns membros da assist�ncia de meia-idade iam trocando entre si, devido a quest�es m�nimas do deixa ou n�o deixa passar l� para cima, n�o se conseguia escutar NADA. Primeiro, porque estes singelos cidad�os . aptos de imediato a criticar a .malta jovem. do seu mau civismo, seja por que raz�o for . perturbaram, com um burburinho ensurdecedor, durante mais de um quarto de hora (tempo que demoraram a chegar os Seguran�as), todos aqueles que estavam no interior do recinto. Segundo, porque o som tamb�m tinha as suas debilidades. As vozes demasiado elevadas, a orquestra demasiado baixa. Al�m disso, quem estava c� atr�s . n�o se podia ir para a frente dado que a assist�ncia deixou-se ficar sentada, n�o se levantando para permitir aqueles que ficam engalfinhados na entradas, pudessem tamb�m ir l� para dentro . levava com um som enrolado, de lata. Resta-nos a expectativa de vermos este espect�culo numa sala apropriada para a dimens�o do projecto, com condi��es t�cnicas decentes e com um p�blico minimamente educado. Tenho esperan�a que isso aconte�a no CCB, no princ�pio do pr�ximo ano.
REALEJO. A menina dan�a?
A seguir � Ronda, foram os Realejo que, apenas com cinco elementos, encheram e de que maneira o palco do Audit�rio 1� de Maio. Parece que Fernando Meireles concretizou aquilo que deixara subentender no tema final do primeiro disco .Sanfonia. (a .Cantiga 216.) e que desenvolvera a espa�os no �lbum seguinte, .Cen�rios.. O Realejo deixou a carapa�a de fr�gil projecto folk de c�mara, para se tornar numa banda de dan�a semi-ac�stica. A filia��o Blowzabella continua a mesma. A inspira��o subversiva dos Hedningarna assume-se de vez. A portugalidade no meio das composi��es de folk europeia para Sanfona tamb�m continua bem vincada, sobretudo nas m�os de Amadeu Magalh�es. A grande surpresa que os Realejo agora apresentam � a aus�ncia do violoncelo de Of�lia Ribeiro e a inclus�o de um baixista que n�o se limita a marcar passo. Ele torna a m�sica do Realejo muito mais .swingante.. Houve quem dissesse que o Realejo parecia os Shooglenifty. As ra�zes de ambos s�o bem distintas. Contudo, o projecto de Coimbra ganhou uma certa cavalgada r�tmica, semelhante � desses escoceses. Pena � que o espect�culo n�o tenham durado mais do que uns m�seros trinta e tal minutos. Soube a muito pouco.
GALANDUM GALUNDAINA E CRISTINA PATO. A desorienta��o � portuguesa
Houve, por parte da organiza��o, uma tentativa desenfreada de cortar a direito, apesar dos atrasos habituais que vinham de tr�s. Esta n�o deixou a Ronda fazer o encore (o que motivou assobiadelas por parte da assist�ncia), limitou o tempo de actua��o do Realejo que acabaram de tocar �s 17h25. A ideia era que n�o houvesse nenhuma actividade durante o discurso de Carvalhas que come�ou �s 18h. At� aqui tudo bem. Hor�rios s�o para cumprir e h� que cortar a direito para recuperar o tempo perdido. O pr�ximo concerto nesta sala come�ava �s 19h30. S� que, a essa hora e, at� �s 20h30, n�o houve direito ao programado concerto de Galandum Galundaina. Houve sim sound checks dos m�sicos que vinham a seguir aos mirandeses. O facto de estes s� come�arem a tocar uma hora depois do previsto, alterou substancialmente aquilo que tinha programado: ver Galandum at� pouco depois das 20h e ir para o palco 25 de Abril assistir a parte substancial de Cristina Pato. Tive azar. Se o Audit�rio 1� de Maio manteve nos tr�s dias atrasos de uma hora, o 25 de Abril foi sempre certinho. Acabei por ver uns dez ou quinze minutos do primeiro e mais uns dez da segunda. Tive pena de ter perdido o resto de Galandum, porque exibiram a sua habitual genuinidade. O falar mirand�s, a ra�a bruta das gaitas, do tamboril, dos bombos e das flautas pastoris. Levaram tamb�m consigo uma sanfona para interpretarem romances (dado in�dito). N�o tive pena nenhuma da Cristina Pato e arrependi-me de ter vindo para cima. A menina que ainda � muito verde (n�o de cabelo, que desta vez exibia a cor natural, mas de cabe�a . isso notava-se no discurso dela) � bem pior em palco do que nos discos. J� sabia que fazia um misto de rock com folk galego. S� que h� folk rock e folk rock. Resentidos e Siniestro Total s�o uma coisa, aquilo que Cristina Pato apresentou � outra. Bem distinta. Rock FM dos anos 80, pesado, xunga e sensabor�o, ao servi�o dos solos da gaiteira. Imaginem o cruzamento entre os Def Leppard e o Carlos N��ez. Prefiro mil vezes a Susana Seivane.
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FESTA DO AVANTE: S�BADO, 6SET03
September 10, 2003

CantAutores
DAN�AS OCULTAS. A magia das concertinas
No S�bado, cheguei e j� os Dan�as Ocultas estavam em cima do palco do Audit�rio 1� de Maio. Perdi Segue-me � Capela. Mas a cerca de meia-hora que assisti do espect�culo das quatro concertinas encheu todas as medidas. S�o m�gicas estas oito m�os. Como quem n�o quer a coisa, l� v�o deambulando entre uma contempla��o nost�lgica de travo klezmer, servida entre um excerto sensual de bel-musette parisiense, ou entre uma composi��o mais l�dica que nos remete para a mem�ria do esp�rito experimental e foli�o dos Verd e Blu da Gasconha. Volta e meia, puxa-se pelo fole, retira-se-lhe o sopro, marca-se o ritmo com a concertina como se esta fosse um baixo. D� gosto ver a coordena��o em palco dos quatro m�sicos. Parecem uma equipa profissional de ciclismo. Um a um, cada elemento vai � frente do pelot�o puxar por ele. O esfor�o � bem doseado. Sabem revezar-se. Tudo isto com uma linearidade not�vel, embu�do num esp�rito hipnotizante de chill-out. Damos por n�s e perguntamo-nos: - O qu�, j� tocaram meia-hora? A .m�quina. � org�nica, bem oleada, contempor�nea e global. �, talvez, o projecto-lusitano-extra-vozes-de-fado que mais facilmente pode rodar pelos principais festivais europeus de m�sicas do mundo.
BRIGADA V�TOR JARA. Metais de baixa
Foi dos poucos espect�culos que vi no palco principal (o 25 de Abril), gozando excepcionalmente de um concerto a come�ar � hora certa. Como sempre, Manuel Rocha exibiu todos os seus dotes de orador nato. Na Festa estava como peixe dentro de �gua, explicando (mais uma vez) a g�nese do nome do projecto que comemora o seu 30 anivers�rio, com a hist�ria do cantor chileno V�tor Jara que morreu nas garras de Pinochet. Foram, uma vez mais tudo aquilo que j� tinha referido no rescaldo do Interc�ltico do Porto . A �nica diferen�a � que o Sexteto de Tom�s Pimentel estava t�o l� atr�s do extenso palco, que mal se escutava. Parecia que o som das percuss�es (sobretudo estas) e dos restantes instrumentos da Brigada estavam muito mais alto do que o dos metais. Perderam-se os pequenos grandes pormenores que fizeram da actua��o no Interc�ltico um espect�culo memor�vel. De facto, uma sala ou um t�cnico, fazem uma grande diferen�a.
CANTAUTORES: O nervo da can��o
De novo no Audit�rio 1� de Maio e com um certo atraso. Que agrad�vel surpresa foram os CantAutores. O �lbum hom�nimo que lan�aram este ano atrav�s da Associa��o Cultural D.Orfeu, com sede em �gueda, � um bom cart�o de visita que reflecte bem o esp�rito do projecto em Palco. Repescando repert�rio de Jos� Afonso, Fausto e S�rgio Godinho, Lu�s Fernandes (o director musical) evita os lugares comuns destes �cones da can��o portuguesa, optado por um repert�rio maioritariamente menos divulgado. Sem serem muito inovadores, denota-se um certo cuidado nos arranjos orquestrais, ora mais cl�ssicos, ora mais jazz�sticos (�s vezes, algo inspirados pela bossa nova . o come�o de .Europa Nova Europa.). Salta ao ouvido a proximidade t�mbrica entre Lu�s Fernandes e Fausto e entre Miguel Callaz e Jos� Afonso, o bom gosto dos .vientos. (que express�o engra�ada inventada pelos espanh�is): fagote, clarinete, trombone e flautas. Tudo isto regado com uma atitude de entrega ao espect�culo louv�vel, sobretudo da parte de Lu�s Fernandes, a transcender-se na interpreta��o da balada .Por Que Me Olhas Assim. e, sobretudo, em .Sete Mulheres do Minho. (que, infelizmente, n�o faz parte do alinhamento do disco), fazendo levantar da terra boa parte da assist�ncia que se encontrava sentada. Um espect�culo sempre em crescendo que teve o seu climax maior com .um Homem Novo Veio da Mata., no encore. Outros destaques: .Barnab�. e .O Rei Vai Nu. (ambos de S�rgio Godinho).
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FESTA DO AVANTE: SEXTA-FEIRA, 5SET03
September 10, 2003
J� n�o ia � Festa do Avante h� alguns anos. A falta de nomes internacionais que me motivem a sair de casa tem sido uma constante. Este ano n�o foi excep��o. S� que, esta 27� edi��o dava-me a oportunidade de ver num s� fim-de-semana uma m�o cheia de grupos portugueses. Conhecer finalmente as Tucanas e os CantAutores. Ver pela primeira vez em palco a magia de Dan�as Ocultas. Reviver bons momentos do Cantigas do Maio e do Interc�ltico do Porto, com as algarvias Mo�oilas e a Brigada V�tor Jar�, acompanhada do sexteto de metais de Tom�s Pimentel. Saborear ao vivo aquele que � um dos grandes discos da colheita de 2003 de m�sica portuguesa: ?Terra de Abrigo?, da Ronda dos Quatro Caminhos?. Verificar a evolu��o do Realejo que, al�m de ter sofrido mudan�as na sua forma��o, tem trilhado caminhos mais dan��veis, pondo de lado a anterior est�tica mais classicista.
TUCANAS. No in�cio era o tambor.
A noite de sexta-feira foi aziaga. Tinha sa�do de casa pouco antes das nove, com esperan�a de ainda ver a Filipa Pais. S� que a ponte 25 de Abril e a falta de estacionamento na Amora n�o me deixou chegar antes das dez e meia. Mesmo a tempo de ver as Tucanas de in�cio. Elas que arrastam consigo uma consider�vel audi�ncia que sobrelotou o Audit�rio 1� de Maio, onde era dific�limo de entrar, em parte, por culpa daqueles que se sentavam no ch�o, roubando espa�o ao interior e provocando um ajuntamento ca�tico nas sa�das. Uma constante nos restantes dias.
Com uma agenda de concertos sobrecarregada e sem qualquer disco gravado, as Tucanas constituem um verdadeiro fen�meno de popularidade, constru�da palco a palco. O ?grupo de percuss�o criativa?, como elas pr�prias se autodefinem, apresenta-se extremamente bem oleado. Irrepreens�veis ao n�vel coreogr�fico. Sente-se que h� trabalho de casa exaustivo (e quil�metros de estrada em cima), quer quando est�o a bater na chapa e no pl�stico, quer quando v�m para a frente do palco e percutem com as m�os nas pernas, no peito e nos bra�os umas das outras. Bonito de se ver. O projecto � ambicioso. Explora ritmos tribais do cora��o de �frica. Resgata aos anos 80 o esp�rito p�s punk e industrial de Neubauten e de Test Dept. Ecoa a Jap�o, atrav�s dos tais bidons de pl�stico, tocados como se fossem gigantes taikos. O ritmo � tribal, � ancestral, � prim�rio, � agressivo e arrebatador. � l�dico, inocente e infantil. Como conceito � excelente. S� que, nestes moldes, dificilmente far�o um disco aud�vel do princ�pio ao fim, a n�o ser que convidem outros m�sicos, com outros instrumentos (aerofones e cordofones). Ah! J� agora, trabalhem mais essas vozes, sff!
MO�OILAS. O encanto rural
Injustamente, as Mo�oilas foram v�timas dos atrasos e do mau alinhamento do palco do Audit�rio 1� de Maio, tocando para dezenas de pessoas, num espa�o que pouco antes tinha rebentado pelas costuras. Os resistentes, esses, regozijaram com a gra�a das M��oilas na sua interpreta��o idiossincr�tica da tradi��o de repert�rio oral, maioritariamente, oriundo da Serra o Caldeir�o. Singelas, donas de um divino encanto rural, de um delicioso sotaque do sul e um humor fresco e alcoviteiro, as quatro vozes enchem todo o palco. Instrumentos para qu�? N�o Precisam. Elas entram de mansinho, metem a primeira, segunda, terceira, quarta, quinta e disparam com um corridinho. Al�m de recuperarem repert�rio regional, as M��oilas chegam mesmo a adaptar versos para a realidade urbana actual (dando conta de vizinhas que v�em o canal 18) e propositamente para a Festa do Avante, cantando uma esp�cie de cart�o de visita. Que pena n�o ter a letra aqui � m�o. Levem-nas para o estrangeiro que elas merecem.
MARIA ALICE para qu� complicar?
N�o gostei de Maria Alice, apesar da calorosa voz desta. O desfilar de mornas e coladeras provenientes sobretudo do seu �ltimo disco, ?L�grima e S�plica?, foi frio e distante do pouco p�blico. Nota-se que h� bons m�sicos, mas a atitude destes � demasiado previs�vel. Tentam construir uma sonoridade sumptuosa. Para qu� um baterista e um percussionista na mesma banda? � que o som � demasiado linear para tanto aparato. De vez em quando, l� se chega � frente o guitarrista. Com um solo excessivamente cerebral, pouco emotivo. � a t�pica banda de anima��o nocturna, cujo fraque que envergam prende-lhes os movimentos. Oxal� perdessem metade da ?cagan�a? e tocassem com os p�s descal�os e de fato de macaco.
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A CLASSE ECON�MICA DE KEPA JUNKERA
September 5, 2003

Finalmente escrevo sobre o concerto de Kepa Junkera que ocorreu no passado fim de semana, na F�brica da P�lvora. N�o h� d�vida que a Internet veio revolucionar a forma como se comunica e se informa. Poucas horas ap�s o evento j� circulava pela lista de discuss�o das Cr�nicas da Terra v�rias opini�es ao concerto do Kepa, muito tempo antes de qualquer jornal poder exibir o seu artigo (curiosamente, coisa que n�o vi em nenhuma publica��o).
Da� que, passado quase uma semana e ap�s v�rias cr�ticas e refuta��o de cr�ticas de assinantes e das opini�es veiculadas em blogs como a Janela Indiscreta e o Juramento Sem Bandeira, a minha vis�o acaba por ser muito redutora e complementar. No entanto, h� muitos aspectos extra do concerto-de-s�bado-�-noite que merecem ser abordados. Vamos por pontos.
1. Foi um concerto em crescendo, que n�o acrescentou nada �quilo que j� t�nhamos visto em outros palcos. Come�ou morno, acabou menos morno. Kepa continua a exibir todo o seu virtuosismo, mas desta vez houve menos gozo (al�m de o ouvir) em v�-lo tocar. Na Fnac, nos showcases que deu por altura do lan�amento de Bilbao 00:00h, foi muito mais acutilante e imprevis�vel. Tocava com muito mais nervo. Sozinho, com a sua trikitixa, oferecia-nos um espect�culo simples, mas cheio de vitalidade e espontaneidade. Um regalo para os nosso olhos e ouvidos. Aquilo que se viu no S�bado, parece ter sido mais um (entre tantos outros) concerto de um m�sico cansado, acompanhado por outros m�sicos (� excep��o da dupla de percuss�o basca - txalaparta - Oreka TX. Vale a pena ler o que o V�tor Junqueira escreveu sobre eles) sen�o cansados, vulgares, que se limitaram apenas a encher o palco e a m�sica. Apesar de ter logo aos primeiros acordes o p�blico consigo, Kepa abusou da interac��o com o p�blico. Momentos houve de uma certa gra�a quando ele, ao fazer de maestro, conseguia coordenar as palmas do p�blico com o ritmo do baixo e da bateria (outro facto bastante comentado na lista de discuss�o). Mas devia t�-lo feito com brevidade. A sua ac��o arrastou-se, o que quebrou, de certa forma, o crescendo que se sentia no concerto de Kepa, enquanto bel�ssimo instrumentista.
2. A F�brica da P�lvora tem sido palco em outros anos de espect�culos menos conseguidos de outros nomes que j� tocaram por diversas vezes em Portugal. Estou a lembrar-me, por exemplo, do espect�culo do ano passado dos R�dio Tarifa. N�o gostei mesmo nada. Al�m do vento insuport�vel que batia nos microfones, a guitarra el�ctrica estava demasiado alta, comparativamente com o resto dos instrumentos. Em Maio deste ano, em M�rtola, voltei a conciliar-me com a R�dio Tarifa. Por que ser�?
3. � certo que as C�maras Municipais n�o nadam em dinheiro. Ao programarem concertos, tentam faz�-lo pagando o m�nimo cachet poss�vel. As bandas, porque necessitam de vender concertos para sobreviverem, aceitam.
4. Como o Nuno Barros dizia na lista de discuss�o, trazem ?uma vers�o port�til? daquilo que habitualmente fazem. Eu digo que se trata de uma vers�o econ�mica. H� quem prefira em Portugal tocar apenas duas vezes por ano e cobrar tr�s ou quatro mil contos por concerto. S�o op��es. Mas a realidade dos m�sicos mais rodados da folk europeia � bem contr�ria. � obrigat�rio tocar, no m�nimo, 200 a 300 vezes por ano, tendo de suportar um pouco de tudo: m�s condi��es t�cnicas, maus cachets, p�blico que n�o sabe ao que vai, etc, etc, etc. Um desgaste tremendo que facilmente origina noites menos conseguidas.
5. Apesar da actua��o de Kepa Junkera ter sido a que foi. A poss�vel. Pena � que n�o tivesse havido interesse de nenhum jornal em cobrir o evento. Al�m de Kepa ser uma das principais figuras da folk europeia, acabou de lan�ar um duplo �lbum ao vivo, denominado K que �, seguramente, o melhor disco da trilogia mar�tima Bilbao 00h00-Maren -K. Porque � o consumar do esp�rito explorat�rio dos dois anteriores �lbuns. Onde h� mais coes�o e menos desequil�brios. � estranho que isso aconte�a a quem j� recebeu elogios rasgados por diversos �rg�os de imprensa nacional em Bilbao 00h00. Provavelmente, a editora ainda n�o enviou o disco para as redac��es, nem marcou entrevistas.

6. Na lista de discuss�o, argumentou-se a falta do bandolim e do contra-baixo como uma das raz�es de um concerto menos conseguido nessa noite. Argumentou-se ainda que os m�sicos que tocam em Espanha s�o os mesmos que tocaram em Portugal. Isso poder� acontecer em alguns casos, no entanto, h� concertos e concertos de Kepa. Depende da classe. Se � econ�mica (como acima foi referido) ou se � executiva (como aconteceu nas tr�s noites de Bilbao, onde K foi gravado). Quem o viu no s�bado ficou com uma p�lida ideia do que � o duplo �lbum K.
O instrumento Alboka
7. Pelo que me foi poss�vel escutar de K (alguns temas sacados no Soulseek), existe uma s�ria tentativa de cria��o de uma orquestra �tnica (bem conseguida em muitos casos), como ponto interessante de disfar�ar a limita��o da trikitixa enquanto instrumento reconhecida pelo int�rprete. Brilhantes os metais dos canadianos Bottine Souriante em Herrik Shaw. Interessante o duelo trikitixa vs mandolin com Patrick Vaillant (que tem habitualmente tocado em duo com um outro int�rprete de concertina, o italiano Riccado Tesi). On�rico, a conjuga��o das vozes b�lgaras (que talvez tenham demasiado protagonismo ao longo dos dois discos), com o Grupo coral basco Donostia e a Orquestra de Cordas Alos Quartet. Destaque ainda para a sonoridade da alboka de Ibon Koteron, mais um instrumento tradicional basco. Aerofone pastoril, constitu�do por dois chifres de vaca, com um conjunto de buracos entre eles e que produz uma sonoridade drone, t�o ressonante quanto a sanfona. A prop�sito de Alboka, vale a pena conhecer um outro colectivo basco que se apresenta com o mesmo nome do instrumento. A escutar os �lbuns de Alboka, Bi Beso Lur e Lorius.
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