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MARI BOINE: “SAY IT LOUD, I’M SAMI AND I’M PROUD”

November 30, 2003 · Print This Article


Mari Boine cobrindo-se com a bandeira da Lap?nia

N?o. Mari Boine n?o lutou pelos direitos civis da popula??o negra norte-americana, mas ? uma esp?cie de zapatista S?mi que tem contribu?do para que o seu povo, aqueles que “foram empurrados para o tecto do mundo” sintam mais orgulho da sua cultura.

Mari Boine ? a senhora que encerra a segunda edi??o do festival Sons em Tr?nsito de Aveiro. Na cidade ? beira-ria, d? o seu ?ltimo concerto da sua digress?o. Depois disso, pretende descansar durante dois meses para preparar o pr?ximo disco, que dever? sair em 2005 ou 2006. Ser? o regresso ?s origens, ao som mais org?nico, ap?s a experimenta??o electr?nica com o produtor de electro-jazz noruegu?s Bugge Wasseltoft em “Eight Seasons” e do lan?amento do disco de remixes de alguns dos temas mais simb?licos da sua carreira. N?o renega a hip?tese de voltar a incluir electr?nica em discos futuros, mas h?-que ir com calma e desde que isso n?o “retire a espiritualidade ? minha voz”. Pode presup?r-se que o resultado de “Eight Seasons” e do ?lbum de remisturas n?o foi inteiramente do seu agrado. Boine escuda-se; Afima: “n?o ? que n?o goste de trabalhar com electr?nica, mas n?o ? isso que quero fazer no futuro”; e destaca apenas duas ou tr?s remixes de que realmente gostou: a de “Gula Gula”, a realizada pelos Biosphere e pelo seu saxofonista.

A pausa de cerca de dois anos que ocorreu depois do lan?amento de “Room of Worship” (1998), permitiu a Mari participar em v?rios projectos com outros m?sicos de g?lidas latitudes: Farlanders, do qual vivia a resultar o disco “Winter In Moscow” e o projecto multinacional que envolvia dois m?sicos tamb?m russos, um senegal?s, um indiano e o cantor dos Huun Huur Tu de Tuva, os Vershi da Koreshki. Tempos conturbados em que parte dos elementos da banda de Mari Boine foram ? sua vida colaborando com o queniano Ayub Ogada, ou multiplicando-se em in?meros projectos, como ? o caso da criativa violinista Hege Rimestad. “Foi como um div?rcio, por vezes n?o consegues compreender o que aconteceu”, tenta explicar Mari Boine a causa afastamento desta norueguesa. Da anterior forma??o, restam agora apenas dois elementos. Destaque ?bvio para o peruano das flautas, Carlos Quispe. Para a yoikker, ele ? um elemento chave na forma??o devido ? sua “espiritualidade e profundidade enquanto ser humano”. Homem das montanhas andinas, que d? uma tonalidade mais xam?nica ao projecto.

Zapatista xam?nica.

A sua m?sica, al?m de combinar arranjos de jazz com yoik, tem uma veia extremamente xam?nica.Se repararmos, os xamans encontram-se em partes difusas do nosso planeta. Na Lap?nia, na Sib?ria, na Austr?lia, nas Am?ricas. Que leitura faz deste “puzzle” com peda?os espalhados pelo mundo? Como ? que a sua m?sica recebe essas influ?ncias?

? a cultura original de todo o ser humano. Era a cultura que vigorava quando o homem estava muito pr?ximo da natureza. N?o ? exclusivo apenas da Lap?nia, existe at? mesmo na Europa. A Cultura Celta tem esses elementos. ? quando se torna interessante. A minha cultura n?o ? apenas restrita ao local de onde venho, ? universal. ? como um tesouro que certas pessoas tiveram o privil?gio de o preservar. N?o percas isto! Este ? o teu presente.

Quando os Crist?os colonizaram a Noruega, proibiram que se cantasse o yoik e queimaram todos os “Shaman Drums”, al?m dos violinos tatuados. Era a m?sica do diabo, diziam eles. Ainda cresceu no seio de uma gera??o em que era proibido cantar joik e falar-se o seu dialecto sami nas escolas. At? que ponto ? que este panorama se tem alterado?

Agora as nossas crian?as j? fala sami nas escolas e cantam yoik sem restri??es. No entanto, continua a haver um grupo crist?o muito fundamentalista. Afirma que n?o deve ensinar as crian?as a cantar desta forma e que o yoik nunca ser? permitido na igreja.
? o medo que eles t?m dentro deles acerca da natureza. Se olhar para a hist?ria, observa o que inquisi??o fez. Durante todos estes anos, temos lutado com algo que est? dentro do n?s. O homem a lutar contra sua a natureza. Gosto de ver isto como um todo, n?o apenas como uma simples opress?o Sami. O opressor oprime uma parte de si pr?prio. Precisamos de voltar a ter esta liga??o com a natureza e de ter orgulho nisso.

Considera-se uma Zapatista Sami?

N?o sei o que ? o Zapatismo.

? o s?mbolo de resist?ncia ind?gena no M?xico liderado pelo Subcomandante Marcos que, atrav?s de can??es e poemas tem tentado chamar a aten??o dos media mundiais para a luta dos direitos dos ind?genas mexicanos a n?o abdicarem das suas terras.

Penso que ? o que sou (ri-se). Mas penso que na Escandin?via a situa??o social para o meu povo ? muito melhor do que a dos Mexicanos. No entanto, continua a haver discuss?o sobre posse de terras. ? uma situa??o dif?cil para a Escandin?via aceitar isso. N?o somos noruegueses, finlandeses ou suecos, somos uma comunidade que possu?a essas terras antes de sermos colonizados. Isto ? algo que est? a come?ar a ser discutido.

Ao longo de quase vinte anos de carreira como cantora de interven??o, o que ? que conseguiu conquistar para a sua causa e para o seu povo?

As pessoas est?o mais orgulhosas em serem Samis, j? n?o se sentem t?o envergonhadas. Os jovens t?m ?dolos Samis, o que ? importante para esta gera??o. Fala-se mais abertamente de como nos sent?amos envergonhados da nossa cultura. Muitos Samis queriam esquecer a sua cultura, a sua l?ngua e falavam com os seus filhos em noruegu?s. Isto tem mudado. Tem havido maior abertura. Essa mudan?a s? se d? quando as pessoas se tornam mais orgulhosas de si pr?prias. As mudan?as n?o v?m de um governo, vem de um povo que come?a a sentir-se orgulhoso.

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