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[Entrevista AMPARANOIA] A luta que a vida dá

June 30, 2006

Depois de ter actuado há dois anos na tenda raízes do Rock in Rio, o projecto AMPARANOIA de AMPARO SANCHEZ regressa ao nosso país, agora ao Festival Med de Loulé, para apresentar o mais novo registo, “La Vida Te Dá”. Este é um dos concertos mais aguardados de um projecto que recentemente conquistou um dos BBC Radio Awards da Radio 3 e que assinou um dos seus melhores discos, após uma digressão e visita ao México e à comunidade indígena Zapatista de “San Cristobal” para rodar o documentário “Somos Viento”. Segue-se a conversa por e-mail com a carismática Amparo.

- O seu pai cantava flamenco quando fazia pão e a sua mãe boleros cubanos quando bordava. De que forma é que a tua família a influenciu a começar uma carreira artística? Que cantores escutava com os seus pais?

Creio que a infância, o sítio onde cresces e a música que te rodeia influncieam a tua via a forma de te expressares. Sem dúvida que o facto de ser do sul de Espanha e de ter uma família amante de música contribuiu para que fosse o que sou hoje.

- O seu primeiro filho nasceu quando tinha 16 anos. Acha que o facto de ter sido mãe muito jovem lhe deu mais garra para lutar pelos direitos das mulheres, das minorias étnicas?

Sim. Deu-me garra para lutar e para demonstrar ao meu flho e a mim mesma que apesar de ser jovem seria responsável, sem deixar de sonhar. Sempre quis ser cantora.

- A AMPARO é uma revolucionária. Mas a sua revolução é colorida, alegre, poética. Esse é o reflexo da sua admiração pela causa zapatista que luta com canções e poemas?

Sem dúvida que a luta zapatista é o movimento com o qual mais me identifico. De alguma maneira isso está presente nas minhas canções. Convida à revolução interior, a actuar localmente, a reparar o que está mal ao teu redor.

- Disse uma vez que a revolução acontece no interior de cada ser humano. Como pretende mudar o mundo?

Creio que o mundo está a mudar. Os poderosos e corruptos tendem a ser descobertos e são cada vez mais as pessoas que trabalham a favor dos direitos humanos e por um mundo mais justo.

- Disse à revista FRoots que “a música pode acompanhar-nos, dar-nos força, abrir-nos os olhos e manter-nos interessados em outras culturas”. Só a música é que lhe permite evoluir enquanto ser humano?

Esse foi o caminho que elegi para crescer enquano pessoa, para conhecer outras culturas e outras gentes. Mas cada um sabe de si. Cada um deve descobrir o seu próprio caminho.

- Quando se mudou do Sul de Espanha para Barcelona começou a tocar com muita gente que representa a força actual da música mestiça: MANU CHAO, MACACO, DUSMINGUET, FERMIN MUGURUZA e OJOS DE BRUJO, entre outros. O que é que aprendeu com toda esta gente?

O meu maestro foi MANU CHAO. Fermin tem toda a minha admiração e respeito, assim como todos os outros grupos que apareceram depois de Amparanoia. Creio que todos temos aprendido uns com os outros.

- É esse grande sentimento comunitário e participativo que existe na Zona Bastarda de Barcelona responsável pela grande força da música mestiça?

Na verdade, no princípio havia essa união. Agora há muitos músicos que se afastam desse movimento. Sigo unida com as pessoas que sempre foram meus amigos e que eu considero familiares. Dos outros não sei nada.

- Também teve a oportunidade de viver em Marselha.Aí há músicos locais que colaboram com músicos do norte do Brasil, como por exemplo MASSILIA SOUND SYSTEM e LA TALVERA com SILVÉRIO PESSOA. Por que é que não existe uma troca de experiências entre Marselha e Barcelona, uma vez que os muitos dos músicos de ambas as cidades parecem estar na mesma sintonia?

Creio que as coisas têm de surgir naturalmente. As colaborações fazem-se quando há química e são espontâneas. De alguma forma, apaixonas-te pelo que os outros fazem e desejas fazer algo com eles.

- O que é que mudou na vida de AMPARANOIA pelo facto de terem conquistado um dos prémios de World Music de 2005 da BBC Radio 3, referente a melhor banda europeia? Mais digressões? Maior reputação?

Abrem-se mais portas para novos países. Sentimo-nos reconhecidos depois de tantos anos de trabalho.

- A sua música mestiça faz-me acreditar que o flamenco, o son cubano, a rumba catalã, a música cigana do centro da Europa e as rancheras mexicanas fazem parte da mesma família. Qual o ponto comum a todas estas músicas que permitem a Amparanoia unir de forma perfeita todas as peças deste “puzzle”?

É essa a minha tarefa. A de unir todas as músicas que me influenciam e que me tocam no coração e de ir buscar todos os pontos de encontro.

- Depois de ter realizado o documentário “Somos Viento” em San Cristobal, no Sul do México, o que pensa fazer para tentar melhorar a vida dessa comunidade indigena? Será a música a melhor arma para lutar contra a opressão ou há outras forma mais eficaz?

Foi muito importante para mim visitar as comunidades indígenas zapatistas e poder partilhar com as pessoas esse encontro. Tentamos mostrar em 50 minutos a luta destes povos, a nossa luta, as canções deles que nos inspiraram. Gostaria que este documentário servisse para que as pessoas vejam que a resistência nos dá liberdade e dignidade. É um exemplo de luta pacífica.

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SOUAD MASSI

June 30, 2006

Parece frágil. É graciosa. As suas canções em língua árabe e guitarra com toques de flamenco viciam os menos habituados ao que está para além da língua anglo-saxónica e francófona.
Quem a escuta não imagina que esta argelina vive há mais de seis anos exilada em Paris, por abordar assuntos tabu para certos muçulmanos. As suas canções exultam a mulher independente, que pensa pela própria cabeça, liberta de tradições matrimoniais que amordaçam o sexo feminino.
Em Loulé apresenta “Mesk Elil”. Um álbum da uma cantautora amadurecida, repleto de verdadeiras pérolas da pop árabe.

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THINK OF ONE: Nómadas da cidade.

June 28, 2006

Não consta que sejam ciganos. Nem tão pouco artistas de circo. Para os seis elementos dos flamengos THINK OF ONE, a vida é feita na estrada, sem nunca estar parado, sempre à procura de alguém desconhecido para tocar. O mentor do projecto, David Bovée, chega mesmo ao ponto de viver diariamente no interior da “naftmobiel”, carrinha transformada em palco móvel com três níveis, com amplificação e luzes de palco incorporados. Ora em Antuérpia (cidade de origem desta formação), ora em Gent, ora em Bruxelas.

Inicialmente, os THINK OF ONE (TOO) eram uma “brass band” de 20 elementos, semelhante a uma banda filarmónica da Flandres. Em vez dos “standards”, desde cedo começaram a interpretar repertório dançável, com influências dos ciganos dos Balcãs.

A necessidade de mobilidade e de tocar de forma mais imediata, reduziu o projecto de duas dezenas de músicos para uma base de 6 elementos. A partir desta estrutura, os músicos dos TOO desdobram-se em múltiplas experiências. Mantêm o espírito da “brass” de dança, através do projecto NAFT. Lançam-se de corpo e alma à música de transe “gnawa” do norte de África em comunhão com quatro músicos marroquinos. Recentemente gravaram com vozes Inuits (esquimós) do Canadá. Em breve, pretendem viajar até Kinshasa – Congo - para, quem sabe, participarem num novo volume de Congotronics (seria demasiado bom se isso acontecesse).

Contudo, o projecto que lhes tem trazido maior notoriedade e permitido tocar com maior regularidade fora da invernosa Bélgica (e que os trará a Lisboa e a Loulé), chama-se “Tráfico”. A eles juntam-se a sexagenária Dona Cila do Coco (voz), Cris Nolasco (voz / percussão), Ganga Barreto (voz / percussão) e Carranca (percussão). Com as raízes e as antenas sintonizadas entre a Bélgica e a região brasileira de Pernambuco, criaram os álbuns “Chuva em Pó” (2004) e “Tráfico” (2006) que alguém poderia lembrar-se de os classificar como “mangue-flemish-punk-brass-beat”. Para o “caranguejo com cérebro” David Bovée, o espírito dos THINK OF ONE (nome inspirado num tema de Thelorious Monk) é fazer música como uma multi-vitaminada sopa. Levam-se vários ingredientes ao lume, trituram-se os legumes e serve-se o creme. No caldeirão de “Tráfico”, cabem os ritmos tradicionais nordestinos, como o coco, cavalo marinho, o maracatu, o frevo e o forro (várias vezes servidos em Portugal por mestres de cerimónias como MESTRE AMBRÓSIO, NAÇÃO ZUMBI, CASCABULHO e CABRUÊRA) e ainda o punk / hardcore, o jazz latino, o reggae e o funk. É neste triturar e misturar de estilos que reside a força dos Think of One. Não só os seis belgas parecem ter vivido toda a vida à beira dos manguezais de Pernambuco, como Dona Cila do Coco parece beber um elixir da força e da juventude para cantar com a garra de uma “rrrriot girl” de 20 anos. Ora comecem por escutar “Tahina”.

os THINK OF ONE actuam hoje em Lisboa, no festival Rotas e amanhã em Loulé, no Festival Med

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YASMIN LEVY

June 28, 2006

A israelita Yasmin Levi é a autora de “La Juderia”, uma das surpresas mais extraordinárias do ano passado e que lhe valeu a nomeação para os prémios anuais da BBC de músicas do mundo. Dona de uma voz invulgar, Yasmin interpreta a uma colecção incandescente de canções que contaminam o flamenco com as raízes musicais “ladino” (uma expressão multifacetada que denomina os complexos intercâmbios culturais que resultaram da diáspora da comunidade judaica pelas orlas do Mediterrâneo após expulsão da península ibérica no século XV), acompanhada por instrumentos tradicionais de origem árabe, como o oud e qanun, e percussão e flauta. “La Juderia” e o concerto arrebatador no festival Womad do ano passado bastarão para justificar uma deslocação a Loulé. [Familycat]

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Festival Med de Loulé arranca hoje com cartaz de luxo

June 28, 2006

CRISTINA BRANCO e a israelita ladina YASMIN LEVY abrem hoje mais uma edição do Festival Med de Loulé que no ano passado nos ofereceu aquele que foi para o editor desta publicação o segundo melhor concerto de 2005 - LO’JO (e só não foi o primeiro porque o mestre ALI FARKA TOURÉ pisou solo lisboeta em Julho de 2005). No dia seguinte à folk electrónica escocesa com CAPERCAILLIE e sopa multivitaminada flamenga com os THINK OF ONE - Projecto TRÁFICO. Na sexta, novo duelo de saias em que medem forças no palco da cerca a argelina radicada em França SOUAD MASI, autora do muito badalado “Mesk Elil” e a andaluz AMPARO SANCHEZ com o seu projecto AMPARANOIA. Sábado, dia 1 de Julho, o gumbe de MANECAS COSTA abre para a festa reggae francesa dos BABYLON CIRCUS. O Med encerra no domingo com os algarvios MARENOSTRUM que convidam a cabo-verdiana MARIA ALICE e com a ilustre e carismática ORCHESTRA NATIONAL DE BARBÉS da Argélia. De referir que pelos palcos secundários também irão passar novos e interessantes grupos da nova música portugal de inspiração tradicional como DAZKARIEH e MANDRÁGORA. Consultem o programa integral no site do festival.

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[Entrevista GAITEIROS DE LISBOA]: “O nosso caminho natural é o do Mediterrâneo”

June 27, 2006

gaiteiros

@Mário Pires

Excerto da entrevista com CARLOS GUERREIRO que passou na emissão da Terra Pura de 19 de Junho 06

Na altura em que gravaram o disco, decidiram editá-lo através de uma editora estrangeira de modo a terem outra visibilidade. Entretanto passaram-se seis meses e o disco é editado através da Sony BMG. O que é que correu mal neste processo?

Carlos Guerreiro: O disco anterior foi editado pela Adufe, editora da casa, sem meios de promoção. Vendeu-se o que se vendeu, mas o grupo foi perdendo visibilidade. Uma editora é outra coisa, tem outra máquina a funcionar. Por outro lado, o nosso público, o público que nos entende como eu gostaria de ser entendido não está em Portugal. Vamos à Alemanha, à Holanda ou a França e temos pessoas sentadas a analisar atentamente aquilo que ouvem. Coisa que em Portugal não acontece. As pessoas gostam, batem palmas, dão pulos. Mas aquela nota que nós metemos lá, aquela subtileza, só nós é que sabemos e mais ninguém. Estivemos uma vez num festival da Córsega onde estavam os maiores craques da crítica musical francesa e os tipos vieram bater em todos os pontos que nunca nos tinham falado em Portugal. É outra coisa.
Daí todo este interesse. Já que não é de dinheiro que andamos à procura (claro que também gostamos de ganhar algum com isto), ao menos que sejamos reconhecidos a nível de prestígio e qualidade. Como tal demos prioridade à procura de uma editora estrangeira. Uma das editoras contactadas foi a Galileu [de Espanha] que nos enviou inclusivamente o contrato. Os contratos não são para assinar de imediato, são para estudar e reflectir e contra-propor. Como caímos na asneira de dizer que estávamos com pressa, eles disseram-nos: “ – Ou é assim, ou é melhor irem bater a outra porta”. Como tínhamos de facto muita pressa, apareceu a possibilidade da Sony e fomos por aí. Não está excluída a possibilidade de voltarmos à carga daqui por seis meses.

- Este contrato com a Sony é somente de distribuição nacional.

- Não tenho o contrato presente, mas acho que a Sony tem uma prioridade de seis meses para o poder distribuir no estrangeiro. Se não o fizer perde esse direito preferencial.

- De qualquer forma o disco sai a 26 de Junho. Acaba por ser um num tempo recorde.

- Sim agora estamos todos a correr. Vamos uma vez mais andar a correr e à pressa.

- O que é que o dia 27 nos reserva em termos de grandes surpresas? Presumo que haja dois convidados óbvios: Mafalda Arnauth e Manuel Rocha.

- Sim. E a grande surpresa que não entrou no disco. Aquele tema de homenagem ao Carlos Paredes [“Movimentos Perpétuos”] foi o Zé Salgueiro que tocou Xilofone, mas nem ele tem técnica para o tocar de uma vez só. O Xilofone é um instrumento muito complexo. O Zé Salgueiro é mais um percussionista rítmico do que um percussionista melódico. Não vamos fazer mal aquilo que poderia ser bem feito. Ele foi o primeiro a sentir isso, pegou no telefone e convidou o Pedro Carneiro. É uma máxima honra termos o Pedro Carneiro a tocar o tema do Carlos Paredes e, provavelmente outro da sua autoria. É um desperdício ter o Pedro Carneiro em cima do palco a tocar só um tema.

- O que é que falta aos músicos portugueses da área tradicional [que não interpretem fado] para vingar lá fora. Isto é, para tocar com maior regularidade, como certos fadistas?

Acho que o fado foi imposto. Não é nada contra o fado, acabei de compor um para este disco. É uma fama que vem de longe a de transformar o fado na música nacional. Isso foi uma coisa “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”. Ainda hoje e apesar de todas as campanhas que todos os músicos do país fizeram contra isso, sem que fosse uma luta contra o fado, faz com que o fado posto em competição com outra música tenha um peso desigual. Basta dizer que fomos nomeados para aquele prémio de World Music da BBC, conjuntamente com Madredeus e Mariza e é evidente que ganhou a Mariza. Independentemente do grande valor que ela tem, acho que ganhou por ser fado. Ainda hoje a Mísia vende um disparate de discos na Holanda. Acho muito bem que ela venda. O que lamento não é o facto de o fado vender por ser uma música particular, mas sim pelo simples facto de o fado ser fado. Isso faz com que haja uma certa cegueira em relação ao resto da música que se faz em Portugal. Cada vez que nós e outros grupos tradicionais portugueses saímos para o estrangeiro, vamos para um circuito. O circuito dos festivais daquele tipo de música e às vezes não é raro que os outros grupos que lá estão são muito piores que os portugueses. Muitas vezes não são os festivais da qualidade. São os festivais daquela música. Da música dos coitadinhos, muitas vezes. Acho que é assim mesmo. É tudo uma questão de marketing. Os grupos africanos estão extremamente na moda graças a uma máquina que os promoveu. Se tivéssemos máquinas em Portugal a promover a Ronda dos Quatro Caminhos, se calhar eles estavam lá em cima.

- Agora vou ser um bocado provocador. Não achas que os Gaiteiros de Lisboa podiam ser vendidos de várias formas? Quer como folk celta português, quer como folk mediterrânico?

Já sabes a minha posição em relação a essa história do folk celta. Não concordo muito. Mas acho que o nosso caminho natural é mesmo o caminho do Mediterrâneo, das canas do “harundo donax”, a cana com que se fabrica a palheta dos instrumentos que tocamos. Isso faz-me impressão por que já lá devíamos de estar. Tínhamos obrigação de já ter ido a não sei quantos festivais da Bacia do Mediterrâneo, sejam eles da Córsega, da Sardenha, do Egipto, do Algarve, de Marrocos…Acho que toda a nossa linguagem está para aí virada.
Acho que o nosso país andar de olhos postos nos celtas… eh pá! Acho que sim. Mas acho que isso vem matar também um bocado… acho que estes grupos que se dedicam à música tradicional portuguesa andam muito atrás de um modelo que não é o seu. O Mediterrâneo sim. Acho que nós e todos os grupos que tocam música tradicional portuguesa deveriam olhar mais para o Mediterrâneo do que para o Norte. Já bastam os Galegos com a mania que são Celtas.

Já bastam os galegos com a mania de que são Celtas.

Entrevista integral em versão mp3 (57 minutos, 80 megas), aqui

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[Entrevista GAITEIROS DE LISBOA]: “O nosso caminho natural é o do Mediterrâneo”

June 27, 2006

gaiteiros

@Mário Pires

Excerto da entrevista com CARLOS GUERREIRO que passou na emissão da Terra Pura de 19 de Junho 06

Na altura em que gravaram o disco, decidiram editá-lo através de uma editora estrangeira de modo a terem outra visibilidade. Entretanto passaram-se seis meses e o disco é editado através da Sony BMG. O que é que correu mal neste processo?

Carlos Guerreiro: O disco anterior foi editado pela Adufe, editora da casa, sem meios de promoção. Vendeu-se o que se vendeu, mas o grupo foi perdendo visibilidade. Uma editora é outra coisa, tem outra máquina a funcionar. Por outro lado, o nosso público, o público que nos entende como eu gostaria de ser entendido não está em Portugal. Vamos à Alemanha, à Holanda ou a França e temos pessoas sentadas a analisar atentamente aquilo que ouvem. Coisa que em Portugal não acontece. As pessoas gostam, batem palmas, dão pulos. Mas aquela nota que nós metemos lá, aquela subtileza, só nós é que sabemos e mais ninguém. Estivemos uma vez num festival da Córsega onde estavam os maiores craques da crítica musical francesa e os tipos vieram bater em todos os pontos que nunca nos tinham falado em Portugal. É outra coisa.
Daí todo este interesse. Já que não é de dinheiro que andamos à procura (claro que também gostamos de ganhar algum com isto), ao menos que sejamos reconhecidos a nível de prestígio e qualidade. Como tal demos prioridade à procura de uma editora estrangeira. Uma das editoras contactadas foi a Galileu [de Espanha] que nos enviou inclusivamente o contrato. Os contratos não são para assinar de imediato, são para estudar e reflectir e contra-propor. Como caímos na asneira de dizer que estávamos com pressa, eles disseram-nos: “ – Ou é assim, ou é melhor irem bater a outra porta”. Como tínhamos de facto muita pressa, apareceu a possibilidade da Sony e fomos por aí. Não está excluída a possibilidade de voltarmos à carga daqui por seis meses.

- Este contrato com a Sony é somente de distribuição nacional.

- Não tenho o contrato presente, mas acho que a Sony tem uma prioridade de seis meses para o poder distribuir no estrangeiro. Se não o fizer perde esse direito preferencial.

- De qualquer forma o disco sai a 26 de Junho. Acaba por ser um num tempo recorde.

- Sim agora estamos todos a correr. Vamos uma vez mais andar a correr e à pressa.

- O que é que o dia 27 nos reserva em termos de grandes surpresas? Presumo que haja dois convidados óbvios: Mafalda Arnauth e Manuel Rocha.

- Sim. E a grande surpresa que não entrou no disco. Aquele tema de homenagem ao Carlos Paredes [“Movimentos Perpétuos”] foi o Zé Salgueiro que tocou Xilofone, mas nem ele tem técnica para o tocar de uma vez só. O Xilofone é um instrumento muito complexo. O Zé Salgueiro é mais um percussionista rítmico do que um percussionista melódico. Não vamos fazer mal aquilo que poderia ser bem feito. Ele foi o primeiro a sentir isso, pegou no telefone e convidou o Pedro Carneiro. É uma máxima honra termos o Pedro Carneiro a tocar o tema do Carlos Paredes e, provavelmente outro da sua autoria. É um desperdício ter o Pedro Carneiro em cima do palco a tocar só um tema.

- O que é que falta aos músicos portugueses da área tradicional [que não interpretem fado] para vingar lá fora. Isto é, para tocar com maior regularidade, como certos fadistas?

Acho que o fado foi imposto. Não é nada contra o fado, acabei de compor um para este disco. É uma fama que vem de longe a de transformar o fado na música nacional. Isso foi uma coisa “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”. Ainda hoje e apesar de todas as campanhas que todos os músicos do país fizeram contra isso, sem que fosse uma luta contra o fado, faz com que o fado posto em competição com outra música tenha um peso desigual. Basta dizer que fomos nomeados para aquele prémio de World Music da BBC, conjuntamente com Madredeus e Mariza e é evidente que ganhou a Mariza. Independentemente do grande valor que ela tem, acho que ganhou por ser fado. Ainda hoje a Mísia vende um disparate de discos na Holanda. Acho muito bem que ela venda. O que lamento não é o facto de o fado vender por ser uma música particular, mas sim pelo simples facto de o fado ser fado. Isso faz com que haja uma certa cegueira em relação ao resto da música que se faz em Portugal. Cada vez que nós e outros grupos tradicionais portugueses saímos para o estrangeiro, vamos para um circuito. O circuito dos festivais daquele tipo de música e às vezes não é raro que os outros grupos que lá estão são muito piores que os portugueses. Muitas vezes não são os festivais da qualidade. São os festivais daquela música. Da música dos coitadinhos, muitas vezes. Acho que é assim mesmo. É tudo uma questão de marketing. Os grupos africanos estão extremamente na moda graças a uma máquina que os promoveu. Se tivéssemos máquinas em Portugal a promover a Ronda dos Quatro Caminhos, se calhar eles estavam lá em cima.

- Agora vou ser um bocado provocador. Não achas que os Gaiteiros de Lisboa podiam ser vendidos de várias formas? Quer como folk celta português, quer como folk mediterrânico?

Já sabes a minha posição em relação a essa história do folk celta. Não concordo muito. Mas acho que o nosso caminho natural é mesmo o caminho do Mediterrâneo, das canas do “harundo donax”, a cana com que se fabrica a palheta dos instrumentos que tocamos. Isso faz-me impressão por que já lá devíamos de estar. Tínhamos obrigação de já ter ido a não sei quantos festivais da Bacia do Mediterrâneo, sejam eles da Córsega, da Sardenha, do Egipto, do Algarve, de Marrocos…Acho que toda a nossa linguagem está para aí virada.
Acho que o nosso país andar de olhos postos nos celtas… eh pá! Acho que sim. Mas acho que isso vem matar também um bocado… acho que estes grupos que se dedicam à música tradicional portuguesa andam muito atrás de um modelo que não é o seu. O Mediterrâneo sim. Acho que nós e todos os grupos que tocam música tradicional portuguesa deveriam olhar mais para o Mediterrâneo do que para o Norte. Já bastam os Galegos com a mania que são Celtas.

Já bastam os galegos com a mania de que são Celtas.

Entrevista integral em versão mp3 (57 minutos, 80 megas), aqui

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Granitos Folk apresenta Paddy B., Pé na Terra, Pula-lhe o Pé, Lúmen

June 22, 2006

O Contagiarte recebe a partir de hoje, até ao próximo sábado, a terceira edição do “Festival Granitos Folk”. Mais um evento na invicta que divulga alguns dos mais interessantes novos projectos folk nacionais, depois de a Casa da Música nos ter oferecido o “Festival de Música Tradicional Portuguesa” no início do mês de Fevereiro.

O dia de hoje reserva-nos a apresentação de um dos projectos do gaiteiro RICARDO COELHO, os PÉ NA TERRA (às 23h30). Uma hora depois, há música tradicional irlandesa com o alemão PADDY B e os CELTIC EXPRESS. a Noite termina com o “giradisquismo” do OSGA, ou não fosse esta uma quinta-feira, habitualmente reservada às “Noites Folk”.

Amanhã (23h30), depois da sardinhada de São João (com início a partir das 19h30), haverá PULA-LHE O PÉ, um dos projectos de comunhão luso-galaica com as galegas FELISA SEGADE, MERCEDES ARRIBES, MERCEDES PRIETO e MONTSE RIVERA, para além dos portugueses MIGUEL BARRIGA (MONTE LUNAI) e CELINA DA PIEDADE (de tantos e tantos projectos de danças tradicionais e não só).

O Granitos Folk encerra, sábado (23h30), com os autores de um dos mais interessantes discos folk deste ano, gravados por grupos portugueses: “Fogo Dançante” dos LÚMEN. Projecto de JOSÉ FLÁVIO MARTINS que nasce das cinzas dos ROLDANA FOLK. Um exemplo de como se pode dar um abanão “pop”, cheio de “groove”, à música popular portuguesa, profundamente inspirada nas tradições galega e irlandesa, por via de um baixo muito marcado (influências de Bill Laswell? Jah Wobble?), uma bateria que não abafa os instrumentos mais frágeis, um acordeão fugidio, com arrancadas desiquilibradoras de HELENA SOARES (a quem o corridinho lhe parece correr nas veias), e um notável naipe de aerofones (gaita, gralha, flautas) pelo “druída” de serviço, RICARDO COELHO. Oiçam “Ska Celta” e digam lá se não vos parece que os SPECIALS e os POGUES se encontraram num bar irlandês do Porto para beber uma dúzia de “pints”?

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