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Posted 19 de Abril de 2007 by Rei, L. in Notícias
 
 

“Armada” portuguesa conquista México

marenostrum
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MARENOSTRUM

GALANDUM GALUNDAINA, DAZKARIEH, MARENOSTRUM, MUSICALBI, MANUEL OLIVEIRA, LUMEN, MARGARIDA GUERREIRO e o projecto de poesia A MUSA AO ESPELHO (de JOSÉ CARLOS TINOCO) participam na semana portuguesa da quarta edição do Festival mexicano Ollin Kan, que se realiza entre 26 de Abril e 20 de Maio, na Cidade do México. Este é um mega-festival, ao nível daqueles que se realizam em países mais abastados (Europa do Norte), “das culturas em resistência” que, em 22 dias, apresentará 72 grupos internacionais, 37 nacionais que irão efectuar mais de duas centenas de espectáculos de rock, rap, flamenco, folk “celta”, son cubano, rumba, salsa, calypso, música mandinga, bossanova, tango, etc, em mais de uma dezenas de palcos / espaços tão díspares quanto auditórios em fóruns culturais, esplanadas, bosques, parques ecológicos, complexos desportivos, etc. Carlos Bartilloti, produtor e agente sediado em Matosinhos, responsável pela selecção dos projectos nacionais que partem para o México no início de Maio, responde a algumas perguntas formuladas pelas Crónicas da Terra.

Como é que um país como o México consegue produzir um festival com esta dimensão, ao nível de um evento organizado por um dos mais ricos países do mundo?

Eu penso que a razão do sucesso e da grande dimensão deste Festival tem muito a ver com a pessoa do seu director, José Luís Cruz e da sua equipa. O lema do José Luís Cruz é que “se acham que é impossível nós fazemos”. Há nesta equipa uma postura de audácia, de uma certa ” loucura saudável ” que lhes tem permitido vencer os obstáculos do orçamento, da multiplicidade de grupos e de nacionalidades, problemas inerentes à burocracia de emissão de vistos de entrada, logística, etc. Há que ousar sonhar e eles sonharam. Têm um enorme entusiasmo, acreditam profundamente no projecto e neles próprios e transmitem isso, contagiando-nos a todos nós, participantes, a embarcar nesta aventura.

A que se deve o interesse de José Luís Cruz na música portuguesa? Afinal este festival intitula-se de “culturas em resistência”. Parece tratar-se de um evento de povos indígenas ou de culturas ameaçadas. Estará a cultura portuguesa ameaçada?

Há dois anos conheci o José Luís Cruz, director do Festival Ollinkan, na edição da Womex em Essen. Entreguei-lhe o porte fólio das bandas que represento e os GALANDUM GALUNDAINA foram convidados a participar no Festival. Devo dizer que considerei que este programador teve uma precisão cirúrgica na escolha do grupo. Fazia todo o sentido. Se pode haver um povo e uma cultura em resistência em Portugal, esse é certamente o povo mirandês. Com o tempo desenvolvemos uma forte amizade e, em 2006, na Womex de Sevilha, convidei o José Luís Cruz a visitar Portugal e dei-lhe a conhecer o País e um pouco da nossa cultura, principalmente a música portuguesa que eu considero mais significativa. A cultura portuguesa, pode estar ameaçada por uma globalização que promova a massificação. É neste contexto que se insere a participação de Portugal através de uma representação de grupos que apresentam um som próprio de carácter único. Quando participamos no Festival Ollinkan de 2005, constatei uma certa filosofia de programação mais inclinada para o étnico e para as raízes dos povos. Assim, considerei que estes grupos apresentam projectos originais e que de certa forma se inserem no espírito e filosofia do Festival, para além da qualidade inegável do seu trabalho. Quis também com esta programação apresentar uma panorâmica alargada do que se faz e actualmente em Portugal.

É verdade que as bandas vão ao México pagando o seu próprio bilhete de avião (que acaba por ser pago pelo cachet que irão ganhar)? Qual é a motivação para estes músicos que têm de suportar esta despesa?

As bandas não pagam o seu próprio bilhete de avião. O Festival Ollinkan paga as viagens e envia os bilhetes para Portugal e depois esse valor é descontado no cachet que vão receber. Ninguém vai pagar para ir lá tocar… As refeições e o alojamento em hotel de 4 estrelas e os transportes internos são assegurados pela organização e do cachet ainda sobra algum dinheiro para os grupos. Existem várias vantagens e motivações para os grupos se deslocarem ao México:
1 – Internacionalização dos grupos musicais portugueses;
2 – Prestígio e legitimação artística por terem sido escolhidos para este importante Festival;
3 – Novas experiências e intercâmbio de ideias e projectos com artistas de várias partes do mundo;
4 – Estabelecimento de contactos e construção de redes artísticas;
5 – Difusão e apresentação da sua obra a muitos milhares de pessoas. Convém recordar que a cidade do México tem 20 milhões de pessoas e que a dimensão e escala não tem nada a ver com a nossa realidade;
6 – Possibilidade de se venderem umas centenas de discos de cada grupo, que vai constituir outra importante receita para as bandas.

Quando é que teremos uma entidade estatal que apoie grupos musicais portugueses que vão lá fora divulgar a nossa cultura?

Se estivéssemos a contar com isso nunca sairíamos daqui. Eu penso que o nosso Ministério da Cultura tem uma visão e uma opção profundamente errada quanto aos apoios à internacionalização dos projectos culturais portugueses. Ainda não perceberam que não promovem absolutamente nada a cultura portuguesa apresentando artes plásticas ou dança contemporânea. Essas expressões inserem-se precisamente na enorme massa indistinta da globalização cultural que não permite distinguir a origem dos projectos, se quiseres, sem DNA português. Para o público, tanto podem ser portuguesas, como americanas ou francesas.
O provincianismo e a pequena visão do Ministério da Cultura levam ao esgotamento das já reduzidas verbas em participações como as Bienais de S. Paulo e de Veneza para, em bicos de pés, quererem mostrar que em Portugal também conseguem fazer o que se faz lá fora. Enfim…talvez um dia percebam que o apoio à música portuguesa e a sua inserção nos movimentos do que se convencionou chamar World Music, constitui a maior e a mais eficaz promoção e difusão da cultura portuguesa.


Rei, L.