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Posted 6 de Julho de 2009 by Rei, L. in Reportagens
 
 

Festival MED 2009: É tão grande o Mediterrâneo

La notte della Taranta
La notte della Taranta

La Notte Della Taranta, Rokia Traoré e Lura foram as propostas do Festival Med de Loulé que mais se destacaram nesta edição de 2009. As Crónicas da Terra atribuem-lhes o ouro, a prata e o bronze, respectivamente.

La notte della Taranta

Ouro: La Notte Della Taranta

Numa edição em que o Med se desviou (talvez demasiadamente) do conceito de música mediterrânica, eis uma proposta que valeu por cinco ou seis bandas em palco. O projecto italiano La Notte de La Taranta, que inclui o baterista norte-americano e ex-Police Stewart Copeland, é uma espécie de “Buena Vista Social Club” da dança pizzica (da família da tarantella) de Salento. Reúne duas dezenas de músicos que, ao longo de mais de uma década, têm cruzado ritmos tradicionais da região da Grécia Salentina (situada no salto alto da bota italiana) com rock, jazz, música sinfónica, num mítico festival homónimo na província de Lecce. Tudo aquilo que escutámos nesta última noite de Med, já havia sido registado ao vivo em 2003 num ambiente frenético na praça do mosteiro Agostiani, na localidade de Melpignano, por mais de 50 mil pessoas, no disco homónimo La Notte della Taranta (edição CD + DVD Ponderosa, 2004). Apesar de estarmos perante uma «big band» que nos apresenta repertório com uma meia-dúzia de anos de rodagem, o factor surpresa foi enorme. Para além do disco e do DVD terem passado completamente despercebidos entre nós, assistir a um projecto destes em palco, em que vemos Stewart Copeland diluído, muito humildemente, num mar de músicos italianos, é uma experiência sensorial única que nenhuma projecção em cinema ou vídeo nos oferece.

Num festival em que o vento voltou a provocar problemas de som em alguns espectáculos (sobretudo em Buena Vista Social Club), saúda-se o facto de o técnico (também) italiano ter tido muito boas mãos para controlar o transe colectivo destes músicos (que estavam certamente sob o efeito da mordidela da tarântula), proporcionando (também) o melhor som dos espectáculos que vi no Med 2009: alto, poderoso, possante, transmitia na perfeição a dimensão da festa que se vivia em cima do palco dominada ritmicamente por duas baterias, congas, bidons metálicos (na celebração final) e uma meia-dúzia de percussões usadas nas tarantelas, acompanhadas por um duo feminino que dançava e cantava efusivamente, como se estivesse num ritual curativo para expelir o veneno do grande e peludo aracnídeo. E se a este poderio percussivo juntarmos quatro teclados prog-rock, duas marimbas (que se ouviam perfeitamente e que, por vezes nos remetiam para as sonoridades exóticas dos «steel drums» das Caraíbas), um saxofone jazzy, um violino (que nos traz à memória Jean Luc Ponty), uma guitarra eléctrica (que tanto imprimia a rudeza do rock dos anos 70, como vagueava por experimentalismos e paisagens desertas em movimento, estilo «ribot-caposselianos»), um acordeão, um bouzouki e uma belíssima e longa gaita-de-foles siciliana a ligar esta verdadeira epifania à terra? O projecto La Notte della Taranta é, sem dúvida, uma receita tão complexa quanto perfeita, servida com os temperos bem doseados, que transmite todo o poder enérgico e sincrético da tarantela. Depois desta actuação percebemos o porquê do festival homónimo (já referido, que se realiza anualmente no sul de Itália) ter tido cerca de 150 mil assistentes em 2008. Regressem depressa, por favor.

Rokia Traoré

Prata: Rokia Traoré

Não fora o facto de ter visto quatro vezes Rokia Traoré em menos de um ano (diluindo o factor surpresa que arrebatou tudo e todos no FMM de Sines de 2008) e ofereceria, sem espinhas, o ouro a esta magnífica maliana. Na assistência, duas senhoras de meia-idade questionavam-se sobre o facto de Rokia não vir vestida à “Africana”. Rokia consegue conciliar o charme, a sofisticação ocidental com a pura raça e beleza negra. Imprime toda a expressividade de uma actriz exímia em mímica quando revisita Billie Holiday no clássico “The Men I Love”. Transfigura canções intimistas de “Tchamantché” com a força e fúria do funk-rock da fabulosa banda que a acompanha e cujo baixista, Christophe “Disco” Minck, lhe dá o balanço disco-sound perfeito para a «gazela» maliana recordar os êxitos ocidentais que cantava à porta de sua casa em Bamako, quando era criança. É esta a Rokia com um pé em França e outro no Mali, com a energia do rock e do funk ocidental, dos ritmos pentatónicos e do virtuosismo do tocador da guitarra ancestral africana (n’goni) que alerta para a imigração em massa dos africanos que põe em perigo o desenvolvimento do continente «berço da humanidade» (antes de atacar a canção “Tounka”), que reivindica os direitos das mulheres africanas a serem tratadas com dignidade, como damas. Para o efeito, o habitual «medley» final convoca os espíritos de Fela Kuti (“Lady”), de Miriam Makeba (“Pata Pata”) e não esquece acordes de “Don’t Stop ‘Til You Get Enough” e de “Billy Jean” de Michael Jackson. Tudo isto com uma intensidade inesgotável. Como é possível uma cantora de aspecto físico gracioso, frágil e muito feminino possuir toda esta energia de um tsunami?

Lura

Bronze: Lura

Lura é actualmente, muito provavelmente, a voz cabo-verdiana mais interessante da sua geração. A lisboeta de sangue cabo-verdiano possui a graciosidade e a raça de Rokia. O sangue quente de uma pura felina quando se senta para tocar batuque, ou quando ataca o funaná “Mundo ê Nos” e o inevitável “Vazulina”. Ou quando convoca toda a plateia a deixar-se embalar pelo clássico “Na Ri Na”. Mas também sabe ser uma “lady” africana (que merece ser respeitada) quando mistura morna com fado (“Eclipse”), ou quando reforça toda a beleza harmónica de “Libramor”, de Mário Lúcio. E é neste toque subtil de seda, de serenidade, de maturidade, mas também de carácter exploratório de uma miríade de ritmos (do r’n’b americano de “Quebród Nem Djosa” ao bikutsi de “Maria” – não é a toa que o baixista Russo é um admirador nato da linhagem de baixistas camaronianos) que a música de Lura tem amadurecido e ganho projecção internacional. Tal como Rokia, Lura está rodeada de grandes músicos. Toy Vieira é um refinado arranjador que toca piano com a extrema elegância e sensibilidade do sul-africano Abdulah Ibrahim. E se ao piano nos oferece o céu, que dizer do belíssimo momento em que em que pega no cavaquinho e se junta aos restantes músicos em espírito de Tocatina, para interpretarem a coladeira “Mascadjôn”? É ele que estende a passadeira vermelha para que exímios instrumentistas, como o violinista francês Guillaume Singer (oiçam a sua destreza em “So Um Cartinha”), ou como o guitarrista Vaiss (oiçam os seus rendilhados em “Ponciana”), também possam mostrar todo o seu virtuosismo. E que músicos. Foi pena que Lura desta vez não tivesse cantado “Nem às paredes confesso”, como o fez no Tivoli. Lura tem fado no sangue e sabe muito bem ouvi-la no seu português perfeito. Mas é perfeitamente compreensível que o alinhamento de um festival não seja o mesmo de um concerto de apresentação de um novo disco em auditório, cujo tempo de duração é substancialmente superior. Pequeno pormenor que, em nada, diminuiu toda a beleza deste espectáculo.

[continua]

(c) fotos de Rokia Traoré e Lura – CM Loulé / Mira



Rei, L.