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Posted 7 de Julho de 2010 by Rei, L. in Destaque
 
 

Med 2010: Clube Social Amparo Sánchez [1/4]

Amparo Sánchez
Amparo Sánchez

Amparo Sánchez

Há quatro anos atrás, Amparo Sánchez deu, no Palco da Cerca, um dos últimos espectáculos do seu projecto Amparanoia. Festiva como sempre, mas mais tensa do que o registo que lhe presenciámos no Rock in Rio, dois anos antes, o seu espectáculo, a sua atitude em palco, era o pronúncio do fim de um ciclo, da necessidade de mudança, de uma busca interior. Amparo fez uma travessia no deserto (do Arizona) e em boa hora se libertou do epíteto Manu Chao de saias.

Regressou muito mais calma, madura, com uma enorme força tranquila e uma postura de diva da música latina. Canta agora com muito mais alma e classe. E isso é visível nos primeiros acordes de cartão de visita “Aquí Estoy”, tema que abre o álbum “Tucson-Habana” gravado entre a aridez do deserto californiano e o calor (e o apagão iluminado) de Havana. Ao escutar repetidamente, desenfreadamente, as catorze grandes canções do disco com uma energia muito própria questionava-me sobre como seria um espectáculo com toda esta suavidade, em câmara lenta, num recinto ao ar livre. Um mês antes, o Womad de Cáceres havia-lhe dado a possibilidade de actuar em plena Plaza Mayor (para 30 ou 40 mil almas) na fase perfeita do dia: durante o crepúsculo verspertino. Foi pena que, contrariamente ao que estava inicialmente planeado (21h), o espectáculo de Amparo Sánchez tivesse passado para as 21h45. Mas a já noite cerrada não retirou qualquer beleza à música desta mulher que ao deixar crescer o cabelo, ao deixar de lado uma certa rebeldia, está mais senhora,  mais bonita. Em Loulé, muitos consideraram-na morna (a música dela, tal como a de Lhasa, é assim, para ser consumida em lume brando, à média luz), outros lamentaram o facto de ela não pegar em canções de Amparanoia (e ainda bem, porque a fase agora é outra), mas a forma como interpretou enormes e introspectivas baladas latinas com sabor a ranchera mexicana, a trova cubana e a arranjos típicos de uma banda sonora de Ry Cooder, como “La Parrandita de Las Santas” (sem a presença de Omara Portuondo) foi igual ou superior à versão do disco, como o final mexido de son cubano de “Apagón en la Habana” serviu para apresentar os músicos e exercitar o improviso, o “free style” que desenvolveu naquela casa de Barcelona que albergou Macaco e Manu Chao no mesmo tecto, como soube bem dançar um reggae (também ele algo lento, é certo) de “Quisera, Pero”, fez com que Amparo Sánchez passasse novamente pela Cerca com elevada distinção. Ry Cooder bem que poderia produzir um novo disco de Buena Vista Social Club com a (já) diva Amparo como convidada.

Femi Kuti

Femi Kuti

A noite prosseguiu com outro tipo de estímulos e de energia. Da mineral de Amparo à nuclear de Femi Kuti vai o tempo que demora a saborear o espectáculo da espanhola e atravessar a zona antiga de Loulé, da Cerca à Matriz. Mas o nigeriano apareceu algo fora de forma, com demasiado repertório antigo (apesar de ter novo disco) e com imensos problemas de som, sobretudo na primeira meia-hora. O sax e as vozes femininas mal se escutavam, já o teclado estava altíssimo. O seu manifesto afrobeat continua explosivo, de língua muito afiada dirigida aos “vagabundos no poder” (os direitos de autor desta expressão pertencem a Nneka), a secção de metais poderosíssima, mas o demónio à solta do espírito de Fela que vimos há uns anos no FMM já não é o mesmo. Esse, está agora encarnado no irmão Seun.

Vieux Farka Touré

Vieux Farka Touré

Bem melhor, mas ainda assim não tão bom quanto o concerto de Amparo, o outro ilustre descendente (agora de Ali Farka Touré) ligou-nos à corrente eléctrica durante quase duas horas. Não é novidade para ninguém que Vieux Farka Touré herdou do pai o gene de virtuoso guitarrista. Mas este, contrariamente à maioria dos músicos africanos que se apresentam em palco com indumentária tradicional, veste-se como um ocidental e toca guitarra como um Hendrix ou um Jimmy Page. De solo em solo, faz-se acompanhar por alguns bons músicos malianos tradicionais, mas a peça-chave da sua formação é um fabuloso baterista de pele branca. Um miúdo norte-americano que imprime elevado ritmo circular de transe (Tim Keiper). Tudo em Vieux é intensidade, electricidade. Trilha um caminho que deixa cair por terra qualquer comparação que se tente fazer entre ele e Monsieur Le Maire de Niafunké. Mas há, por estes dias, excesso de tensão e uma certa falta de relaxamento. Acredito que, com o passar dos anos, este maliano irá saber dosear as contínuas descargas eléctricas. Se possuísse uma máquina do tempo teria imensa curiosidade em escutar que rock, blues e reggae africano fará em 2020 Vieux Farka Touré.

Macacos do Chinês

Macacos do Chinês

No Castelo, o tempo foi muito curto para escutar o açoriano Zeca Medeiros (só cinco minutos) que se apresentou em versão portátil de trio, sem o violinista Manuel Rocha (ok, já o vi em duo) e sem qualquer voz feminina (que saudades de Mariana Abrunheiro), de quem se espera novo disco lá para o final do verão.

Por este palco também passaram os Macacos do Chinês (entre a hora de Femi e de Vieux). Aos competentes e enérgicos MCs há quase sempre uma guitarra portuguesa omnipresente que casa muito bem com o hip hop de quem rola na Reboleira. Neste espaço, deu para constatar que o público do Med é muito diferente de palco para palco (a assistência de Vieux é claramente mais velha e com mais estrangeiros) e que muitas das bandas que actuam no Castelo têm uma enorme capacidade de arrastar consigo os fãs do sul do país que conhecem de trás para a frente o repertório dos Macacos do Chinês. E isso é muito bom.

(c) Fotos: Arquivo C.M. Loulé


Rei, L.