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Disco do Dia: Terrakota – “Oxalá”

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terrakota-oxalaTerrakota – “Oxalá”

Zephyrus (2016)

Por incrível que pareça, os Terrakota já não editavam um álbum de originais há cerca de seis anos (“World Massala” é do longínquo ano de 2010). Durante este período, esta família esquartejou para reconstruir de seguida instrumentais em ambiente dub de alguns dos seus temas que convidavam a participação de outras vozes, além Romi e além Júnior; criou uma orquestra de afrobeat também aberta a vários convidados; permaneceu em “pousio” cerca de dois anos; e reformulou boa parte da sua formação com uma injecção de sangue novo.

Os anos passam, mas os Terrakota renovaram-se, rejuvenesceram, dominam mais dialectos musicais do Hemisfério Sul e servem-nos este “Oxalá” que é uma muito boa surpresa.

Um disco que está carregado de dançáveis guitarrinhas soukous e de rumba congolesa (do virtuosismo de Franco à dança imediata de Papa Wemba – oiça-se “Bankster”) e arrebatadoras solos de kora e do perfume da música acústica mandinga (vénia ao jovem membro Gonçalo Sarmento que, em conjunto com o Alex, teve oportunidade de experimentar muitas destas texturas sonoras no “satélite” Kanoa); que trata os blues do deserto e o afrobeat (vénia ao novo baterista Márcio Pinto e ao coro feminino constituído por Selma Uamusse e Anastácia Carvalho) com amor e profissionalismo (de “Social Insecurity” a “Deserto Amanhã”); que abraça o forró pé de calçada à Mestre Ambrósio e Siba e o mangue beat mais funk de Chico Science e tempera-o com especiarias indianas da sitar de Marc Planells (“Entre o Céu e a Terra”; que deixou de ter vergonha de experimentar os beats de kuduro progressivo de Beat Laden com a tal guitarra zairense (“Mexe Mexe”) e que transporta a voz alentejana de Vitorino para a África do Sul mineira dos Ladysmith Black Mambazo (tema-título “Oxalá”).

O discurso social, económico, político e ambiental é o mesmo de sempre, servido por vezes com um humor que faz lembrar o documentarista Michael Moore. Mas num contexto em que Trump foi eleito presidente dos Estados Unidos, em que se negoceiam acordos de comércio trans-nacionais nas costas dos cidadãos e em que Leonardo DiCaprio recentemente nos apresentou (em “Before The Flood”) os efeitos demolidores do aquecimento global, urge prestar atenção a temas como “Deserto Amanhã”.

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