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Disco do Dia: Cardo-Roxo – “Vai-te Cuca”

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Cardo-Roxo – Vai-te Cuca
Cardo (2016)

De um improvável perfeito casamento entre a viola da gamba de Carmina Repas Gonçalves e da gaita de foles sueca de Antony Fernandes nasceu o duo Cardo-Roxo que, à semelhança do também duo Noa Noa, abordam a música de tradição oral de Portugal continental laborada cuidadosamente com os preceitos da música antiga mais aventureira, experimental e transcontinental (do catalão Jordi Savall às italianas La Reverdie e à austríaca Christina Pluhar).

“Vai-te Cuca”, sucessor do álbum de estreia “Alvorada”, como o próprio título indica, parte de canções de embalar e outras modas de índole infantil do cancioneiro popular, de Armando Leça, A.M. Mourinho, M. Giacometti e J. A. Sardinha, desenvolvidas no projecto pedagógico em sede da Escola de Música Tradicional Portuguesa Cardo-Amarelo, mas acaba por ser um disco também ele muito adulto (nada naif) e ousado, que inclui canções de trabalho, chamamentos de pastoreio que evocam o kulning sueco (em “Levar o Gado”) e, sobretudo, apurados arranjos de Carmina, quer ao nível instrumental (da base viola da gamba / gaita de foles à integração da guitarra barroca, percussão histórica e gaitas de foles mirandesas dos convidados Hugo Sanches, Rui Silva e Gaiteiros de Ponte Velha), quer no maravilhoso trabalho de vozes que efectua com toda a família Repas Gonçalves (pais e irmãs) e com o coro Vozes de Fé.

“Vai-te Cuca”, captado no Mosteiro de Santa Maria de Pombeiro em Felgueiras, é também um registo sonoro que respira história e paisagens sonoras ibéricas e, inevitavelmente, nórdicas. Não só a säckpipa de Antony nos conduz aos tempos pré-Hedningarna dos Blå Bergens Borduner dos gaiteiros (entre muitas coisas) Anders Norudde, Ulf Karlsson e Stefan Ekedahl, como a viola da gamba de Carmina pode evocar uma nyckelharpa a tocar uma polska, um hardingfele noruguês a interpretar um halling. Ou a trindade da música antiga Savall-Lislevand-Estevan, quando entram em cena a guitarra barroca de Hugo Sanches e a percussão histórica de Rui Silva.

Uma obra que com qualidade suficiente para ser editada com selo Alia Vox ou Arcana.

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