bonga_recadosBonga – “Recados de Fora”
Lusafrica (2016)

Em África, os “cotas” continuam a ser amplamente respeitados. À semelhança dos griots que são os portadores da sabedoria. As verdadeiras bibliotecas em movimento. A fonte de saberes transmitidos de geração em geração.

Aos 74 anos de idade, a voz da consciência do povo angolano, que continua a mandar recados de fora para o interior de Angola, já editou mais de trinta discos e, por isso, este antigo atleta do Sport Lisboa e Benfica poderia igualmente ostentar, por cima do seu nome, as três estrelas que vemos associadas ao emblema do “manto sagrado” e que simbolizam as três dezenas de campeonatos nacionais de futebol conquistados. Que bem que lhe assentaria.
“Recados de Fora” mantém a força tranquila, a frescura de 2016, o swing do semba intemporal, festivo, carnavalesco, provocativo, adornado com uma luxuosa secção de metais (saxofone, trompete e trombone), guitarras esguias tratadas como peças de filigrana por Betinho Feijó, acordeão, baixo e flauta do versátil Ciro Bertini e o poder interventivo daquele início de carreira marcado pelas edições de “Angola 72” e de “Angola 74”, lançadas a partir da Holanda. Curiosamente, o disco que inclui “Banza Remy”, canção-homenagem ao malogrado radialista francês Remy Kolpa-Kopoul (espécie de John Peel parisiense e precursor da divulgação de Bonga e de muitos outros artistas africanos e brasileiros na França nos anos 70 / 80) é, por esta altura, o álbum do momento em muitos dos programas de autor dos radialistas europeus (e não só) ligados às músicas do mundo. É nº1 no Top do mês de Dezembro da Transglobal World Music Chart e nº2 na World Music Charts Europe.

Para além de explorar o puro semba vintage e os blues angolanos com alma, lágrima e rouquidão, “Recados de Fora” é igualmente um roteiro de viagem que estabelece pontes entre a morna, o fado e a canção sertaneja de outrora, quer através de um tributo a B.Leza (e a Cesária Evora) em “Odji Maguado” com o virtuoso cavaquinho de Bau e o piano de Chico Serra, quer no curioso e brilhante exercício de transformar o clássico “Sodade Meu Bem Sodade” do paraíbano e lampião Zé do Norte num fado acompanhado à guitarra portuguesa e viola de fado por Ricardo Parreira (o tal que embala Gisela João) e Tiago Oliveira. Mais um álbum clássico de Bonga.