Reportagens

Med de Loulé 2014: O nosso onze titular [2/2]

Turtle Island - Med 2014

Depois de uma visão global da edição deste ano do Festival Med de Loulé, deixo-vos com a selecção de onze projectos que mais se destacaram nos três (+ um) dias do segundo maior evento de músicas do mundo em Portugal.

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OrBlua - Med 2014

OrBlua – Palco Arco

Há projectos de gente que toca mesmo muito bem mas não ouve qualquer música além da sua. Há outros colectivos em que os músicos não são nada virtuosos, mas sente-se que há ali um enorme a amor à música, à composição, à descoberta. Uma infinita ambição em transcrever para o palco todo o “brainstorm” musical que devem ter a cada ensaio: de experimentar incessantemente novos instrumentos (são cerca de 20 em palco), de unir novos mundos, da country folk americana e britânica e da música medieval europeia, aos sons que evocam a geografia algarvia, da Serra do Caldeirão às ostras da Ria Formosa.

Dá gosto vê-los em cima do palco, sobretudo observar a pose da Inês Graça quando pega no baixo eléctrico, ou do Carlos Norton no banjo.

Apenas precisam de limar os momentos mortos e simplificar o rider técnico (que atrapanha um pouco a fluidez do espectáculo).

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Ai! - Med 2014

Ai! – Palco Castelo

No palco do Castelo que deveria receber em exclusivo os nomes mais frescos do universo da folk nacional (como aconteceu em edições passadas com Diabo a Sete, Mandrágora, Mu), apresentou-se o duo Ai!. Depois de Chuchurumel e Assobio, este é mais um projecto-duo de César Prata, exímio em descobrir na Beira Interior novas e interessantes vozes femininas (neste caso Suzete Marques) e em moldar (como um oleiro) a uma estética contemporânea e acústica (contrariamente no que acontecia em Chuchurumel onde a electrónica era omnipresente) um espólio popular mais ou menos esquecido assente em canções medievais, cantigas de embalar, cantos de aboio, das Beiras e de Trás-os-Montes e um suspiro original (“Nossa senhora dos ais”) que tem o mesmo ADN de uma moda da Beira-Baixa que podia ter sido tocada pelas Adufeiras de Monsanto.

Espectáculo competente, bem oleado, onde as cordas de César Prata ligam Trás-os-Montes ao Brasil (“Marinheiro Novo” bebe uma caipirinha no Rio de Janeiro) e a Beira Alta aos territórios europeus “celtas” (“E o cai di e o cai da”).

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Dino d'santiago - Med 2014

Dino d’Santiago – Palco Castelo

De Quarteira a Loule são dez quilómetros de distância. O quarteirense de sangue cabo-verdiano Dino d’Santiago apresentou o seu recente álbum de estreia “Eva” à porta de casa, em ambiente familiar, onde os emocionados interlúdios de Dino eram longos e traziam lágrima no canto do olho. Mornas, coladeiras, funanás tocados de forma pura e honesta com grandes e batidos músicos a acompanhá-lo: Edu Miranda, Tuniko Goulart e Mirocas Paris. Um final apoteótico esperado de revisitação de “Djosinho Cabral” dos Tubarões. Valeu.

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Graveola e o Lixo Polifônico - Med 2014

Graveola e o Lixo Polifônico – Palco Castelo

Se perguntarem ao Graveola e o Lixo Polifônico quem são os seus pais, muito provavelmente eles respondem: a mutante e psicadélica (dos anos 70) Rita Lee e o artista em contínua (re)construção e pilhagem, estudioso do samba e do brega, Tom Zé.

Cada canção do Graveola é um pequena ilha de um extenso arquipélago que abrange diferentes estéticas e épocas da música brasileira aberta ao mundo. É regionalista (de Belo Horizonte – Minas Gerais) e global, foliona, divertida e localmente interventiva (dirigida ao prefeito Márcio Lacerda de Belo Horizonte onde caem viadutos em contrução) e inteligente. É o liquidificador beat mineiro em resposta ao mangue pernambucano (sobretudo mais acústico do Mundo Livre SA).

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Nour Eddine - Palco Cerca

Nour Eddine – Palco Cerca

Berber, Marroquino e, há muito, cidadão europeu residente em Itália, Nour Eddine é um dos nomes desta edição que melhor encaixa no espírito inicial do Festival Med como mostra de músicas com raiz mediterrânica que promove o diálogo entre o passado e o futuro das múltiplas tradições desta bacia.

Nour Eddine, multi-instrumentista que tocou guembri, alaúde e guitarra, trouxe música encantatória e espiritual gnawa, ora mais rítimica em estado puro e hipnótica, tal e qual como interpretada pelos escravos, ora mais melódica, com arranjos mais ocidentais, jazzísticos e cinemáticos que, por vezes, aproximava o Magrebe do sul de Itália. Um senhor este Nour Eddine.

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Winston McAnuff - Med 2014

Winston McAnuff & Fixi – Palco Matriz

Quem viu o jamaicano de 56 anos Winston McAnuff, no palco Martiz, facilmente perceberá porque é apelidado de “electric dread”. Acompanhado por um versátil pianista e acordeonista francês Fixi e pelo percussionista Marc Ruchmann, que se agiganta no beat box, McAnuff transborda energia em palco, através de danças circulares de transe em que os extensos dreadlocks hipnotizam a planeia. Roots reggae sempre a nadar fora de mares jamaicanos que facilmente rumam a outras paragens: ao souljazz (com Fixi ao piano a fazer lembrar Nitin Sawhney), à musette francesa, ao zydeco, ou à música crioula maloya da Ilha Reunião (com Fixi no acordeão).

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jupiter - med 2014

Jupiter & Okwess International – Palco Matriz

Há dois anos atrás, ainda não tinham qualquer disco gravado e o FMM Sines deu-lhe horas e responsabilidade de fecho (da edição de 2012) com fogo de artifício e tudo. A confiança da organização era enorme e o colectivo congolês do “general” Jupiter Bokondji ofereceu groove, funk, transe, rumba congolesa contemporânea (a cheirar a Staff Benda Bilili), afro rock intenso e rápido com guitarras dedilhadas desenfreadamente à Franco (ingredientes que combinados resultam no autoproclamado “bofenia rock”) e uma exuberância visual tribal assinada pela dançarina e percussionista Nelly Eliya Liyenge.

Em Loulé, apaceu-nos (e julgo que na actual digressão) uma banda 100% masculina. O que faltou em à vista, sobrou aos ouvidos. Esta formação de estrelas de músicos das ruas de Kinshasa escolhida a dedo por Jupiter, mostrou todas as credenciais para serem, neste momento, um dos projectos africanos mais dançáveis e estimulantes em cima do palco.

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Bombino - Med 2014

Bombino – Palco Matriz

Tuaregue nascido no Níger, é um verdadeiro herói da guitarra eléctrica. Tem pose de rocker, imenso estilo a tocar e, sobretudo, é virtuoso sem se ver brotar azeite do braço da sua guitarra. Não esconde a figura de Jimi Hendrix como a maior referência inspiradora (a par de Santana). blues rock psicadélico e abrasivo, denso e pujante, que nunca se desenraíza da génese tamashek e que continua a ser a melhor arma para falar ao mundo ocidental os assuntos geo-políticos dos nómadas do deserto do Saara que preocupam Bombino. Nem mesmo a fascinante experiência de ter partilhado horas de estúdio com o “Lonely Boy” Dan Auerbach (Black Keys) que produziu o seu mais recente álbum (“Nomad”), limpou do seu turbante a poeira de Agadèz.

Bombino oferece em 2014, muito provavelmente, o melhor espectáculo de rock tamashek.

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Bomba Estereo - Med 2014

Bomba Estéreo – Palco Matriz

Quem os viu em Sines há um ano, ou mesmo na WOMEX, há quatro anos atrás, os Bomba Estéreo pouco mudaram. A máquina está mais oleada, mas os trunfos continuam os mesmos (“Fuego” acima de tudo). Techno, reggae, cumbias, chichas e outros ritmos alucinogénicos sul americanos processados por um liquidificador electrónico que serve um cocktail explosivo  de sons e cores devidamente amplificado em palco pela enérgica e possante “front woman” Liliana “Li” Saumet, pelo muito estiloso guitarrista Julián Salazar e pelo programador e baixista Simón Mejía (cujo instrumento de traços retro-futuristas parece ter sido comprado aos Sigue Sigue Sputnik). Uma banda respigadora que consegue fazer arte com lixo, ou não continuasse a ser interessante e muito dançante a versão tropical de “Pump Up The Jam” de Technotronic.

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Med Loulé 2014: Gisela João

Gisela João – Palco Cerca

No ano passado, o palco da Cerca recebeu um verdadeiro furação catalão chamado Sílvia Perez Cruz que obrigou a organização a colocar cadeiras no recinto de forma a desfrutarmos com mais atenção de toda visceralidade interpretativa e de enorme cumplicidade com Raül Fernández Miró.

Este ano, Gisela João arrebatou os mesmos corações com semelhante carga e intensidade dramática (que curioso será ouvi-las a 11 de Setembro a partilharem o pianista Júlio Resende no palco do Grande Auditório da Gulbenkian), com uma versatilidade assinalável que tanto imprime o maior rigor num fado mais clássico, como de seguida refresca e renova a Casa da Mariquinhas (numa junção feliz com a letra da Capicua) e convoca, com toda a graça do mundo, o vira e todo o ambiente alegre e colorido do folclore minhoto.

Uma artista baixinha, com ar e jeito de boneca, soberbamente embalada pelo cada vez mais adulto Ricardo Parreira (em guitarra portuguesa), cuja tessitura grave, intensa e profunda e postura descontraída, enchem qualquer palco do mundo.

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Turtle Island - Med 2014

Turtle Island – Palco Matriz

Num universo da música de raiz em que o mundo está cada vez mais pequenino (e africano), há sempre OVNIS que nos chegam do extremo-oriente e que carregam consigo a idiossincracia muito japonesa de estar em cima do palco. Se, no ano passado, ficamos boquiabertos com a Shibusashirazu Orchestra que aterrou no FMM Sines, este ano houve semelhante surpresa ao vermos no palco da Matriz (que ao longo dos anos tem recebido verdadeiras epifanias – de Goran Bregovic a Afro Cuban All Stars) o colectivo Turtle Island. Celebração punk oitentista (que  podia fazer parte do catálogo da Alternative Tentacles de Jello Biafra) que mistura kimonos com alfinetes de dama, moicanos e botas da tropa encardidas, a electricidade e a distorção das guitarras eléctricas e o som milenar de percussões e aerofones do país do sol nascente. Músicos que em palco parecem adquirir poderes especiais e que são verdadeiros super heróis de animação de uma plateia. Ainda que a sonoridade não seja a mais original, a Turtle Island deixou a sua marca na 11ª edição do Med, pela entrega, pela energia e sobretudo pela boa vibração que se sentiu no ar que até pôs um drone a dançar.

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(c) fotos: Arquivo CM Loulé

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