Entrevistas

Melech Mechaya: o klezmer interactivo, com assinatura

Melech Mechaya

Os Melech Mechaya têm um mês de Janeiro em cheio. Hoje (dia 17) actuam na Casa da Música do Porto. Na próxima sexta-feira (dia 23), estarão no Pequeno Auditório do CCB em Lisboa. Concerto inserido no ciclo CCBeat. Para ambos os espectáculos, as entradas já se encontram esgotadas.  Os lisboetas terão mais sorte, uma vez que foi adicionada à agenda do CCB uma data extra: a de sábado, 24 de Janeiro à mesma hora (21h).

Do álbum “Gente de Estranha”, incluído na lista dos 10 discos folk / trad portugueses de 2014 das Crónicas da Terra, acabou agora de sair o segundo single, “Espírito Livre”. O video foi gravado na Escola de Música do Conservatório Nacional.

Segue-se uma conversa com o clarinetista e performer-mor Miguel Veríssimo que antevê estes espectáculos e faz o balanço da experiência internacional onde Melech Mechaya teve oportunidade de partilhar palcos com as principais figuras da música klezmer.

– Os Melech Mechaya entraram em 2015 a todo o vapor. Celebraram a entrada do novo ano com o fogo de artifício em Cacilhas, à beira Tejo. Vão actuar na Casa da Música e no CCB. É um ano de afirmação e de novas conquistas?

Sim. CCB e Casa da Musica são dois palcos de referência em Portugal. À semelhança do que fizemos no disco anterior, quisemos apresentar “Gente Estranha” no maior número de palcos e agora quase um ano depois de o disco sair vamos então mostrá-lo em Lisboa e no Porto onde ainda não apresentámos este trabalho. Para nós, é muito motivador e encorajador. Temos muita vontade que esses dias cheguem para tocarmos em duas salas emblemáticas e carismáticas. É uma maneira de começarmos bem o ano. Já tínhamos isto planeado há muito tempo. Também vamos ter o novo single a sair agora. Temos uma série de novidades a anunciar, para que 2015 seja tão bom como foi 2014.

– Estes espectáculos não terão a participação de convidados que participaram na gravação de “Gente Estranha” como Amélia Muge ou Jazzafari? Terão um alinhamento especial em comparação com os espectáculos que apresentaram em 2014?

Os concertos não terão convidados especiais por incompatibilidade da agenda de ambos. É um espectáculo que temos vindo a aprimorar desde que o disco foi lançado. Quando desenhamos um espectáculo sobre um determinado trabalho, faz com que ele se vá alterando e vá melhorando. Quando começámos a apresentar este disco, fomos percebendo, pelo tipo de dinâmica de espectáculo que temos, os aspectos a melhorar. Fomos aperfeiçoando o alinhamento, os timings, uma série de elementos que o constituem. É isso que vamos apresentar: o concerto desta digressão já está bastante rodado e oleado, com algumas surpresas.

– Aqui evoluem, quer como músicos, quer como performers? O desenvolvimento da performance tem a mesma importância para vocês do que o desenvolvimento da proposta musical?

Exactamente. No nosso caso, acho que uma coisa não vive sem a outra. Ensaiamos muito a parte musical que é para nós a mais importante, mas a performance, a parte mais teatral, de como envolver o público é algo que não podemos ensaiar os cinco numa sala de ensaio. Temos de ir testando, experimentando, ao vivo, mesmo sabendo que públicos diferentes reagem de maneiras distintas. Essa parte é muito importante para nós. É uma coisa que leva algum tempo até conseguirmos aquilo que queremos. Neste caso, sim, porque o espectáculo já está bastante maduro. Rodámo-lo bastante, passou por muitos sítios, muitos públicos diferentes e estamos muito curiosos para saber a reação da nossa audiência de Lisboa e do Porto. Cidades onde temos mais público e que nos conhecem há mais tempo.

– De qualquer forma vocês também têm uma massa humana que viaja convosco e que conhece os vários momentos interactivos do espectáculo. Isso é uma rede que vos dá mais conforto?

Isso é algo que temos vindo a reparar e que nos dá muito gozo saber. Naquelas músicas que tocamos sempre porque foram singles, foram marcantes, como a “Dança do Desprazer”, “Bulgar de Odessa” e por aí fora, é muito gratificante começarmos com as músicas e as pessoas já estarem connosco ainda antes de puxarmos por elas. Mesmo agora com o “Gente Estranha”, ainda por cima uma música cantada, é muito curioso tocarmos essa música e ouvirmos as pessoas a cantar a letra. É uma nova experiência para nós porque temos muito poucas músicas cantadas. Estamos a contar agora na Casa da Música e no CCB termos o nosso público, que nos conhece, que é mais atento e que nos segue, mas gostávamos também de ter pessoas que nunca nos viram ao vivo. Vão passar um bom bocado, de certeza.

 

Melech Mechaya

– Os Melech Mechaya têm tocado bastante em Espanha, que é praticamente uma segunda casa. Em que aspectos é que o público espanhol é diferente do português?

Em 2014, metade dos concertos que demos foram fora de Portugal, mas não foram todos em Espanha. Claramente este é o país que mais visitamos. O público espanhol é muito caloroso, regra geral. Mas nota-se muita diferença do sul para o norte de Espanha. Na Andaluzia as pessoas são muito expansivas, dadas e alegres e isso é um espectáculo porque junta-se a fome com a vontade de comer. No norte, sobretudo no País Basco já é diferente. Não identificamos diferenças entre Portugal e Espanha, mas identificamos mais entre certas regiões de cada país. Se calhar o público do norte de Portugal é muito parecido com o público da Galiza, por exemplo. Mas gostamos muito de ir a Espanha. Já temos uma série de datas marcadas e lá vamos nós ter com “nuestros hermanos”.

– Quando andam em digressão internacional, encontram-se com vários músicos, várias referências da música klezmer, como os Klezmatics. Ao longo destes últimos tempos, o que é que têm absorvido dessas experiências de forma a trazerem-nas para Melech e a aprimorarem a vossa vertente musical judaica?

É uma boa pergunta. A partir de 2013, em que começámos a sair muito de Portugal, creio que há dois aspectos a reter. Actuámos em alguns festivais de música klezmer e relacionámo-nos com uma série de artistas que tocam e estudam este género há muitos anos. Estivemos no Brasil, onde tocámos em orquestra conjunta com artistas de nível mundial, como o Frank London que já conhecíamos, mas também com o Lorin Sklamberg, vocalista dos Klezmatics. Com o Christian Dawid, clarinetista alemão fenomenal. Estivemos com um casal inglês (ela é russa), o Merlin e a Polina Shepherd e aí aprendemos mesmo muito sobre o klezmer mais tradicional. São pessoas que conhecem muito o património klezmer. Na Alemanha, conhecemos os Kleztory do Canadá. São músicos excepcionais, fazem aquilo muito bem e aprendemos muito com eles não só no novo reportório mas também no tipo de abordagem que têm, no tipo de arranjos que fazem. Quando digo que aprendemos não quer dizer necessariamente que gostámos e vamos fazer igual. Muitas vezes é o contrário. Até podemos gostar mas decidimos que não é por ali que queremos ir.

– Parece-me que vocês delimitam bem as fronteiras de Melech. Por um lado, não querem ser uma banda de klezmer puro e duro. Por outro lado, o vosso projecto não dispensa o lado lúdico, de performer. Tem de haver sempre um relacionamento entre estas duas características. É isso?

É exactamente isso. Sobretudo, temos de ser fiéis a nós próprios. Sempre nos apresentámos como uma banda de klezmer e será sempre a nossa maior influência. É o que está na génese do grupo. Nós os cinco, enquanto grupo e individualmente, sempre tivemos um gosto muito concreto. E creio que isso se nota na sonoridade que os Melech foram adquirindo e que têm neste momento. Se calhar, marcaram-nos mais musicalmente outros grupos que conhecemos em outros tipo de festivais que não os de klezmer. Tocámos em 2014 em festivais incríveis. Em Urkult, na Suécia, onde vimos super estremas como Taraf de Haidouks. Os suecos Hoven Droven com quem tocamos também na Finlândia, em Kaustinen. Apesar de terem pouco a ver connosco foi muito importante ver a abordagem deles. É muito interessante esta coisa de ver uma banda ao vivo, conhecer a malta e conversar um bocado com eles. É muito enriquecedor. Nós, felizmente, temos tido essas oportunidades de viajar, de tocar, de partilhar a nossa música, mas também de conhecer outros músicos e outras músicas e isso é fantástico.

 

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