Este foi um MED de colheita vintage, próximo das edições de ouro (sobretudo as de entre 2009 e 2011), com uma programação musical cada vez mais aberta à surpresa e uma organização mais experiente, atenta a todos os pormenores. Vamos por pontos.

(c) foto: Jambinai – arquivo da C.M. de Loulé

Pros

1 – MED – Músicas Evolutivas e Dinâmicas

Decididamente, longe vão os tempos em que os escoceses Capercaillie quebraram a hegemonia das propostas musicais mediterrânicas. Qualquer festival que se centre num estilo, numa corrente musical, numa área geográfica corre o risco de estagnar. Porque estas são Músicas Evolutivas e Dinâmicas. Tanto aqui, como num festival de rock, mais electrónico, mais acústico, etc, os públicos misturam-se, as propostas musicais são cada vez mais híbridas. Há artistas pop/ rock no MED, como há artistas “world” no Primavera Sound, no Alive, no SW ou no SBSR. No MED houve r&b e soul com ethio jazz de Israel, pós-rock e electrónica ambiental com instrumentos tradicionais sul-coreanos, rap francófono em confronto com rumba e soukous zairense, fado com bateria e teclados, funaná com ferro, gaita e secção de sopros. Etc, etc, etc.

Um cartaz que juntou velhas glórias (algumas delas em fase descendente a precisar de renovação / reinvenção), novas e agradáveis surpresas que se começam a afirmar neste circuito, com todo o tipo de artistas portugueses que convocaram públicos muito eclécticos para cada um dos palcos (como eram diferentes as assistências de Balkan Beat Box – parecia a Av. Da Praia de Sines às 4h da manhã – e de Nneka –  muita gente nova e com outra cara que poderia estar numa festa Erasmus).

2 – Os Espaços e a animação em cada canto

A zona histórica de Loulé, apesar das ruelas estreias, praças e largos pouco amplos, é a marca que distingue o MED dos outros festivais. Tirem, por exemplo, o WOMAD de Cáceres da zona medieval (como fizeram há uns anos) e o festival descaracteriza-se. Apesar de não haver uma Plaza Mayor (que leve umas 10 mil pessoas) ou mesmo uma praça pombalina (semelhante à de Vila Real de Santo António que deverá levar umas 5 mil), o MED continua a saber viver com os espaços da Cerca, da Matriz e do Castelo (para além da Bica e do Arco), concebendo a programação destes palcos em função da necessária constante circulação dos vários públicos por Loulé antigo.

Este é, por isso, um festival dinâmico (totalmente nos antípodas da Festa do Avante – há décadas que os palcos se encontram no mesmo sítio) em que há uma procura constante em espalhar o público por todo o recinto, criando para isso novos focos de interesse.

Este ano, saudou-se a abertura do Med Fado, se não me engano, só com fadistas algarvios, a promoção do cante alentejano e a cada vez maior oferta gastronómica com um dia extra dedicado à dieta mediterrânica.

3 – Animação non stop

Quem tivesse chegado ao MED às 19h30 e só tivesse saído por volta das 3h30 da manhã, poderia ter estado oito horas a ver concertos / sessões de djing entre os seis / sete palcos sem qualquer interrupção. Quem não gostasse de um artista, não era obrigado a estar cerca de uma hora à espera pelo concerto seguinte, passava imediatamente para outro palco. Para quem gosta das propostas mais “exóticas” (leia-se menos conhecidas) como Aziza Brahim ou Baloji esteve muito mais “à larga” do que habitualmente, porque quer Batida, quer Tiago Bettencourt, fizeram questão de levar boa parte da assistência para um Castelo a rebentar pelas costuras.

4 – A APP que fez de GPS

Foi boa a sensação de receber alertas a 10 / 15 minutos de cada um dos concertos da Cerca, Matriz ou Castelo. Um verdadeiro “salva-vidas”. Se a rede WI-FI tivesse funcionado em todo o lado e sem sobressaltos não teria sido necessário levar um programa impresso.

5 – Os horários

Mais uma vez, irrepreensíveis. Perfeito. Os artistas também ajudaram em cumprir escrupulosamente o tempo de espectáculo acordado.

6 – Os textos do site

Este ano, os principais artistas em cartaz também foram bem melhor (re)tratados no site do MED. Textos mais extensos, inteligentes e aprofundados, com introduções de contexto, escritos por quem sabe. A prova de que, por vezes, não é necessário, recorrer a agências de comunicação para ter um “produto” final de melhor qualidade.

Cons

1 – A impossibilidade de ver tudo

Em qualquer festival, com palcos activos em simultâneo, há-que ter uma estratégia para minimizar o tempo perdido e poder ver o máximo dos artistas que realmente mexem connosco. Este ano, por impossibilidade de horários ou devido ao cansaço, não me foi possível assistir a Carminho, Skip & Die, Brass Wires Orchestra, Batida, Tiago Bettencourt, Giana Viscardi.  Outros mereceram somente 5 a 10 minutos de atenção (e que pena em alguns casos).

2 – Os acessos

Um festival desta natureza com tanta gente entre acessos estreitos e zonas de palco que não comportam mais de 1000 pessoas, tem necessariamente de reforçar a segurança para evitar os sobressaltos (felizmente, bem resolvidos) de há uns anos com Bajofondo na Cerca. Este ano, foram criados corredores de emergência (de forma a tornar mais rápida e eficaz a resposta a qualquer cenário de urgência), restringindo o acesso do público a algumas ruas. Ficaram assim mais dificultados os percursos, sobretudo, entre a Cerca e a Matriz (ou vice-versa).

3 – A animação em excesso

Por vezes, ora modificava o nosso foco, ora tornava-se intrusiva noutros espectáculos. Na Igreja Matriz, a música sefardita, cristã e al-andaluz do  Ensemble Med chegou a ter em fundo o som de uma fanfarra de metais.

4 – O WI-FI

Nem sempre funcionou. O seu acesso foi muitas vezes intermitente e lento, com páginas de publicidade em demasia.

 

Na Próxima entrada, as Crónicas da Terra abordam os 15 momentos mais intensos (para este escriba) do MED 2015.

1 – Ester Rada

2 – Jambinai

3 – Baloji

4 – Danças Ocultas & Dom La Nena

5 – Ferro Gaita

6 – Cumbia All Stars

7 – Ensemble Med

8 – Nneka

9 – Babylon Circus

10 – Balkan Beat Box

11 – Aziza Brahim

12 – Karyna Gomes

13 – Cati Freitas

14 – Alamedadosoulna

15 – Tape Junk