Reportagens

FMM Sines 2015 – Assalto ao castelo II/IV

tijoux

Segundo dia do FMM Sines entre o Castelo e a Av da Praia em que se intensifica o poder de fogo.

1 – Cartas perfumadas para Angola

aline

Há dois anos atrás, Aline Frazão mostrou ao público do FMM, no Centro de Artes, que está na música para intervir e não apenas para entreter. Agora, no final de tarde em pleno castelo, Aline Frazão, tendo como tema central a notícia dos quinze activistas angolanos detidos há cerca de um mês sob o pretexto de estarem a preparar um golpe de estado, foi ainda mais interventiva. Aline foi muito dura com as autoridades do seu país, pediu “uma democracia a sério”, chegou mesmo a pegar numa folha de papel para ler os nomes desses “golpistas”, alguns deles artistas que já passaram pelo FMM como Luaty Beirão. Uma mensagem embrulhada numa “carta de papel perfumado e com letra bonita” (de acordo com a canção escrita por Viriato Cruz). Lindos os momentos da evocação de “Namoro” de Fausto e de “La Carta” de Violeta Parra (a lembrar a audiência que, durante a noite, o castelo iria receber outra chilena com palavras bem aguçadas e dirigidas aos regimes opressores da América Latina, Anita Tijoux).

Em termos de estética sonora, tivemos em palco uma Aline transfigurada. Há menos som “lusófono” com colagem à bossa e à brisa tropical brasileira. A sonoridade é agora muito mais urbana, eléctrica, com o poder de fogo de algum noise noise-rock de tempero do eixo Thurston Moore – Lee Ranaldo – Glenn Branca à mistura (dedadas do actual guitarrista Pedro Geraldes dos Linda Martini) que se estende quer pelos novos temas que irão figurar no novo disco que deverá sair no Outono, quer pelas canções mais antigas como “Primeiro Mundo” (que diferença).  E que bem que fica a Aline envergar uma guitarra eléctrica Gretsch. Recorda-nos de como a belíssima maliana Rokia Traoré cresceu e amadureceu, entre “Bownboï” (2003) e “Tchamanché” (2008). Oxalá este pequeno pormaior seja um bom prenúncio. (8/10)

 

2 – Alaúdes árabes

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Na Av. da Praia, ao final de tarde, tivemos a agradável surpresa de um colectivo transnacional de dois egípcios, um palestiniano, um londrino nascido na Síria de ascendência iraquiana e um libanês, que unifica com bom gosto dinâmicas de pós-rock e de música electrónica com a folk árabe onde sobressai o duelo de cordofones entre o alaúde do virtuoso Khyam Allami e o bouzouk do também vocalista Tamer Abu Ghazaleh.

Música séria e dolente, muito longe do universo dançável e kitsch do raï, criada por quem sente na pele o estigma de ser árabe e a impotência de ver o lixo do EI a acumular-se à porta de sua casa. (7,5)

 

3 – Blues eléctricos do Niger

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No início da segunda noite no Castelo de Sines, o FMM apresenta ao público português mais uma das grandes revelações da música oriunda de África. O Mali é, de facto, uma verdadeira mina de diamantes de onde se extraem não apenas boas vozes ou virtuososos instrumentistas, mas também artistas que cedo aprendem a saber estar em palco, a dosear o tom repetitivo e hipnótico das escalas pentatónicas, a construir um espectáculo e um repertório festivo e interactivo, ora intenso, ora planante, que deixe o público participar na festa.

Oriundos do norte do Mali, das cidades históricas de Gao e de Timbuktu, os três músicos de apelido Traoré fugiram à ocupação jihadista da sua região e exilaram-se em Bamako onde se formaram com o intuito de tocar na capital maliana para refugiados como eles, as canções da sua etnia.

Em Sines, escutámos riffs de guitarra abrasiva tuaregue, blues fermentados à beira rio Níger tocados por quem escutou na adolescência Hendrix e John Lee Hooker e que cheiram a Ali Farka Touré por todos os poros (belíssima a homenagem que os Songhoy Blues prestaram ao seu “pai” Ali Farka Touré em “Ai Du” que o antigo Presidente de Câmara de Niafunké gravou com Ry Cooder no álbum “Talking Timbuktu”), linhas rítmicas muito funky (a fazer lembrar Amadou & Mariam) que instigavam a danças efusivas por parte do cantor e guitarrista Aliou Traoré. Um espectáculo simples, arrebatador, com repertório muito familiar, mas que soube a novidade, a frescura, dado a forma como os tais blues foram abordados em cima do palco. Mereciam ter estado no concerto pré-fogo de artifício. (9/10)

 

4 – Palavras do Chile

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Depois da surpresa Songhoy Blues, era difícil manter o nível elevadíssimo da noite. A chilena Ana Tijoux manteve-o e superou-o mesmo em alguns momentos.

Num universo cada vez mais ligado entre si, em que temos fácil acesso a (quase) toda a música por streaming e em que algumas das mais ouvidas rádios nacionais vão divulgando com maior regularidade alguma música hispânica e africana, é imperdoável que uma artista do calibre de Ana Tijoux que, inclusivé, já viu o tema “1977” sair da sua órbita muito pessoal para figurar na banda sonora da série Ruptura Total (Breaking Bad), tinha sido uma artista semi-anónima em Portugal, antes de actuar no FMM.

Seis anos depois do tema cujo nome é o seu ano de nascimento, Anita Tijoux encontra-se esteticamente muito mudada. Deixou o visual urbano de fato de treino e boné Adidas e surge agora com corte de cabelo e um longo vestido que ostenta o orgulho indígena de lhe correr nas veias o sangue dos mapuches. Tal como Lila Downs que é a voz dos mixtecas e dos zapotecas, tal como Mari Boine que luta pelos direitos do povo Sami, Ana Tijoux canta, rapa, “saca la voz” por aqueles que amam a terra e, por conseguinte, a vida (os mapuches), contra os sucessivos governantes que os têm usurpado, empurrado para fora do seu território.

“Vengo”, último álbum com o qual Ana Tijoux tem ganho vários prémios e notoriedade em toda a América Latina, demonstra como a cantora (e não apenas a rapper) é uma artista cada vez mais completa, que miscigena os beats urbanos, os sons samplados do Bronx nova-iorquino com sons andinos e da folk da América do sul, canções de arranjos orquestrais e de soul-jazz (capazes de evocar as dedadas do produtor Nitin Sawhney) e ritmos alucinantes ska-punk latino que evoca o melhor dos mexicanos Los de Abajo (“Somos Sur”). Perfeita a sintonia entre o rap e o canto muito bem embalada por uma super-banda em que se destaca o baixista Miguel Barriga. Urgente vê-la de novo em Portugal (ou mesmo em Budapeste, na WOMEX).  (9/10)

(c) fotos: Arquivo CM Sines

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