Entrevistas

Hirundo Maris: voo nupcial, migratório e emancipado

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O Ciclo Músicas do Mundo da Temporada Gulbenkian Música 15/16 arranca já este domingo, 4 de Outubro, no Grande Auditório, às 19h, com o concerto “Chants du Sud et du Nord” de Hirundo Maris. Colectivo da soprano e harpista catalã Arianna Savall (filha de Jordi Savall e Montserrat Figueras) e do seu marido norueguês, tenor, violinista e mandolinista Petter Udland Johansen.

Em Hirundo Maris, Arianna e Petter, em conjunto com Sveinung Lilleheier (guitarra e dobro), Miquel Àngel Cordero (contrabaixo) e David Mayoral (percussão), unem a cultura mediterrânica com a nórdica, da Idade Média ao Barroco. Um repertório de ida-e-volta entre canções ladinas, catalãs, do sul de Itália e folk nórdica e “celta” com arranjos extremamente personalizados.

Projecto editado pela editora alemã ECM que é também ele uma espécie de voo de emacipação em relação aos universos Alia-Vox e Hespèrion XXI.

Arianna Savall responde por email às questões das Crónicas da Terra.

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– Hirundo Maris significa “andorinha-do-mar” em latim. Será esta andorinha uma metáfora que esboça as migrações de Norte para Sul e vice-versa deste projecto?  Não é também uma metáfora de emancipação? De “voar” para longe do seu antigo “ninho”?

Sim, Hirundo Maris é uma andorinha-do-mar e, como o nosso grupo, viaja continuamente entre o Norte e o Sul. Em ambos os lugares encontra beleza e inspiração. Com o Petter, encontrei muitas ligações musicais entre a Noruega, a Escandinávia, Catalunha, especialmente o sentimento de melancolia. É um boa observação, quando comenta que grupo voa para longe do ninho. Honestamente, não tinha visto isso mas, de facto, poderia ser…

– Penso que a música catalã ‘El Mariner’ se encontra na génese de Hirundo Maris. Porquê? Por representar a união entre uma donzela do mediterrâneo com um cavalheiro nórdico ou por ser uma canção de marinheiros que já viajou por muitos mares e que já foi cantada em muitos portos (e tendo ganho por isso imensas versões)?

A música tradicional catalã “El Mariner” foi o foco deste repertório “Cantos do Sul e do Norte”. Em torno dela, criámos o nosso projecto mais pessoal. A história de “El Mariner” é um pouco como a nossa história. Um encontro de amor, onde há uma fusão muito bela de duas culturas tão distintas, mas estão ligados por mar, por nostalgia, por histórias muito antigas e misteriosas… Esta canção tem mil versões e arranjos. Por isso foi muito importante para nós fazer um arranjo muito diferente daqueles que já ouvimos; fazer uma versão original, com o nosso carácter. Creio que  conseguimos criar uma versão muito criativa e pessoal. Quando a cantamos em concerto, todos os cépticos perante esta ligação entre o Norte e o Sul, ficam totalmente convencidos!

– Em Hirundo Maris há muitas músicas tradicionais de diferentes fontes (Catalunha, Castela, Noruega, Escócia, mundo sefardita) e duas vozes totalmente distintas. Qual é o segredo desta união tão coesa em que as canções parecem ter todas a mesma origem? Há um princípio estético pré-determinado?

É verdade que tanto o Petter como eu, vimos de uma formação de música antiga e esta é a mais importante fonte da qual bebemos. Muitos dos princípios musicais de música antiga também são comuns na música tradicional, como a improvisação, ornamentação,a forma de cantar as canções populares… As canções tradicionais que escolhemos para figurar no repertório de “Canções do Sul e do Norte”, têm uma origem muito antiga e é interessante ver como na Catalunha e na Noruega, muitos delas vêm da Idade Média, época em que as pessoas já viajavam muito. Muito mais do que imaginamos.

– Como surgiu a ideia de colocar uma guitarra dobro na sua formação? É um elemento vital para o seu som tão único?

Boa pergunta! O Sveinung é um amigo do Petter de longa data. Ele vem do bluegrass e da pop. Amizade à parte, no primeiro ensaio em que testámos esta combinação, ficámos maravilhados. A junção entre a harpa tripla e a dobro é como um sonho poético. Creio que somos os únicos no mundo a combinar estes instrumentos. O Sveinung também compreendeu imediatamente o nosso estilo e adaptou a sua forma de tocar à nossa.

– Olhando para a sua discografia, quer a solo, quer com o projecto Hirundo Maris, de “Bella Tierra” a “Peiwoh”, de “Chants du sud et du nord” a “Vox Cosmica” (dedicado a Santa Hildegarda de Bingen), parece-me que há um “movimento migratório” a partir da natureza em direcção ao misticismo. Natureza e misticismo fazem parte de um todo?

É verdade que tem havido esse processo, mas de forma inconsciente. Cada disco tem sido editado em determinadas alturas que correspondem à forma como nos encontramos a cada momento. Momento esse que reflecte as nossas necessidades mais profundas desse período de tempo. Em “Peiwoh” notam-se pinceladas de misticismo ou espiritualidade em canções como “Preghiera”, “Adoucit la Melodie”, “Anima Nostra”, porque para nós a música é o elemento mais espiritual que existe e que nos liga a uma parte muito profunda do nosso ser e a tudo aquilo que está à nossa volta, neste mundo. No último disco que gravámos para a editora Carpe Diem, que sucede a “Vox Cosmica” de Hildegard von Bingen, regressámos a um tema mais terreno e humano. Homenageámos o amor e todas as suas facetas. O disco “Il viaggio d’Amore” é também uma viagem de amor pela Europa.

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– Até que ponto as viagens que efectuou, quer no passado com Hespèrion XXI, quer actualmente com Hirundo Maris, afectam o seu processo criativo? Nessas idas e vindas tem trazido canções que posteriormente desenvolve arranjos e integra no repertório de Hirundo Maris?

Tudo aquilo que vivemos, quando viajamos ou nos encontramos em contato com diferentes pessoas, lugares e culturas nos inspira muitíssimo. É a nossa fonte de criatividade e uma parte importante da nossa vida e personalidade. Eu e o Petter somos almas nómadas e esta forma de vida é-nos muito preciosa. Por vezes, pode ser muito dura e cansativa, mas isso acaba sempre por ser compensado com as pessoas bonitas com as quais nos cruzamos neste longo caminho.

 – Como vê o futuro de Hirundo Maris? Explorando repertório de temas mais tradicionais de várias origens (nórdica, mediterrânica, ladina), ou concebendo mais obras conceituais sobre outras figuras da grandeza da Santa Hildegarda de Bingen?

Sim, temos muitas ideias para voltar a gravar. Apesar de nos encontrarmos numa altura muito difícil para a edição de novos discos, penso que o mundo necessita sempre de novas músicas e novas gravações. Não sabemos ainda qual a direcção a tomar, ou a plataforma a apostar, mas certamente que seguiremos um caminho. Temos de nos adaptar a estes novos tempos.

– Poderá o projecto Hirundo Maris descer o Mediterrâneo em direcção a África e dialogar com outros cordofones tradicionais, como a kora dos griots, o krar da Etiópia ou o biram das tribos nómadas do Niger?

É uma música que nos encanta. Conheço muito bons harpistas que já trabalharam este tipo de projectos, como Myrdhin que, com a sua harpa celta, já dialogou com arpistas africanos. Para nós, este é um universo longínquo, mas quem sabe… Queremos trabalhar mais música antiga, mas sempre em comunhão com esta fusão com música tradicional e arranjos com cunho pessoal.  

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