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a nova música galega, por Sara Vidal

July 11, 2007

As Crónicas da Terra abrem uma nova secção destinada leitores que acompanham regularmente este espaço. SARA VIDAL, nazarena, actual vocalista dos galegos LUAR NA LUBRE, blogger do actualizadíssimo Sons Vadios, do Sonoridades e colunista do suplemento Hoxe Venres do jornal galego Galicia-Hoxe e uma das principais dinamizadoras da lista de discussão deste espaço, foi desafiada para escrever sobre alguns dos novos valores da folk galega. Sara Vidal preferiu abordar quatro novos discos acabados de sair que lhe são queridos.

dianielbellon.gifDANIEL BELLÓN & DIEGO MACEIRAS
“Unión das Terras”
Phonos, 2006

Destacados pelo prémio Runas do Festival de Ortigueira de 2006, entre uma selecção de 75 maquetas de toda a Península Ibérica, e pelo concurso da Rádio Obradoiro, que lhes permitiu gravar o seu primeiro trabalho discográfico “Unión das Terras”, DANIEL BELLÓN & DIEGO MACEIRAS desde a sua formação em 2005 que revelaram ser um dos grupos mais inovadores e prometedores da nova cena musical galega.
E basta ouvi-los para nos deixarmos convencer pela catalagoção, pois o facto de apenas recorrerem à gaita galega e ao acordeão cromático não impede que seja um disco diverso, ritmano e cativante, não se confinando às melodias tradicionais da Galiza, mas incluindo, igualmente, peças originais e adaptações de temas populares de outros países, como é o exemplo dum “corridinho”.
Ultrapassadas as provas de afirmação e consagração, DANIEL BELLÓN & DIEGO MACEIRAS, exímios tocadores e intérpretes solistas, são, actualmente, uma referência incontornável dentro da nova geração de músicos na Galiza.

setesaias.gifSETE SAIAS
“Sete Saias”
PAI Música, 2006

Definindo-se como música celta, e sob a influência musical do harpista RODRIGO ROMANÍ, ex-membro de MILLADOIRO e quem assume grande parte dos arranjos das harpas, surge um novo grupo no panorama musical galego, emergente da Aula de Harpa do Conservatório de Música Tradicional da Escola de Artes e Oficios de Vigo.
SETE SAIAS é um duo composto por CLARA PINO e MARTA QUINTANA, que têm como objectivo recuperar a sonoridade da harpa na música galega, contrapondo com a melodia da voz. No seu repertório, incluem tanto peças tradicionais, principal fonte de inspiração, assim como originais, dos quais se destacam os dois singles “Rompendo a Marea” e “Bágoas de Azar”, havendo a participação de XOSÉ MANUEL BUDIÑO numa versão remisturada do primeiro tema.
Este álbum de estreia “Sete Saias”, cuja primeira edição já se encontra esgotada, tem o mérito de apresentar uma abordagem original sobre a música galega, tendo sido seleccionado para o concurso Runas do Festival de Ortigueira 2007 e deixando expectativas sobre o próximo trabalho.

xabierdiazcoplas_1.gifXABIER DÍAZ
“Coplas para Icía”
Músicas de Salitre, 2007

XABIER DÍAZ é um homem que apropria-se da terra, como essência fundamental na sua construção enquanto pessoa e músico. Por este motivo, “Coplas para Icía” é um disco comprometido com a cultura e tradição musical, que ele sente como próprias, sendo integralmente composto por adaptações de temas recolhidos pelo próprio XABIER DÍAZ um pouco por toda a Galiza.
No entanto, a proposta que nos apresenta não deixa de ser arrojada e inovadora, deixando transparecer o trabalho de artesão, juntamente com a participação de PEDRO LAMAS (saxo e gaita) e SUSO IGLESIAS (acordeão), em converter ecos antigos em cantares contemporâneos.
Ao ouvirmos este segundo trabalho do músico, apercebemo-nos rapidamente que a intenção subjacente não é recordar o passado, mas atrever-se a reinterpretá-lo com harmonias menos características, em busca dum novo sentido num presente cada vez menos tradicionalista. É de destacar a colaboração de GUADI GALEGO e das Pandeireteiras do Grupo Arestora, que exemplificam, na perfeição, esta conjugação de tempos e de intenções.

ialmanovaera.gifIALMA
“Nova Era”
EMI, 2007

Dificilmente conseguiríamos imaginar a música “Under the Bridge” de RED HOT CHILI PEPPERS transformada por um grupo de cantareiras, acompanhadas pelo tocar da pandeireta. No entanto, é esta proposta de fusão da música tradicional com o rock/pop que as belgo-galegas IALMA apresentam no seu terceiro trabalho discográfico “Nova Era”.
Neste tema que abre o disco, e no qual colaboraram as septuagenárias cantareiras de Pontecaldelas “DAMAS DE LAXOSO”, intuimos a musicalidade, que em muito se afasta do primeiro álbum a capella “Palabras darei” (2000). Seguindo a evolução duma linha estética mais inovadora, tal como fizeram LEILIA ou ANUBIA, “Nova Era” apresenta-se como uma proposta de fusão mais ambiciosa e abrangente, com composições originais e temas tradicionais de todo o mundo, reflectindo-se, igualmente, na participação de vários músicos, nomeadamente: MERCEDES PEÓN, GUADI GALEGO, RADIO COS (Xurxo e Quique Peón), N´FALY KOUYATÉ (Guiné), AD COMINOTTO (Italia-Bélxica) e SOPHIE CAVEZ (Bélgica), entre outros.

Sara Vidal

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ETRAN FINATAWA: clube dos nómadas unidos

May 20, 2007

ETRAN FINATAWA

Introducing ETRAN FINATAWA

World Music Network / Megamúsica (CD 2006)

tuaregues e Wodaabes do Níger unem esforços e lutam conta injustiças raciais




Lawrence da Arábia deveria abençoá-los. Dez elementos de duas tribos nómadas do Níger (Tuaregues e Woodaabes) uniram esforços para lutarem conta as injustiças raciais. Nunca devem ter pegado em armas, mas parecem geminados com os malianos Tinariwen, por via dos “riffs” abrasivos de guitarra eléctrica (escola “ichumar”) e do irresistível apelo hipnótico à dança, ao transe, à celebração do isolamento e da liberdade. Mas os ETRAN FINATAWA (leia-se Estrelas da Tradição) são muito mais do que um clone destes ex-guerrilheiros em estado de graça. Há, na sua densidade rítmica, um sincretismo religioso com ecos de celebração “gnawa”, palmas a marcar ritmos marotos (que nos fazem perder o controle da anca), urrares e cantos polifónicos que ecoam à beleza rústica de Niafunké (de Ali Farka Touré), clamação masculina projectada ao infinito que reduz a noção de distância entre o céu estrelado e a extensão arenosa do Saara (e que convoca os espíritos Sufis paquistaneses do “Qawwali”). O disco é enorme, como o deserto do Norte de África.

[Os ETRAN FINATAWA actuam no Festival de Músicas do Mundo de Sines, extensão de Porto Côvo, no próximo dia 20 de Julho]

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MESTRE AMBRÓSIO: vale a pena seguir Cabral

March 11, 2007

MESTRE AMBRÓSIO

“Fuá Na Casa de CaBRal”"

Sony Music(CD 2000)

uma visão mais enraizada e regionalista do mangue beat

[texto originalmente publicado em Maio de 2004 neste espaço]

Se CHICO SCIENCE correspondia à renovação da música nordestina a partir de elementos exteriores como funk e hip hop, os MESTRE AMBRÓSIO partem de toda uma panóplia riquíssima de ritmos como o maracatu, coco de roda, baque solto, baque virado, forró, chote e ciranda para dar uma visão mais enraizada do mangue beat (género musical apelidado pelos brasileiros do sul à nova música regional que vem do nordeste).

Ao segundo álbum, os MESTRE AMBRÓSIO aprofundam as suas raízes locais, numa amálgama sonora essencialmente construída à base de inúmeras percussões (pandeiro, alfaias, chocalhos, preacas, reco-reco, agogô, zabumba, caxixi, caixa com hit-hat top 13”, bombo 12”, etc), alimentada por uma rabeca de sonoridade vetusta, um fole de 8 baixos folião que comanda o forró pé de calçada (vertente urbana do forró pé da serra), além da guitarra e baixo responsáveis pelo formato híbrido de tradição e modernidade.

O universo dos MESTRE AMBRÓSIO é grande como o Brasil e profundo como a Amazónia. Entre os ritmos trazidos pelos escravos africanos, dilui-se a harmonia portuguesa e respira-se o ambiente misterioso da Mata Norte, complementado com uma dose lúdica e encenada do Cavalo Marinho - folguedo do norte de Permanbuco composto por dança, poesia, teatro que comporta várias personagens e cujo mestre de cerimónias é… Mestre Ambrósio.

Neste disco há um maior risco por parte da banda, não só em assumir um lado mais popular, como também na exploração de outras paisagens (“Chamá Maria” é um misto de tango com melodias ciganas de leste). Há ainda a inclusão de três temas já editados no álbum de estreia em versões que conseguem ter nova amplitude: “Usina”,” Se Zé Limeira Sambasse Maracatu”, “Pé-de-Calçada”). O humor e sátira de SIBA continua irrepreensível. Tentem escutar a história de como Cabral descobriu o Brasil e logo se arrependeu.

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SUSHEELA RAMAN: Beleza anglo-indiana

March 10, 2007

SUSHEELA RAMAN

“Salt Rain”

Narada / EMI - VC (CD 2001)

pop global de uma inglesa de sangue indiano que viveu a maior parte da sua vida na Austrália

A globalização regulamentada pelas leis de mercado não nos oferece apenas efeitos negativos e “darwinistas” às culturas não ocidentais. Há medida em que as fronteiras se esbatem e que certos acordes e melodias têm a capacidade de recuar cem ou duzentos anos no tempo, a música torna-se num fenómeno global de difícil catalogação estilística e temporal. Assim acontece com Susheela Raman.

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TAMA: da música griot ao experimentalismo britânico

March 10, 2007

TAMA

“Nostalgie”

Real World / EMI - VC (CD 1999)

“ambient” mandinga com funk e blues à mistura por um maliano, um guineense e um inglês


[texto publicado originalmente na extinta revista "Voice" em Maio de 1999]

Apesar da fusão existente entre o coração do império mandinga (algures entre o Mali e a Guiné Bissau) e a modernidade ocidental, “Nostalgie” mantém bem conservado toda a estrutura oriunda de África, sobressaindo a experiência e maturidade deste trio - TOM DIAKITÉ (do Mali, kora e n’goni), DJANUNO DABO (da Guiné Bissau, percussões) e SAM MILLS (de Inglaterra, guitarra) - em construir um disco tão enraizado quanto diversificado. O passado partilhado em palco com SALIF KEITA e MORI KANTE (por parte de TOMI) e ANGELIQUE KIDJO (por parte de DJANUNO) não os fez sofrer de síndroma da afro-europeização, entenda-se afro-francofonização. Até SAM MILLS (um dos fundadores dos experiementalistas ingleses dos anos 80, 23 SKIDOO), cujas experiências tecnológicas com o indiano PABAN DAS BAUL se aproximavam de um formato de fusão mais vistoso, está agora mais discreto, encarregando-se de pequenos pormenores. “Nostalgie” tem funk, blues, momentos de piano mais ‘jazzísticos’, vozes wassoulou carregadas de misticismo, muita ambiência à mistura, dominada pela guitarra (quase infinita, a la MICHAEL BROOK) de MILLS e pela filtragem em maquinaria de sons de hammonds, violoncelos, alaúdes. Tudo isto feito com um nível de refinamento elevado e global, assente em solo africano.

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[perfil BILLY BRAGG] “One man Clash”

August 25, 2006

“One man Clash” ou “national treasure” são duas expressões utilizadas para descrever BILLY BRAGG. O facto desta última ter sido utilizada pela primeira vez muito recentemente pelo institucional jornal The Times, pode ser apenas sinónimo do reconhecimento de uma carreira já longa de vinte e muitos anos, mas não deve ser encarada como uma rendição ao politicamente correcto, tão demasiado presente em todos o sectores desta nossa tristemente globalizada sociedade.

É na convulsão do punk, indissociável da situação político/social que se vivia no Reino Unido nos finais da década de setenta do século passado, que surgem, no meio de um turbilhão de bandas, os RIFF RAFF, que eram BILLY BRAGG e PHILIP ‘WIGGY’ WIGGS, geograficamente originários de Barking, Essex (encontraremos ‘WIGGY’ mais tarde a colaborar no projecto a solo do primeiro, nomeadamente no álbum “Don’t Try This At Home” de 1991).

THE CLASH despertaram indiscutivelmente em muito, muito boa gente, uma consciência política que estava adormecida nuns, entorpecida noutros (aqui também com a ajuda preciosa da brutalidade policial na época). Os temas que abordaram nas suas canções em conjugação com a atitude politicamente engajada que assumiram, através por exemplo da participação activa contra a ameaça da National Front (partido da extrema direita inglesa em preocupante ascensão na época), nos eventos promovidos pela Anti-Nazi League e pelo Rock Against Racism.

BILLY BRAGG não foi excepção. O primeiro concerto dos CLASH, a que assistiu na Rainbow deixou marca indelével, reflectindo-se certeiramente na confissão de BRAGG de que JOE STRUMMER alterou a sua forma de encarar o mundo.

É essa mesma consciência política e esse mesmo comprometimento com uma causa que define a carreira de BILLY BRAGG, indiscutivelmente ligado à esquerda inglesa. Em meados de oitenta muito próximo do Partido Trabalhista, então na oposição ao governo conservador da ‘dama-de-ferro’ Margaret Thatcher. Actualmente a situação é necessariamente diversa, uma vez que o Reino Unido é governado pelos trabalhistas, sob a liderança de Tony Blair, que é, no entanto e justamente, considerado um neo-conservador, à semelhança dos seus aliados da administração norte-americana.

Foi nesses anos uma voz forte no apoio às lutas sociais levadas a cabo contra o mencionado governo conservador. A Greve dos Mineiros em 1984 talvez tenha sido a mais importante batalha em que BRAGG se empenhou. Desde então e até ao presente, a luta e os motivos que à mesma conduzem, não terminou, e dificilmente terminará, e por isso a série de espectáculos que tem agendados para os próximos meses de Abril a Junho – Hope Not Hate tour – serão, também, de apoio às três principais organizações anti-fascistas inglesas, sem perder de vista as eleições locais em Maio (está, assim, explicada a expressão “one man Clash”!).

Os três discos que abordamos muito sumariamente a seguir, foram agora reeditados, devidamente remasterizados e providos de faixas extra, e são os que melhor espelham a componente interventiva que autor tão bem consegue entrelaçar com a vida simples e dura das classes ditas trabalhadoras (que no fundo, e em última análise, somos todos nós).

“Life’s a Riot with Spy vs Spy” em 1983 é o primeiro álbum. Um homem, uma guitarra e um amplificador (e aqui um parêntesis para destacar “Pay no more than…”, uma marca, inscrita em local visível na capa, que alerta o comprador para o facto de não dever pagar mais pelo disco que a quantia impressa, que representa o preço justo - um perfeito percursor do hoje chamado comércio justo, curiosamente em 1979 com “London Calling” os CLASH, prescindindo da sua quota parte de lucro, tinham conseguido que a multinacional CBS vendesse esse duplo álbum ao preço de um simples).

“Brewing Up With Billy Bragg” (1984) e “Talking with the Taxman About Poetry”(1986), representam o segundo e o difícil terceiro álbuns (neste já bem acompanhado entre outros, pelo genial JOHNNY MARR, na altura guitarrista dos SMITHS. Curiosamente ‘WIGGY’ não terá colaborado devido, ironicamente, a uma greve de autocarros).

As músicas dividem-se basicamente em dois capítulos. As de intervenção, como ‘To Have and Have Not’, ‘It Says Here’, ‘Ideology’, ‘There is Power in a Union’ ou ‘Help Save the Youth of America’,e as de amor, como ‘A New England’ ou ‘A Lover Sings’, enquadradas em retratos de quotidianos normais.

Estas e todas as outras merecedoras da nossa máxima atenção.

Pedro Neto Neves

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MERCEDES SOSA: “adentrar-nos” pela Argentina com La Negra

August 24, 2006

>MERCEDES SOSA
“Corazon Libré”
(Deutsche Grammophon / Universal)

Em Agosto de 2005, passados mais de 5 anos do último disco de estúdio, saiu mais um disco de MERCEDES SOSA, “Corazon Livre”, editado pela Deutsche Grammophon.
MERCEDES SOSA é considerada a voz argentina, da América Latina, dos povos oprimidos. Uma das maiores vozes do mundo! Hoje, já com 70 anos, continua a dar grandes espectáculos. Além de cantar, conversa com quem a escuta, por todo o mundo, desculpando-se por só falar em espanhol, agradecendo a cada passo o calor dos muitos que a escutam. Começou por cantar folclore da sua região natal Tucumán, para depois crescer como intérprete, podendo ouvir-se vários géneros nos seus discos: música revolucionaria, tangos, milongas chacareras, tonadas, zambas e até interpretações de um artista rock argentino – Charly García.

Quem conhece a discografia de La Negra, como é carinhosamente conhecida na Argentina e no Mundo inteiro, não encontra surpresas neste disco. Ouvi-lo é “adentrar-nos” pela Argentina, numa canção visitamos a cidade Mendoza, em outra conhecemos a natureza ao ver os Lapachos em flor, convivemos com o povo nas festas e nas lutas; é conhecer a força de uma Senhora que apesar da idade não cruza os braços e continua a chamar-nos para a luta e a dar-nos razões para amar, seja a pátria ou a pessoa que está ao nosso lado e que nos diz que mesmo com todos os problemas um mundo melhor é possível. Não nos surpreende que a sua voz não alcance tons que facilmente atingia antes.

A surpresa começa quando a ouvimos forte, profunda, doce e límpida. Quando percebemos que em “Corazon Libré” temos gente jovem com quem canta ou de quem interpreta canções, assim como conceituados escritores de canções que partilham com ela este disco.

É verdade que não estamos na presença do melhor disco de Mercedes Sosa, mas quem o ouvir encontrará de certeza um ou mais temas que se tornam imprescindíveis na banda sonora da sua vida!!

Amália Oliveira

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TARAF DE HAÏDOUKS: abelhas que voam por todo o planeta e que misturam o pólen musical que recolhem de diferentes flores

August 11, 2006

TARAF DE HAÏDOUKS
Band of Gypsies
(Crammed / Megamúsica)

Já estiveram em Portugal por várias vezes. Por onde passaram, deixaram imensas saudades. Vão estar nas celebrações do 30º aniversário da Festa do Avante. Uma festa imperdível, de acordo a qualidade do cartaz.

Depois de dez anos de intensas digressões à volta do mundo, a TARAF DE HAÏDOUKS (grupo de justiceiros) fez justiça pelas próprias mãos. Entraram pela primeira vez, de forma apoteótica na capital Romena, para gravar o seu quarto disco ao vivo. Uma super produção que demorou três noites, onde contaram com a presença de convidados especiais de vulto: a KOÇANI ORKESTAR BRASS BAND da Macedónia e o turco TARIK TYYSUZOGU. Quem conhece a Taraf de Haïdouks como referência incontornável da música cigana e da folk que sopra de leste, poderá minimizar tal feito. Apesar da banda criar simpatias com gente ilustre como o actor Johnny Depp, que chegou a pagar cerca de vinte mil contos (cem mil dólares) para os ver no seu bar Viper Club e com o estilista japonês Yamamoto que já vestiu todos os seus elementos, a TARAF DE HAÏDOUKS é praticamente desconhecida na Roménia. Se na era Ceausecsu, os músicos ciganos eram constantemente vigiados pela polícia política, para não cantarem as baladas medievais mitológicas que pudessem descrever actos heróicos de outrora e consequentemente desvalorizar a política comunista, hoje em dia esses mesmos ciganos que detêm o mais baixo nível de vida na Roménia, continuam a ser alvo de actos racistas generalizados. No entender da população branca, são eles os responsáveis pelo contínuo mau estar económico e social que o país tem sofrido nestes dez anos da era pós-Ceasusescu. As consequências variam: desde a impossibilidade de as crianças frequentarem a escola e outras instituições públicas, ao acto de fogo posto nas suas casas perpetrado pela população branca. Sem acesso à educação, as crianças ciganas de Clejani podem não saber ler e escrever, mas desde cedo aprendem instintivamente a tradição dos “lautari”. Afinal, é esta a forma mais eficiente de ganharem dinheiro em todo o tipo de celebrações: casamentos, aniversários, baptizados e funerais.

Bela Bartók poderá acusar os ciganos de corromperem a verdadeira folk dos camponeses da Europa de Leste. No entanto, a Roménia só tem de agradecer-lhes pelo facto de nunca terem parado de tocar e terem continuado a cantar clandestinamente (e a passarem de pais para filhos) as canções que Ceausescu proibiu e cujos registos magnéticos queimou, dando um importante contributo para a preservação de parte dessa cultura. Daí que tenhamos de concordar com a opinião do mestre da tabla indiana ZAKIR HUSSAIN quando diz que, sem os ciganos a história musical do nosso planeta seria diferente, comparando-os a abelhas que voam por todo o planeta e que misturam o pólen musical que recolhem de diferentes flores. Afinal, foram eles que transportaram da Índia o conhecimento de várias percussões, que se foram desenvolvendo com a diáspora cigana: a dumbak no Líbano, a Tar na Núbia ou a Darbouka na Turquia.

A TARAF DE HAÏDOUKS e o sublime registo “Band of Gypsies” acaba por fazer bom uso das palavras mobilidade, espontaneidade, diversidade, cumplicidade e despique que caracterizam cada concerto. O confronto entre gerações (a dos 70/80 anos e dos 20/30 anos) provoca a dualidade entre a balada cantada e sentida com a mesma mágoa do blues e as composições instrumentais tocadas a todo o gás, como se o pendular pendulasse (a cerca de 300 kms/h). O caldeirão de culturas consegue fazer aquilo que os diversos chefes de Estado não têm conseguido: unir toda a extensa região das Balcãs através da música - da Jugoslávia, Hungria e Roménia, até à Bulgária, Macedónia, Turquia - com o Norte de África. Todo o seu tecnicismo e improviso põe à prova a capacidade de criar empatia em qualquer palco do mundo. Sente-se que a TARAF DE HAÏDOUKS precisa do calor do público, como uma acendalha numa fogueira, para entrar em combustão e dar toda a energia e virtuosismo selvagem que têm e não têm. Além da capacidade que eles possuem de tocar todo o dia e toda a noite, visível há meia-dúzia de anos em Faro quando se encontravam em rodagem de um documentário sobre a banda, os treze elementos funcionam como uma equipa bem oleada, sem estrelas, cujo cúmulo da coesão é conseguirem mudar de contra-baixista a meio de uma composição, sem prejuízo para o espectáculo. A todas estas características visíveis aos olhos de quem teve a oportunidade de os ver ao vivo em Portugal, de realçar neste disco o duelo que a TARAF perpetua com a KOÇANI ORKESTAR, com as cordas dos romenos e os metais dos macedónios a amplificarem ainda mais o tom de êxtase selvático, mas puro das celebrações ciganas. Por tudo isto, a TARAF DE HAÏDOUKS tornou-se na principal embaixatriz da cultura musical da Roménia, para desgosto do cidadão comum deste país. A justiça feita por justiceiros tem destas coisas.

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ALI FARKA TOURÉ: “Savane” expande a produção deliciosamente rústica de “Niafunké”

August 10, 2006

ALI FARKA TOURÉ
“Savane”
World Circuit / Megamúsica

Há algum tempo atrás, no norte do Mali, em pleno coração do Sahel, o agricultor ALI FARKA TOURÉ anunciou que abandonava as lides musicais para cumprir um desígnio maior. Conjugando provérbios e um enigmático sorriso aberto, tão desconcertante e peculiar como o seu estilo de dedilhar a guitarra, ALI explicou que a aridez da savana não dá tréguas: a terra deve que ser amanhada, os animais apascentados, a vasta família sustentada. Com os frutos da consagração internacional colhidos, incluindo um Grammy, e o reconhecimento nacional conquistado ambicionava regressar a sua casa e zelar pelos interesses da sua aldeia, Niafunké. Mas assim como o caudal do Níger não é travado pela secura sub-saariana nenhum voto seria suficientemente forte para conter a música que brota de ALI FARKA TOURÉ e, no ano passado, um novo disco em parceria com o amigo de longa data e génio da kora, TOUMANI DIABATÉ, foi brindado com novo Grammy e acompanhado pelo regresso aos palcos europeus no qual Lisboa foi agraciada numa noite de Verão memorável. Depois, um último silêncio que nem mesmo a teimosia pela qual recebeu o nome do meio venceria. Felizmente “Savane” estava em adiantada fase de conclusão.

Saído das mesmas sessões que originariam a parceria com DIABATÉ e o álbum deste último com a SYMMETRIC ORCHESTRA, “Savane” expande a produção deliciosamente rústica de “Niafunké”, que enformava as intrincadas malhas de guitarra com coros femininos, percussão e njarka (violino de uma só corda), recorrendo a um trio de tocadores de ngoni (um provável antepassado do banjo) mas também ao saxofone de PEE WEE ELLIS, colaborador de JAMES BROWN e VAN MORRISSON, e da harmónica de LITTLE GEORGE SUEREF. FAIN S. DUEÑAS, percussionista nos extintos RADIO TARIFA, fecha o rol de convidados. O resultado é uma derradeira colecção de blues assombrados pelos ventos do deserto redemoinhando histórias e personagens, cenas do quotidiano em Niafunké, visões sobre presente e o futuro do Mali e de África. E se a presença do ngoni e njarka plantam firmemente estas canções em território Songhai e Touareg, o que se pressente de imediato na entrada triunfal de “Ewly” e se confirma ao longo do disco e, em especial, nos magníficos “Banga”, “Machengoidi” e “Hommage a Annasi Coulibaly”, a verdade é que o saxofone e a harmónica pouco ou nada acrescentam à música primitiva de ALI. Mas também não a adulteram, fundindo-se discretamente na mistura final em “Beto” e “Njarou” ou estreitando ainda mais a afinidade com os blues norte-americanos na faixa de abertura e em “Ledi Coumbe” ou “Penda Yoro”. Foi sugerido que, desta forma, mais do que acusar influências externas ou procurar alargar a sua audiência no Ocidente, ALI estaria a reclamar o regresso da diáspora africana ao continente-mãe. “Savane” resolveria assim o permanente mistério sobre a génese da música de ALI FARKA TOURÉ. Estou certo que, pressentindo a nossa dúvida, ele responderia com um imenso, inescrutável sorriso: “C’est ça!”.

Cláudio Pedrosa

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GAITEIROS DE LISBOA: Força mágica de Sátiro

August 8, 2006

GAITEIROS DE LISBOA
Sátiro
Sony-BMG

Há uma força mágica (ou obra de Satanás) que me leva a não conseguir largar a música dos GAITEIROS. Ao longo de vários anos fui seguindo a forma apaixonada como trabalham sobre a música tradicional portuguesa, reinventado-a.

Cada disco novo agarra-me pelos cabelos. Depois a música vai-se entranhando, vão-se descobrindo os pormenores, as canções tornam-se amigas e membros da família, daqueles de quem se gosta e com quem fazemos noitadas, que tanto podem terminar em conversas serenas sobre o sentido da vida, como em festas demoníacas.

É sempre de festa que falo quando digo GAITEIROS DE LISBOA. E fazer uma boa festa dá trabalho. Os ritmos contagiantes, vistos com mais atenção, são entrançados, endemoninhados, tortuosos; as melodias são mais que infantis; as harmonias fazem todo o sentido e, em lume forte, se cozinha esta amizade com os discos que guardamos ao longo dos anos à cabeceira.

Junta-se agora ao grupo de amigos SÁTIRO, o quarto disco dos GAITEIROS. E entra de rompante pela sala chamando a atenção de todos, como se quer do puto mais novo da família.

É um disco onde se voltam a fundir todos os elementos que fazem a música dos GAITEIROS: os coros e polifonias, os instrumentos por eles construídos, as mais diversas percussões e sopros, com as gaitas em menor destaque neste disco, o que nem é propriamente uma novidade, nem é necessariamenta mau.

Pontos altos desta festa de Belzebú:

“Nem fraco nem forte” (AMÉLIA MUGE / JOSÉ SALGUEIRO): viciante e dançável canção conduzida pelo pulsar criativo das percussões e por um vigoroso refrão.
“Comprei uma capa chilrada” (CARLOS GUERREIRO): é uma das melhores (e mais complicadas) lengalengas que os GAITEIROS já produziram, terminando num enérgico lamento, em tons ocre do Norte de África.
“Movimento perpétuo” (CARLOS PAREDES): já editada na compilação de homenagem ao guitarrista. Génios descomplexados em diálogo, transfigurando uma guitarra num festim de xilofone e sopros.
“As freiras de S.ta Clara” (Popular/CARLOS GUERREIRO): uma canção sobre freiras com 3’33”, até aqui tudo bem; o sinal da conjura de Lúcifer está no fim, quando o repeat é inevitável, e o tempo da canção duplica. Só porque nos apetece chegar de novo àquela gaitada final.
“Haja Pão” (JOSÉ SALGUEIRO): uma orgia de ritmos e gaitas de amolador, com a voz de RUI VAZ a planar sobre a chuva que se anuncia, que sempre se anuncia quando passa o homem, que na sua bicicleta amola facas e tesouras e arranja os guarda-chuvas.
“Os versos que te fiz” (FLORBELA ESPANCA / CARLOS GUERREIRO): a doce voz de MAFALDA ARNAUTH e o som das flautas de pan faz-me acreditar que vou a caminho do céu, mefistofélico embuste.
“Se fores ao mar pescar” (Tradicional do Alentejo/JOSÉ MANUEL DAVID): é fácil explicar a qualquer iniciado na obra dos GAITEIROS. Polifonias, Alentejo, RUI VAZ e JOSÉ MANUEL DAVID. Foi por isto que primeiro me apaixonei quando ouvi INVASÕES BÁRBARAS. Coisas do Demo.

Pedro Almeida Sousa

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LILA DOWNS na linha da morte

July 13, 2006

LILA DOWNS
La Linea
(Narada / EMI)

Num ano em que a causa Zapatista andou nas bocas do mundo, devido à apelidada Zapatour, que levou pela primeira vez Subcomandante Marcos à Cidade do México em total apoteose, a anglo-mexicana LILA DOWNS edita um álbum polémico. Mais um manifesto anti-globalização que põe a nú a política económica global da NAFTA, a imigração precária num mundo de (apenas e só) livre circulação de bens financeiros e as situações desumanas que se vivem em solo mexicano: a questão da exploração do trabalho feminino nas “maquiladoras”, a falta de direitos civis dos mais de 10 milhões de indígenas que aí vivem, o infortúnio daqueles que pagam com a vida o facto de tentarem passar a fronteira entre o México e os EUA.
Filha de um professor de arte e pintor norte-americano e de uma indígena mexicana de etnia Mixteca, LILA DOWNS é uma espécie de MANU CHAO no feminino. Além de um discurso inflamado pela defesa dos pobres e excluídos, LILA exibe neste seu terceiro uma abrangência sonora notável, centrada sobretudo no universo latino-americano. Sem nunca esquecer as suas raízes índias – ela própria veste-se a rigor e vive numa comunidade mixteca – LILA DOWNS ora exibe a sensualidade serena de excelsas vozes hispano-americanas como SUSANA BACA e TOTO LA MOMPOSINA, ora revela o seu lado negro de tragédia e dramatismo inspirado em LHASA, ao qual não falta a referência à lenda de “Llorona”.
Entre arranjos jazz e pop tão sofisticados como aqueles que moldam “Eco de Sombras” de BACA, LILA DOWNS apresenta várias facetas em “La Linea”. A clássica, rígida e sóbria, centrada na cultura popular mexicana, em cumbias e boleros. E a experimentalista e irreverente, ironizando a má sorte daqueles que tentam passar a linha com rancheras (“El Bracero Fracasado”), decompondo o intervencionismo de WOODY GHUTRIE, revestindo todo o dramatismo das suas palavras com ritmos de hip hop e reggae, dando uma leitura afro-cubana - num jeito semelhante ao dos norte-americanos PINK MARTINI - a “Perhaps, Perhaps, Perhaps”. Uma obra tão interessante, quanto desequilibrada.

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set(e) de folk do norte de Espanha

July 12, 2006

MERCEDES PEÓN
Isué
( Resistencia / Sabotage )

O mais interessante que a Galiza nos tem oferecido em termos de música folk, sempre foi dominado pelo lado depurado de interpretar a rica tradição de muñeiras, foliadas e alvoradas. Quer pelos MILLADOIRO que estão para a música galega como dos CHIFTAINS estão para a irlandesa – uma instituição intocável pelo extenso trabalho até hoje produzido a quem se desculpa um álbum menos conseguido – quer pelos LUAR NA LUBRE (primeira fase, até “Cabo do Mundo”) que impõem uma perfeição onírica às entranhas da pura tradição local, sem terem necessidade de correr riscos.
Demarcando-se do terreno pantanoso de um dos maiores aventureiros galegos – CARLOS NÚÑEZ – cuja brilhante técnica de gaita de foles tem sido abafada pelo mau gosto das suas composições, MERCEDES PEÓN assume-se como uma das principais estetas da revolução da folk do Norte de Espanha, ao lado dos progressistas e celestiais BERROGÜETTO. Mas PEÓN vai muito mais além do que a banda do criativo instrumentista ANXO PINTOS.
“Isué”, o álbum de estreia da cantora, compositora, gaiteira, pandeireteira, dançarina e responsável por algumas recolhas de temas aqui incluídos, subverte a habitual rigidez de abordagem à música galega, tornando-se num legítimo candidato ao estatuto de “Kaksi” ibérico. Partindo de uma base assaz regional, na qual se pode escutar que o “Galego que non fala a língua da sua terra non sabe o que tem de seu”, MERCEDES PEÓN parte em busca do mundo que a rodeia: da confluência melódica arábico-mediterranico-balcânica em “De Seu”, ao transe rítmico tribalista e quente da África Negra e Muçulmana, às abrasadoras e misteriosas vozes xamânicas de gélidas latitudes, sem esquecer de arriscar numa experiência tecno-pop (“Sombra de Luz”) menos feliz e no tom festivo ska-folk algo gasto (“Adorno”), com alguns contornos saudosistas evocativos dos Pogues.
“Isué” é, para concluir, um puzzle que prima pela diversidade e MERCEDES PEÓN é uma compositora-cientista em constante experimentação e refutação de teorias, nunca esquecendo a base de todo o seu trabalho: as recolhas que fez em solo Galego.

FALTRIQUEIRA
FALTRIQUEIRA
( Resistencia / Sabotage )

Na Galiza, os gaiteiros e as pandereteiras são tantos e tantas que, às tantas, acabam por formar grupos de gaitas e de pandeiretas (com tarrañolas incluídas). As cinco FALTRIQUEIRA, são o resultado daquilo a que se pode chamar um casamento feliz entre a tradição vocal “alala” e toque de transe mortífero das pandeiretas, que nos fazem lembrar os nossos adufes de Monsanto, ou os bendires do norte de África. Como jovens que são, arrepiam caminho fugindo da rígida tradição, em direcção à fusão bem conseguida pelo produtor basco (do lado francófono) PASCAL GAIGNE. A matéria prima é de primeira qualidade: emotivas, quentes e frescas vozes que possuem a mesma força e vivacidade das finlandesas VÄRTTINÄ (fase “Oi Dai” - “Seleniko”). Uma flecha de cupido apontada ao nosso coração. É amor à primeira audição. A partir daqui, GAIGNE dá-nos o universo luso-galaico (sim, porque como boas galegas que são estas meninas interpretam “As Sete Mulheres do Minho” de Zeca e a “Cantiga Bailada” recolhida na discografia da BRIGADA VICTOR JARA) em confluência com o resto do mundo. Há temperos árabes (alaúde, saz, darbukas), da áfrica negra (djembé) e sul americanos (cajón, berimbau), à mistura com orquestrações mais clássicas (oboé, violoncelo, violino). Mas, o melhor é mesmo o confronto Galiza-País Basco. KEPA JUNKERA e OREKA TX escolheram as armas do costume: trikitixa e txalaparta. O duelo de “Labrada de Cortellas” é sublime. Como magnífico é quase todo o disco, que peca apenas, aqui e ali, pelos excessos de PASCAL GAIGNE. Perde-se em floreados, por vezes, desnecessários.


SUSANA SEIVANE
Susana Seivane
(Do Fol)

Com um domínio perfeito do seu instrumento de quem começou a tocar aos 3 anos de idade, Susane Seivane pode não tocar de forma tão sensual quanto a inglesa Kathryn Tickell (esta também é uma gaita de foles mais estridente), mas oferece-nos a beleza e alegria própria de quem dança uma muñeira ou uma jota, e a subtileza de quem opta por uma valsa. Descendente de uma família de gaiteiros, Susane Seivane segue à risca a tradição, sem grandes riscos de inovação, num álbum que prima pela simplicidade.

BERROGÜETTO
Viaxe Por Urticaria
(Do Fol)

Ao segundo álbum, os BERROGÜETTO, a par com os LUAR NA LUBRE, mantêm o estatuto de legítimos herdeiros da tradição galega de texturas épicas, próprias de uns MILLADOIRO. Enquanto esta instituição se mantém de pedra e cal num formato sonoro que parece estagnado no tempo, ambos os projectos têm colocado uns laivos de modernidade, mantendo a mesmo formato sideral de uma música que activa a nossa imaginação e que nos induz à criação, na nossa tela mental, de imagens e sonhos utópicos, próprio de um título como Viaxe Por Urticária. Local em que se mistura imaginação e realidade e onde tais sonhos podem ser levados a sério. À beleza das melodias ancestrais, sucede algum nervo nos arranjos e composições próprias de ANXO PINTOS (um gaiteiro tão virtuoso quanto NÚÑEZ) que expandem tal tradição para outros universos. Uma evolução galega com os pés bem assentes na terra, mas que resvala , sobretudo na inclusão do saxo soprano e de teclados atmosféricos.

TEJEDOR
Llunáticos
( Resistencia / Sabotage )

A música folk, sobretudo no norte de Espanha é um fenómeno de massas. Os gaiteiros e as gaitas de foles continuam na moda. Os festivais crescem como cogumelos. Os grupos que clamam o pan-celtismo e as ligações transatlânticas com as ilhas britânicas multiplicam-se, havendo a possibilidade de se disputar vários campeonatos: da superliga, às distritais. No meio de tanta parra e pouca uva, o colectivo dos irmãos asturianos TEJEDOR é um nome a reter. Devolvem-nos o prazer de escutarmos a folk que parecia encontrar-se numa encruzilhada. JOSÉ MANUEL TEJEDOR (o gaiteiro de exímia técnica) poderia seguir os mesmos passos de NÚÑEZ e de HEVIA, mas não o faz. Ainda bem. É certo que há neste disco, como também no primeiro “Tejedores de Suaños”, leves tentações de ceder ao fácil (são inevitáveis os inenarráveis teclados planantes e os “beats” de dança), mas com um certo controle. Se a folk é um poço de força, mestria técnica e emotividade, os irmãos TEJEDOR têm também a sua quota parte de culpa. São espantosos os diálogos entre a gaita de foles e o acordeão diatónico (de Javier) que, por si só, já asseguravam uma memorável gravação. Mas há mais. Muito mais: a abertura, “Gaites del Infiernu” é auspiciosa: gaitas, sanfonas, albokas, nickelharpas em chamas, numa resposta a “Bok Espok” de KEPA JUNKERA; o aroma asturiano feito de ritmos rápidos, ágeis e escorreitos (típico em LLANGRES e LLAN DE CUBEL), de uma certa aragem escocesa e que põem a nu toda a beleza acústica do bouzouki e das guitarras acústicas de Igor Medio (membro dos Felpeyu que, na sombra de JOSÉ e JAVIER executa um notável trabalho); a calorosa voz de EVE TEJEDOR interpretando deliciosos romances; e ainda há tempo para acabar em beleza com um solo de gaita de três minutos (“Floreu de Remis”) de nos tirar o fôlego.


BIDAIA
Oihan
( Resistencia / Sabotage )

Nem só de trikitixas e txalapartas é feita a folk basca. A par destes dois instrumentos, a alboka (que, curiosamente, dá nome ao interessante grupo de JOXAN GOIKOETXEA) assume tão ou maior protagonismo no Euskadi. A sua sonoridade estridente, semelhante à bombarda bretã, casa na perfeição com a sanfona ocitana de CAROLINE PHILIPS, oferecendo-nos um autêntico vespeiro a azamboar os nossos ouvidos. Ressonância amplificada pela acção do cordofone percutido local e milenar, Ttun-ttun (da família dos saltérios), feita com um nervo próprio do rock sem, contudo, ceder à tentação de amplificar instrumentos. Pequenos pormenores suficientes para falarmos da filiação BLOWZABELLA e HEDNINGARNA (apenas no pendor dançável e ressonante, se bem que não haja quaisquer vestígios de uma fusão acústica – eléctrica, mas a atitude paira por cá). Contudo, os BIDAIA vão mais longe. Não há frente sem dorso. Não há música profundamente arreigada sem olhar para o resto do mundo. Apesar de cantarem em euskera, marcando firmemente a sua identidade, a música dos BIDAIA viaja pelo mundo e pelo tempo. O saxofone e o contrabaixo imprimem um pendor mais jazzístico. As percussões de JABI AREA – darbouka marroquina e, sobretudo o cajon andaluz – dão-lhe uma cadência árabe-andaluz, que serve um propósito comum: o apelo irresistível à dança.


ALBOKA
Bi Beso Lur
(Aztarna)

Os Alboka poderiam ser os dignos sucessores dos saudosos britânicos BLOWZABELLA se tivessem nascido em Inglaterra. O seu repertório acenta em danças arin-arin, fandango, e contra-danças cuja ancestralidade que pode remontar a tempos medievais, exala uma modernidade semelhante aquela que os Hedningarna exibem. O nome ALBOKA diz respeito a um instrumento de sopro basco que possui uma sonoridade algo “drone” (de zumbido) situada entre a bombarda francesa e a sanfona. À característica ALBOKA, junta-se acordeão, bouzuki, guitarra acústica, violino, arpa e percussões oferecendo uma sonoridade que une energia basca à pureza irlandesa (um dos elementos do grupo é oriundo do país dos trevos) e cuja ancestralidade dá o mote para que se construa a folk marcadamente acústica do futuro.

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ALI HASSAN CUBAN: especialista nubiano em música de casamentos

July 11, 2006

ALI HASSAN KUBAN
Real Nubian
(Piranha)

ALI HASSAN KUBAN, considerado por muitos como o avô e o capitão da revolução da tradição núbia, sabia como chegar aos ouvidos dos europeus e norte-americanos. Apesar de ter sido vítima de um ataque cardíaco que o vitimou aos 72 anos de idade, KUBAN deixa um rico legado musical que tem sido explorado por gente mais nova: caso de MAHMOUD FADL e do seu grupo SALAMAT.
Influenciado pela música ocidental, ALI HASSAN KUBAN descobriu em Harlem os metais e uma nova abordagem de percussão. Com JAMES BROWN aprendeu a tornar os seus espectáculos mais escaldantes. “From Nubia To Cairo”, a grande obra prima de KUBAN datada de 1993, já revelava essa intenção, encontrando-se a rigidez dos ritmos pentatónicos africanos moldados por possantes linhas de baixo soul / funk.
Oito anos depois, KUBAN oferece-nos mais do mesmo, através de uma colecção de temas de casamento núbios. ALI HASSAN KUBAN que considerava a sua música parte núbia, parte global, intensificou em “Real Nubian” o uso de instrumentos eléctricos e de outras paragens, como é o caso do baixo, dos teclados, da gaita de foles e da harmónica. Sem ser um resultado deslumbrante, comparativamente à sua obra-prima já referida, “Real Nubian” vale pelos riscos que o autor corre e pela inclusão das vozes femininas de SALWA ABOU GREISHA (que já colaborou nos discos dos SALAMAT e MAHMOUD FADL) e SHAHIN ALLAN, que dão maior expressão sensual ao “afro-arab-funk” de casamento made in Cairo.

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DESERT BLUES 2: pilar essencial na discografia do Norte de África

July 11, 2006


DESERT BLUES 2
Vários Artistas
Network / Megamúsica (2xCD 2002)

O carinho demonstrado pelos lisboetas o ano passado a ALI FARKA TOURÉ, o sucesso da recente passagem dos TINARIWEN pelo nosso país, o desejo de muitos dos leitores deste espaço irem até ao Festival do Deserto de Essakane, levou-me a recuperar um texto escrito inicialmente em Março de 2003 - curiosamente o primeiro “post” da primeira versão do blogue Crónicas da Terra. DESERT BLUES 2 é, a par do primeiro volume desta série - DESERT BLUES - de compilações editadas pela “label” alemã World Network, uma peça-chave em qualquer discografia do norte de África.

As fronteiras impostas pelos impérios coloniais do Ocidente dividiram África em quadrados feitos de regua e esquadro, aos quais se dão o nome de países, mas não conseguiram diluir os laços familiares e culturais do sistema tribal. Os griots não são fenómeno exclusivo do Mali, extendendo-se toda a África Ocidental (Senegal, Gâmbia, Guiné). Tal como os tuareges, longe de habitarem países como Marrocos, Argélia ou Líbia, são um povo oriundo do extenso deserto do Sara. Neste “oceano sem água”, a música é vagarosa, escarna a pele e o osso, até à alma, dos blues man islâmicos que cantam a rebelião e o ostracismo de quem nunca conheceu fronteiras nem governos tirânicos. A música, além de refúgio, é um bálsamo para o espírito. Tem poderes curativos (gnawa) e une a diversidade tribal dos mandigas, fulanis e sonrais do baixo Sara, onde o Rio Níger fertiliza a terra árida e conduz-nos à África de floresta densa e tropical. Aqui o tempo é marcado pelo nascer e pôr do sol. O melhor é mesmo contemplarmos o elevado grau de pureza que possuem as vozes sarauis (TARTIT,AZIZA BRAHIM), os ritmos do wassolou (NAHAWA DOUMBIA) e as cordas acústicas de guitarra e cora dessa meca musical denominada Mali (BOUBACAR TRAORÉ, ROKIA TRAORÉ, HABIB KOITÉ, DJELIMANDI TOUNKARÁ), se possível acompanhado de um chá de hortelã e menta, num qualquer terraço com vista para o areal de perder de vista. Mas esta sequela (“DESERT BLUES”) da mais bem sucedida compilação da editora alemã Network, não esquece a contaminação ocidental fusionista. Apesar de se poder pensar o pior do raï, CHEB MAMI e KADDA CHERIF HADRIA apanharam as ondas jazzísticas do melhor que a tradição da cidade argelina e costeira de Oran. O lado da contaminação ocidental é ainda reforçado pela voz da etíope NETSANET MELLESSÉ, que brota das profundezas da África negra, para um ambiente de obscuridade inimista tão característico na música que imortalizou MAHMOUD AHMED.

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LILA DOWNS: voz para todas as ‘cantinas’

July 10, 2006

LILA DOWNS
La Cantina ‘Entre Copa Y Copa’
Narada / EMI (CD 2006)

É oficial. “La Cantina ‘Entre Copa Y Copa’ é, até ver, a obra-prima da mexicana de sangue indígena LILA DOWNS. Depois de ter gravado “La Sandunga” (onde interpreta huapangueras repletas de melancolia), “El Árbol de La Vida” (em que busca as suas raízes indígenas da etnia zapateca), “La Línea” (denunciando o flagelo social de todos aqueles que cruzam a fronteira com os Estados Unidos) e “Una Sangre” (a celebração da união das raças que lhe valeu a conquista de um grammy latino), LILA DOWNS ataca as rancheras de alma e coração. “La Cantina” recupera clássicos da poesia indígena dos anos 50. Canções que a sua mãe cantava em “cantinas” e que exigiram um esforço vocal sobre-humano a Lila. Com este disco, a cantora de Oaxaca reduz LHASA DE SELA de “La Lhorona” a uma menina de coro e rouba toda a graça (musical) decadente à ASTRID HADAD das mil e uma indumentárias. Além de toda a exuberância vocal de LILA, acrescente-se o acordeão bêbedo e esguio do recuperado (em muito boa hora) FLACO JIMENEZ, e os arranjos arrojados, como guitarras sujas, beats, sons de rádio de pilhas e temos um “molito” [rolo típico de Oaxaca] tradicional bem cozinhado, repleto de rancheras e corridos servidas como especialidade da “nouvelle cuisine”.

Ler entrevista com LILA DOWNS neste espaço

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LILA DOWNS: voz para todas as ‘cantinas’

July 10, 2006

LILA DOWNS
La Cantina ‘Entre Copa Y Copa’
Narada / EMI (CD 2006)

É oficial. “La Cantina ‘Entre Copa Y Copa’ é, até ver, a obra-prima da mexicana de sangue indígena LILA DOWNS. Depois de ter gravado “La Sandunga” (onde interpreta huapangueras repletas de melancolia), “El Árbol de La Vida” (em que busca as suas raízes indígenas da etnia zapateca), “La Línea” (denunciando o flagelo social de todos aqueles que cruzam a fronteira com os Estados Unidos) e “Una Sangre” (a celebração da união das raças que lhe valeu a conquista de um grammy latino), LILA DOWNS ataca as rancheras de alma e coração. “La Cantina” recupera clássicos da poesia indígena dos anos 50. Canções que a sua mãe cantava em “cantinas” e que exigiram um esforço vocal sobre-humano a Lila. Com este disco, a cantora de Oaxaca reduz LHASA DE SELA de “La Lhorona” a uma menina de coro e rouba toda a graça (musical) decadente à ASTRID HADAD das mil e uma indumentárias. Além de toda a exuberância vocal de LILA, acrescente-se o acordeão bêbedo e esguio do recuperado (em muito boa hora) FLACO JIMENEZ, e os arranjos arrojados, como guitarras sujas, beats, sons de rádio de pilhas e temos um “molito” [rolo típico de Oaxaca] tradicional bem cozinhado, repleto de rancheras e corridos servidas como especialidade da “nouvelle cuisine”.

Ler entrevista com LILA DOWNS neste espaço

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6 de Dezembro: O Dia da Independ

December 6, 2004

Foi a 6 de Dezembro de 1917 que os Finlandeses conquistaram a independ

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As Dan�as Ocultas no Pulo do Lobo

November 12, 2004

pulsar.gifDesde o in�cio se percebeu que, ao recuperarem a concertina, as Dan�as Ocultas iriam dignificar o instrumento. Dar-lhe o valor que merece. � de homem. Fazer apenas e s� m�sica a partir deste instrumento e explorar, consequentemente todas as suas caracter�sticas, como se fosse um construtor que sabe qual o tipo de pele e de madeira a utilizar. Exercitar o som do ar do fole como se fosse percutido. Integrar uma concertina-baixo constru�da para o efeito. Vaguear por um repert�rio universal, que tanto tem de tradicional como de cl�ssico ou pop. Que tanto soa a Portugal, como a Norte da Europa, Norte de �frica ou Am�rica Latina.

Ao elegerem o italiano Riccardo Tesi como uma das suas influ�ncias � que boa mem�ria tenho de um espect�culo deste italiano com o franc�s Patrick Vaillant no Ra�zes do Atl�ntico e do consequente bel�ssimo texto de Fernando Magalh�es � as Dan�as Ocultas, mais do que tentar reinventar qualquer legado tradicional, assumem-se como alquimistas na arte do improviso. � semelhan�a dos polacos Kroke e de outros colectivos n�rdicos (Accordion Tribe oblig�), s�o mestres na arte de jogar com a imprevisibilidade, com o espa�o e com o meio ambiente. Com a suavidade e a for�a, com o sil�ncio e a cacofonia (se bem que quase nunca cheguem a este extremo), a tristeza e a alegria, o ser introspectivo e o ser expansivo. Todas as semelhan�as e os contrastes do universo numa ambival�ncia perfeita extra�da dos foles.

�Pulsar� � muito mais do que �Ar� (o seu anterior registo). � pular o Pulo do Lobo, com todos os riscos inerentes. � saber dar um salto seguro para a frente, sabendo o ch�o em que se vai pisar. �, de facto, um regresso extremamente feliz este das Dan�as Ocultas. De longe, o melhor �lbum do quarteto de concertinas de �gueda. Espero que desta vez n�o os comparem aos Madredeus. Quem o voltar a fazer, nunca conseguir� perceber que as Dan�as Ocultas fizeram mesmo um grande e distinto disco. E que � o �nico projecto da folk lusitana, al�m int�rpretes de fado, com a consist�ncia necess�ria para poder varrer a maior parte dos festivais de folk e de jazz da Europa e restante mundo ocidental.

[continua]

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As Dan?as Ocultas no Pulo do Lobo

November 12, 2004

pulsar.gifDesde o in?cio se percebeu que, ao recuperarem a concertina, as Dan?as Ocultas iriam dignificar o instrumento. Dar-lhe o valor que merece. ? de homem. Fazer apenas e s? m?sica a partir deste instrumento e explorar, consequentemente todas as suas caracter?sticas, como se fosse um construtor que sabe qual o tipo de pele e de madeira a utilizar. Exercitar o som do ar do fole como se fosse percutido. Integrar uma concertina-baixo constru?da para o efeito. Vaguear por um repert?rio universal, que tanto tem de tradicional como de cl?ssico ou pop. Que tanto soa a Portugal, como a Norte da Europa, Norte de ?frica ou Am?rica Latina.

Ao elegerem o italiano Riccardo Tesi como uma das suas influ?ncias ? que boa mem?ria tenho de um espect?culo deste italiano com o franc?s Patrick Vaillant no Ra?zes do Atl?ntico e do consequente bel?ssimo texto de Fernando Magalh?es ? as Dan?as Ocultas, mais do que tentar reinventar qualquer legado tradicional, assumem-se como alquimistas na arte do improviso. ? semelhan?a dos polacos Kroke e de outros colectivos n?rdicos (Accordion Tribe oblig?), s?o mestres na arte de jogar com a imprevisibilidade, com o espa?o e com o meio ambiente. Com a suavidade e a for?a, com o sil?ncio e a cacofonia (se bem que quase nunca cheguem a este extremo), a tristeza e a alegria, o ser introspectivo e o ser expansivo. Todas as semelhan?as e os contrastes do universo numa ambival?ncia perfeita extra?da dos foles.

?Pulsar? ? muito mais do que ?Ar? (o seu anterior registo). ? pular o Pulo do Lobo, com todos os riscos inerentes. ? saber dar um salto seguro para a frente, sabendo o ch?o em que se vai pisar. ?, de facto, um regresso extremamente feliz este das Dan?as Ocultas. De longe, o melhor ?lbum do quarteto de concertinas de ?gueda. Espero que desta vez n?o os comparem aos Madredeus. Quem o voltar a fazer, nunca conseguir? perceber que as Dan?as Ocultas fizeram mesmo um grande e distinto disco. E que ? o ?nico projecto da folk lusitana, al?m int?rpretes de fado, com a consist?ncia necess?ria para poder varrer a maior parte dos festivais de folk e de jazz da Europa e restante mundo ocidental.

[continua]

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Ciganos el�ctricos e (pouco) selvagens

November 18, 2003

V�rios
Electric Gypsyland
Crammed / Megam�sica

O que o cinema faz. Desde “Underground”, a m�sica cigana de leste extravasou o restrito circuito de festivais folk, da imprensa escrita e de programas de r�dio especialmente vocacionados para a divulga��o de m�sicas do mundo. O esp�rito tresloucado, o apelo irresist�vel � dan�a das brass bands e das taraf ciganas que nos chegam do leste, conquistaram a ‘club culture’ alem� e o cora��o de alguns produtores de m�sica electr�nica. “Electric Gypsyland” �, pois, um exerc�cio de distintos estilos edificado a v�rias m�os. Alterna o mau (Bucovina Club – excessivamente techno; Bigga Bush – dub inconsequente; Mercan Dede – apenas um m�sero didgeridoo), com o razo�vel (Arto Lindsay e Se�or Coconut – algo frios e maquinais) e o bom (j� a seguir). Parte de uma mat�ria prima (extremamente) limitada, que se restringe aos grupos do selo Crammed: Taraf de Haidouks, Ko�ani Orkestar e a recente aquisi��o, Mahala Rai Banda. O que faz com que haja alguma repeti��o na revis�o do repert�rio. “Siki Siki Baba” da Ko�ani � revisto por tr�s vezes (Se�or Coconut>, Ga�tano Fabri e Mercan Dede), “L’orient Est Rouge” ainda da brass band maced�nia por duas vezes (Lightning Head e Bigga Bush).
O c�u limpo e solarengo que se abate algures entre a Rom�nia e a Maced�nia, �-nos oferecido pela sequ�ncia Dj Dolores Vs Taraf Shantel Vs Mahala e Juryman Vs Taraf (de novo), al�m de Modern Quartet Vs Ko�ani. Quatro propostas onde a ‘hora’ romena que � “Dumbala Dumba”, dilui-se em ritmos de drum’n’samba; onde “Lest Sexy” exala a faceta sensual e extremamente dan��vel da m�sica cigana dos balc�s, amplificada pela quase aus�ncia criativa de Shantel, que se limita a dar mais intensidade ao ritmo; onde o esp�rito de bom selvagem, hipn�tico, de quem conta uma hist�ria de subleva��o camponesa, enquanto dedilha as cordas de um violino, � totalmente transfigurado pelo electro jazz de Juryman, muito marcado por uma bateria intensa e deambulante; e onde um clarinetista b�lgaro, com uns dedinhos m�gicos � Ivo Papasov, encontra um tapete vermelho de electr�nica refinada a seus p�s. Mais e melhor seria at� seria poss�vel. Era necess�rio que se respirasse com maior intensidade o esp�rito de bom selvagem e se reproduzissem os sons que marcam o pulsar do dia-a-dia no seio de uma comunidade cigana: os acordes de acorde�o ao fundo da sala, os c�es a latir, os preg�es das vendedoras, etc. (6/10).

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Ciganos el?ctricos e (pouco) selvagens

November 18, 2003

V?rios
Electric Gypsyland
Crammed / Megam?sica

O que o cinema faz. Desde “Underground”, a m?sica cigana de leste extravasou o restrito circuito de festivais folk, da imprensa escrita e de programas de r?dio especialmente vocacionados para a divulga??o de m?sicas do mundo. O esp?rito tresloucado, o apelo irresist?vel ? dan?a das brass bands e das taraf ciganas que nos chegam do leste, conquistaram a ‘club culture’ alem? e o cora??o de alguns produtores de m?sica electr?nica. “Electric Gypsyland” ?, pois, um exerc?cio de distintos estilos edificado a v?rias m?os. Alterna o mau (Bucovina Club – excessivamente techno; Bigga Bush – dub inconsequente; Mercan Dede – apenas um m?sero didgeridoo), com o razo?vel (Arto Lindsay e Se?or Coconut – algo frios e maquinais) e o bom (j? a seguir). Parte de uma mat?ria prima (extremamente) limitada, que se restringe aos grupos do selo Crammed: Taraf de Haidouks, Ko?ani Orkestar e a recente aquisi??o, Mahala Rai Banda. O que faz com que haja alguma repeti??o na revis?o do repert?rio. “Siki Siki Baba” da Ko?ani ? revisto por tr?s vezes (Se?or Coconut>, Ga?tano Fabri e Mercan Dede), “L’orient Est Rouge” ainda da brass band maced?nia por duas vezes (Lightning Head e Bigga Bush).
O c?u limpo e solarengo que se abate algures entre a Rom?nia e a Maced?nia, ?-nos oferecido pela sequ?ncia Dj Dolores Vs Taraf Shantel Vs Mahala e Juryman Vs Taraf (de novo), al?m de Modern Quartet Vs Ko?ani. Quatro propostas onde a ‘hora’ romena que ? “Dumbala Dumba”, dilui-se em ritmos de drum’n’samba; onde “Lest Sexy” exala a faceta sensual e extremamente dan??vel da m?sica cigana dos balc?s, amplificada pela quase aus?ncia criativa de Shantel, que se limita a dar mais intensidade ao ritmo; onde o esp?rito de bom selvagem, hipn?tico, de quem conta uma hist?ria de subleva??o camponesa, enquanto dedilha as cordas de um violino, ? totalmente transfigurado pelo electro jazz de Juryman, muito marcado por uma bateria intensa e deambulante; e onde um clarinetista b?lgaro, com uns dedinhos m?gicos ? Ivo Papasov, encontra um tapete vermelho de electr?nica refinada a seus p?s. Mais e melhor seria at? seria poss?vel. Era necess?rio que se respirasse com maior intensidade o esp?rito de bom selvagem e se reproduzissem os sons que marcam o pulsar do dia-a-dia no seio de uma comunidade cigana: os acordes de acorde?o ao fundo da sala, os c?es a latir, os preg?es das vendedoras, etc. (6/10).

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EARTH-WHEEL-SKY-BAND: A cavalo, sem freios, da S�rvia ao Rajast�o.

October 28, 2003

Earth Wheel Sky Band
Waltz Rromano
Asphalt Tango

O in�cio n�o engana. Estes S�rvios querem conduzir-nos de volta ao ber�o da civiliza��o cigana. Poderia tratar-se de uma viagem atrav�s do Expresso do Oriente com paragem no Rajast�o, mas esta � uma aventura selvagem, feita a cavalo, sem freios. Se, praticamente, pouco se deu por eles no anterior �lbum “Rroma Art” (edi��o Sabotage), “Waltz Rromano” soa aos nossos ouvidos como o detonar de uma bomba de neutr�es. Exagerado? Este �, provavelmente, o �lbum mais interessante de 2003 (e um dos melhores de sempre) feito por m�sicos de etnia cigana. Olah Vince, raposa velha que tocou recentemente na orquestra LaDaABa de Boris Kovac, imp�e o estilo feio-porco-mau-dur�o-e-mafioso, quer na sua voz de “vibratto”, quer no toque epil�ptico de guitarra e de violino. Um �lbum feito de virtuosismo, de explos�es, de sonoridades vetustas (sobretudo o de cymbalom) e de uma capacidade e uma versatilidade �mpar que os ciganos t�m de ir a todas. N�o falta o nervo do rock sem recurso a instrumentos el�ctricos (“Choro Rrom”), as varia��es de acordes de guitarra sobre “Misirlou Twist” de Dick Dale, para o trompete de Boban Markovic brilhar (“Vranje-Rromans), ou o mergulho no ber�o da civiliza��o Rromani num interessante di�logo entre c�tara indiana, violino e cymbalom. Essencial. Ao n�vel da Taraf de Ha�douks. (9/10)

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October 28, 2003

Earth Wheel Sky Band
Waltz Rromano
Asphalt