WOMEX 2007: O nosso “samurai” em Berlim
October 3, 2007

Rui Mota, um dos seis “samurais” responsáveis pela escolha das quatro dezenas de projectos seleccionados para os “showcases” da WOMEX 2007, descreve como viveu esses dias intensos e como foi difícil ao júri ir eliminando outros canditados tão bons quanto os que se irão apresentar ao vivo em Sevilha entre os dias 24 e 28 de Outubro.
SEM RESSACAS DE BERLIM
No dia que voei para Berlim, levantei-me às cinco da madrugada.
Tinha prometido a mim mesmo não ouvir música nos dias anteriores, para que a minha cabeça e ouvidos estivessem “limpos” antes da maratona germânica.
O taxista que me conduziu ao aeroporto tinha, certamente, outra ideia em mente e não se envergonhou de partilhá-la comigo. A partir do momento em que entrei no táxi, sabia que teria de ouvir um sonante “funaná” de Cabo-Verde. A voz era de Tito Paris. Conheço Tito dos clubes da noite lisboeta e gosto de música cabo-verdiana. O condutor notou o meu interesse e, da conversa que se seguiu, outro CD apareceu: desta vez Nancy Vieira, interpretando uma “morna”. A “corrida” para o aeroporto levou menos de vinte minutos, mas nesse curto espaço de tempo tive de escutar 5 ou 6 cantores cabo-verdianos diferentes. O taxista ficou satisfeito por ter um cliente com quem pudesse falar sobre música do seu pais natal e eu fiquei contente por poder dividir com ele este gosto universal por sons únicos. Já no avião, enquanto anotava os nomes das canções que tinha acabado de ouvir, prometia a mim mesmo comprar alguns deles quando regressasse a Lisboa. Todos eram bons e, em tão pouco tempo, eu não conseguia decidir qual deles era melhor. Sem o saber, o condutor de Cabo-Verde tinha antecipado os dilemas que eu encontraria naquele fim-de-semana em Berlim.
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WOMEX 2007: Portugal volta a conquistar o mundo
October 3, 2007

A WOMEX, principal feira de músicas tradicionais (e tudo à volta), tem sido ao longo de cerca de década e meia de existência, “a” montra de projectos emergentes dos quatro cantos do mundo que aí se dão a conhecer à imprensa e, sobretudo, aos programadores dos principais festivais do planeta. Uma boa prestação num “showcase” de meia-hora poderá representar a aquisição de uma “carta verde” para actuações regulares na Europa e na América do Norte e a possibilidade de um disco desse projecto ser distribuído a nível mundial. Apesar de haver inúmeros artistas que não necessitam de actuar neste certame para entrarem no “circuito”, o certo é que os seus agentes e editores não dispensam os três ou quatro dias de contactos ao mais alto nível que esta feira proporciona.
Se olharmos para o panorama da música feita por cá, verificamos que muito poucos músicos nascidos (ou a residirem) no nosso país pisaram os vários palcos disponíveis para “show cases”. Mas, aqueles que tiveram o talento de o fazer (e a qualidade necessária para convencer os “sete samurais” a integrar determinada “colheita”), como SARA TAVARES ou MARIZA, não esquecerão tão cedo que a WOMEX serviu de “rastilho” para uma carreira internacional que “explodiu” pouco tempo depois. ANA SOFIA VARELA só não aproveitou o mesmo “embalo” porque teve de interromper a sua carreira musical para cuidar do seu rebento. leia mais>>>
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Só Neste País #2: os guineenses I
August 26, 2007
KIMI DJABATÉ no AMAC (Barreiro) | (c) Luís Rei
Os músicos africanos residentes em Portugal nunca tiveram vida fácil. Sempre houve um certo preconceito que ainda hoje leva muitas das Câmaras Municipais a declinar propostas de artistas negros que falam a nossa língua. Para muitos, a grande Lisboa é apenas um local onde a sua família reside e um local de descanso de meia-dúzia de dias entre datas de uma intensa digressão pela Europa e pelos Estados Unidos. Mas, se os cabo-verdianos, felizmente, vão-se mexendo e bem, o mesmo não podemos dizer dos artistas guineenses que vivem “guetizados”. Salvo a honrosa excepção de MANECAS COSTA (e, de forma menos intensa de ENEIDA MARTA), artistas como KIMI DJABATÉ, MAIO COOPE, IBRAHIMA GALISSÁ mereciam muito mais do que um concerto aqui e ali na Galeria Zé dos Bois, no AMAC do Barreiro, no bar do CCB ou na loja da Trem Azul.
KIMI DJABATÉ que actuou este fim-de-semana no Bairro Alto, perante uma plateia de 30 ou 40 almas, deveria, há muito, estar a frequentar com regularidade palcos internacionais. Depois de ter lançado há ano e meio um álbum – “Teriké” que funde a essência da música do império mandinga com pop e jazz “swingante” (arranjada pelo trompetista alemão JOHANNES KRIEGER da TORA TORA BIG BAND), KIMI DJABATÉ aposta agora num repertório mais clássico, mais africano, menos dado a fusões. Em balafon, guitarra acústica ou eléctrica, num registo mais contemplativo, ou em clima de grande festividade, KIMI DJABATÉ, além de um nobre compositor de canções, é um intérprete de sangue quente que empolga e põe a dançar com relativa facilidade toda uma plateia. E se os programadores culturais ainda “resistem” a integrar músicos de pele negra na agenda regular das suas salas municipais, é deveras estranho que um músico com esta categoria não tenha feito mais do que um Raízes do Atlântico do Funchal há dois anos. É estranho e incompreensível num contexto em que a música griot do Mali tem tido cada vez mais espaço no roteiro dos principais festivais “world” nacionais. Repete-se a história dos clubes nacionais de futebol recheados de jogadores estrangeiros de duvidosa qualidade que impedem a progressão de jovens promessas lusas. Somos hábeis a preferir o que vem de fora. A ignorar o que temos em casa. Muitas vezes de qualidade semelhante e com a vantagem de não se pagarem exorbitâncias em viagens.
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[Só Nesta Terra #1]
January 17, 2007
Inauguro aqui um novo espaço regular que pretende ser de reflexão, impressões e pistas informais, ao sabor de vários estados de espírito, elaborado num tom mais pessoal e transversal às várias áreas musicais.
1. Portugueses em Espanha
Ainda sou do tempo em que nos regozijávamos sempre que um artista luso passava além-Badajoz. Com toda a exposição mediática de MARIZA em todo o mundo e o com fado sempre pronto a pronto a ser consumido na Europa (no Benelux em Especial), na América e na Ásia (sobretudo Japão), tornaram-se comuns as notícias de todo o tipo de fadistas que actuam nos mais recônditos lugares do planeta. Mas não deixa de ser curioso que uma produtora de Espectáculos em Espanha – a Syntorama - trabalhe sobretudo com músicos portugueses. E que seja ela, muitas vezes, a dar notícias em primeira mão dos nossos artistas (veja-se o caso MADREDEUS e o seu ano sabático). Na sua agenda de concertos a realizar até Junho deste ano constam oito datas de DULCE PONTES, cinco de CRISTINA BRANCO, quatro de MARIZA, três de RODRIGO LEÃO, duas de KÁTIA GUERREIRO, duas de TERESA SALGUEIRO e mais duas de LURA. Mais. Ainda falta a digressão que A NAIFA prometeu (aos microfones da Terra Pura, em Novembro de 2006) efectuar durante o ano de 2007. É obra.
2. DULCE PONTES castelhana
Não é novidade para ninguém que DULCE PONTES nunca foi muito bem compreendida no nosso país. Nas entrevistas que tem dado por cá, na forma como actua (no puxar de forma excessiva pela voz) e como escreve (aquela dos “Palhaços Encapuçados”, enfim… não havia necessidade), nunca escondeu um certo mal-estar com muitos portugueses (sobretudo com aqueles que escrevem nos jornais). É curioso que, além da artista ter muito – mas muito – mais receptividade em Espanha, seja também em castelhano que se encontra o espaço cibernético com a informação mais actualizada da autora de “O Coração Tem Três Portas”.
3. A política cultural do Norte
Quando alguém anuncia a vinda de um artista estrangeiro à capital, é de imediato lançada a incontornável questão, no Fórum Sons : “E a norte?”. Dado a programação para os próximos meses da Casa da Música, do Theatro Circo de Braga, da Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão, do Centro Cultural Vila Flor, é caso para perguntar: “E MAYRA ANDRADE, BALCAN BEAT BOX, SUSHEELA RAMAN, MUSICIANS OF THE NILE e TUXEDOMOON na capital?”. Maldita descentralização.
4. Ainda há paciência para os manos Aston?
Por estes dias, aqueles que conjuntamente com FIELDS OF THE NEPHILIM, SISTERS OF MERCY, SISTERHOOD, THE MISSION et al, fizeram parte de parte da minha adolescência passada na Jukebox do Bairro Alto, actuam na Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão. Perdi as contas às vezes que uma produtora de espectáculos da Margem Sul – a Intermusic – trouxe os GENE LOVES JEZEBEL ao nosso país. Pergunto-me: ainda há gente que não ficou cansada de os ver?
5. Aventura nórdica de RÃO KYAO
Do oriente ao mediterrâneo até território nórdico. RÃO KYAO não tem parado. É pena que o projecto que recentemente criou com o virtuoso acordeonista italiano RICCARDO TESI tenha passado completamente despercebido aos mais atentos a estas músicas. Esperemos que a nova aventura com o norueguês KARL SEGLEM (outrora membro dos UTLA e que é um dos mais interessantes músicos nórdicos que têm miscigenado a tradição dos fiordes com rock progressivo, jazz e música improvisada) se faça notar. Ambos deverão actuar em Portugal lá para Junho ou Julho. Aguardemos (ansiosamente).
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