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Rokia Traoré: À procura do som perfeito II

July 2, 2008 by Luís Rei  
Filed under Entrevistas

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Segunda parte da conversa com a maliana Rokia Traoré que este ano regressa ao FMM de Sines para apresentar o seu mais recente disco, “Tchamanthcé” dedicado à memória de Ali Farka Touré.

- Parece-me que o engenheiro de som Phill Brown desempenhou um papel muito importante neste disco. Houve a transição do som acústico para o eléctrico, sem perder as raízes bambara, houve também a inclusão de um tratamento sonoro mais ambiental em vários temas, houve ainda a participação do grande percussionista norte-americano Steve Shehan, habituado desde há muito tempo a fundir sonoridades ocidentais e ambientais com a música árabe de Baly Othmani, entre outros músicos do médio-oriente..

O Steve Shehan participou no final das gravações. Não esteve connosco de início, mas o facto de ele ter experiência e o conhecimento de música que tem, de já ter participado em muitos projectos, faz com que não tenhamos perdido muito tempo. Teve uma grande sensibilidade e percebia muito rapidamente aquilo que queríamos. A maior dificuldade neste trabalho que tive com o produtor Calum McCall foi mesmo o de encontrarmos o engenheiro de som perfeito, que estivesse interessado em gravar este disco e os dois músicos que nos faltavam (um baterista e um outro guitarrista). Tomei conhecimento do Phill Brown ao ouvir o álbum da Beth Gibbons. Fiquei fascinada com o som desse disco. Era esse mesmo tipo de som que queria para este projecto. Conhecia bem o baixista, o tocador de n’goni que vieram do projecto anterior. Conhecia também o guitarrista maliano [Sibiri Koné] e já sabia o que esperar dele. Ele não anda comigo em digressão, mas sabia que se enquadrava no projecto. Outra pessoa muito difícil de encontrar foi também o baterista [Vincent Taeger]. Fizemos várias audições antes de escolhermos a pessoa certa. A última pessoa que seleccionámos para a gravação do disco foi o guitarrista Seb Martel. O Calum foi determinante na escolha deste músico, já que tem um grande conhecimento de guitarras e do som destas. Sentimos que tínhamos que chegar ao som que queríamos durante a gravação destas guitarras e não após a mistura final. Foi importante escolhermos todo o tipo de material adequado: instrumentos, amplificadores, microfones.

- Essa escolha de material foi mesmo determinante no tipo de som que queria obter neste disco?

Claro, mas não foi só isso. Há todo o tipo de material e também a forma de tocar. Foi também importante optarmos por uma gravação analógica. Não queríamos usar Protools ou outro processo de captação digital. Tudo foi captado de forma analógica, em bobines. Foi um processo muito complicado. Tudo foi numerado para facilitar a mistura final. Volto a referir que o trabalho do Calum McColl foi muito importante na escolha das guitarras e dos amplificadores certos. A produção deste disco foi mesmo uma tarefa árdua.

-Ainda não falámos sobre as letras. Em África os músicos são o principal meio de comunicação de difusão de notícias. Neste e noutros discos dá conselhos às mulheres africanas, à sociedade maliana, por exemplo, para não emigrarem em massa e «sem rede».

Penso que já não somos o principal meio de comunicação. Fomos ultrapassados pelo telemóvel. É incrível o trabalho que a Orange está a fazer em África e no Mali. Mas tudo isso é óptimo. Se os telemóveis estão a ter todo este sucesso é porque as pessoas sentiam necessidade de os usar. Antes, o seu uso era considerado um luxo, hoje é uma coisa normal. Ao mesmo tempo, os artistas continuam a fazer parte de diferentes meios de comunicação. Na música consegue encontrar letras de todo o tipo, de amor e outros aspectos da vida. Neste mundo, o que é concreto é que através de uma letra passamos uma mensagem. E a audiência está aberta a essa mensagem. É por isso que penso que, quando o nosso trabalho é este, quando temos uma audiência, é importante ter uma mensagem a difundir e tirar vantagens deste sistema para chegarmos às pessoas. Em “Tounka” não digo para não imigrarem porque não é uma boa coisa. Hoje em dia, não é um muito bom para África as pessoas saírem em massa. Se quisermos que África seja um melhor sítio, temos de ser nós a fazer o trabalho. Ninguém virá de fora para nos ajudar. Sabemos que quem vem de fora apenas vem para tirar aquilo que precisa para o seu país. De momento a questão é: Que continente é este? África? Como será possível ter melhor qualidade de vida neste continente? Sei do que estou a falar porque ainda do ontem cheguei do Mali. Reparto a minha residência entre a França e o Mali. Sei o que custa para muitos africanos viver o dia-a-dia. Mas, se deixar o país é a única solução, já o fazemos desde o fim do colonialismo e, por isso, deveríamos estar melhor do que estamos actualmente. Temos de encontrar juntos uma solução melhor. Mesmo que os líderes europeus digam que África é um problema, que não consegue desenvolver-se e que está condenada ao fracasso. Essa tese é confortável para eles. O equilíbrio económico e social deles depende desta tese. Nada é a preto e branco em termos económicos e políticos. Tudo é complicado. Os líderes africanos têm a sua parte de responsabilidade nesta tese. Mas o que é certo é que este problema é humano e há muita gente a sofrer por causa disso. Não é possível aceitarmos este estado de coisas nos dias de hoje.

[parte 2 de 3; continua amanhã]

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JUSTIN ADAMS E JULDEH CAMARA: continua a pesca grossa na baia de Sines

February 28, 2008 by Luís Rei  
Filed under Actual, Concertos

justinadamsjuldehcamara.jpgAí está mais uma das dez noites de Sines (à semelhança da de 24 de Julho com BEIRUT e ORCHESTRA BAOBAB) que está a ganhar contornos de uma certa grandiosidade. A 23 de Julho, no dia dos congoleses KASAÏ ALLSTARS, a Xª edição do FMM de Sines recebe JUSTIN ADAMS e JULDEH CAMARA. Dupla que é capa na última edição da revista britânica da especialidade, a fROOTS. Tais nomes podem não dizer muito ao regular leitor das Crónicas, mas J&J são só os responsáveis por um dos dez melhores discos editados o ano passado: “Soul Science”. Obra que nos oferece mais uma dose hipnótica, abrasiva e encorpada de afro-blues e que poderá ficar muito bem encaixada na nossa prateleira de discos, algures entre os trabalhos dos malianos TINARIWEN e ALI FARKA TOURÉ e dos franceses LO’JO.
JUSTIN ADAMS, veterano guitarrista que ao longo da sua carreira musical já trabalhou com BRIAN ENO e JAH WOBBLE, além de ter produzido o primeiro e o terceiro disco dos TINARIWEN, é também um pouco responsável pela aproximação de ROBERT PLANT ao rock do deserto do Sara. Faz parte do line-up da STRANGE SENSATIONS BAND e em co-escreveu, com o ex- LED ZEPPELIN, o álbum “Mighty ReArranger” (2005).

JULDEH CAMARA é um griot oriundo da Gâmbia que, além de possuir voz de trovão, fortíssima para interpretar blues africanos, tem também algo de feiticeiro ancestral habituado a comunicar com espíritos. Canta e toca ritti, um violino rudimentar de uma corda semelhante à njarka, que ALI FARKA TOURÉ manuseava e respeitava (por ser esse o instrumento que lhe permitia contactar com o mundo astral).

Em palco, JUSTIN e JULDEH terão a companhia do percussionista SALAH DAWSON MILLER. Músico batido que já actuou com gente tão distinta quanto esteticamente e geograficamente distante, como PHILLIP GLASS e os lendários e saudosos 3 MUSTAPHAS 3.

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TOUMANI DIABATÉ edita hoje «Mandé Variations» e regressa a Portugal em Maio

February 25, 2008 by Luís Rei  
Filed under Actual, Notícias

mandevariations2.jpgTOUMANI DIABATÉ, virtuoso tocador de kora de 21 cordas, dita hoje em Inglaterra o seu mais recente disco “Mande Variations”. A obra gravada no hotel de Bamaco durante as Mande Sessions em que foram também registados os álbuns “Savane” de ALI FARKA TOURÉ, “In The Heart of The Moon” de TOUMANI DIABATÉ e ALI FARKA TOURÉ e “Boulevard de L’Independance”, ainda de TOUMANI DIABATÉ com a sua SYMMETRIC ORCHESTA, é uma espécie de segunda parte do álbum “Kaira”, que o griot maliano editou há 19 anos atrás. “Mande Variations” é, por isso, o segundo disco gravado a solo (só de kora) de um músico que nos habitou a múltiplas fusões da música mandinga com o resto do mundo (DANNY THOMPSON, KETAMA, TAJ HAHAL, ROSWELL RUDD, etc). A mais recente edição da World Circuit de NICK GOLD, será distribuida no nosso país pela Megamúsica, a partir da primeira semana de Março.

TOUMANI DIABATÉ actuará novamente em Portugal, no próximo mês de Maio a 28 na Casa da Música do Porto, 30 na Culturgest de Lisboa e a 31 no TAGV de Coimbra, sem a SYMMETRIC ORCHESTRA, para tocar o repertório de “Mande Variations” que homenageia ilustres músicos através de dois temas em nome próprio, como o gigante o antigo presidente de Câmara de Niafunké (ALI FARKA TOURÉ) e um outro virtuoso tocador de kora, o senegalês KAOUDING CISSOKO (falecido há cerca de cinco anos atrás).

Os temas “Ali Farka Touré” e “Kaouding” Cissoko”, incluídos no alinhamento de “Mande Variations”, podem ser escutados na emissão de hoje da Terra Pura.

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ALI FARKA TOURÉ: “Savane” expande a produção deliciosamente rústica de “Niafunké”

August 10, 2006 by Luís Rei  
Filed under Discos

ALI FARKA TOURÉ
“Savane”
World Circuit / Megamúsica

Há algum tempo atrás, no norte do Mali, em pleno coração do Sahel, o agricultor ALI FARKA TOURÉ anunciou que abandonava as lides musicais para cumprir um desígnio maior. Conjugando provérbios e um enigmático sorriso aberto, tão desconcertante e peculiar como o seu estilo de dedilhar a guitarra, ALI explicou que a aridez da savana não dá tréguas: a terra deve que ser amanhada, os animais apascentados, a vasta família sustentada. Com os frutos da consagração internacional colhidos, incluindo um Grammy, e o reconhecimento nacional conquistado ambicionava regressar a sua casa e zelar pelos interesses da sua aldeia, Niafunké. Mas assim como o caudal do Níger não é travado pela secura sub-saariana nenhum voto seria suficientemente forte para conter a música que brota de ALI FARKA TOURÉ e, no ano passado, um novo disco em parceria com o amigo de longa data e génio da kora, TOUMANI DIABATÉ, foi brindado com novo Grammy e acompanhado pelo regresso aos palcos europeus no qual Lisboa foi agraciada numa noite de Verão memorável. Depois, um último silêncio que nem mesmo a teimosia pela qual recebeu o nome do meio venceria. Felizmente “Savane” estava em adiantada fase de conclusão.

Saído das mesmas sessões que originariam a parceria com DIABATÉ e o álbum deste último com a SYMMETRIC ORCHESTRA, “Savane” expande a produção deliciosamente rústica de “Niafunké”, que enformava as intrincadas malhas de guitarra com coros femininos, percussão e njarka (violino de uma só corda), recorrendo a um trio de tocadores de ngoni (um provável antepassado do banjo) mas também ao saxofone de PEE WEE ELLIS, colaborador de JAMES BROWN e VAN MORRISSON, e da harmónica de LITTLE GEORGE SUEREF. FAIN S. DUEÑAS, percussionista nos extintos RADIO TARIFA, fecha o rol de convidados. O resultado é uma derradeira colecção de blues assombrados pelos ventos do deserto redemoinhando histórias e personagens, cenas do quotidiano em Niafunké, visões sobre presente e o futuro do Mali e de África. E se a presença do ngoni e njarka plantam firmemente estas canções em território Songhai e Touareg, o que se pressente de imediato na entrada triunfal de “Ewly” e se confirma ao longo do disco e, em especial, nos magníficos “Banga”, “Machengoidi” e “Hommage a Annasi Coulibaly”, a verdade é que o saxofone e a harmónica pouco ou nada acrescentam à música primitiva de ALI. Mas também não a adulteram, fundindo-se discretamente na mistura final em “Beto” e “Njarou” ou estreitando ainda mais a afinidade com os blues norte-americanos na faixa de abertura e em “Ledi Coumbe” ou “Penda Yoro”. Foi sugerido que, desta forma, mais do que acusar influências externas ou procurar alargar a sua audiência no Ocidente, ALI estaria a reclamar o regresso da diáspora africana ao continente-mãe. “Savane” resolveria assim o permanente mistério sobre a génese da música de ALI FARKA TOURÉ. Estou certo que, pressentindo a nossa dúvida, ele responderia com um imenso, inescrutável sorriso: “C’est ça!”.

Cláudio Pedrosa

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