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outros destaques no FMM de Sines

July 21, 2006


Boris Kovac & La Campanella

Boris Kovac & La Campanella

O mundo desmorona-se. O sérvio Boris Kovac oferece-nos um “cabaret” pós-apocalítica para fazer dançar quem sobreviveu ao fim do mundo, carregada de nostalgia, humor negro e elegância. De coordenadas bem definidas no grande caldeirão balcânico da extrema pobreza cigana, mas a piscar à sumptuosidade mediterrânica e latina-americana: do cha cha cha ao tango de requintada ostentação. A música ideal para fechar em beleza um festival. Deveriam voltar a tocar nas esplanadas de Sines ao meio-dia de 30 de Julho.

Eliseo Parra

Não é preciso vir acompanhado com o projecto de percussão criativa Tactequete (como aconteceu em 2005 em Sendim) para esperarmos um enormíssimo concerto de Eliseo Parra. Natural de Valladolid, este músico veterano (há mais de 30 anos que edita discos) e dos maiores etnomusicólogos espanhóis (investigador das “tribos hispânicas”, não apenas da região de Leão-Castela). Enche-nos as medidas no palco e na criatividade que impõe nos seus discos. Dá uma lição de modernidade aos mais puristas e outra de rigor aos mais novos. Basta apenas escutar o balanço hip hop de “Galandum” do último disco “De Ayer Mañana”.

Toumani Diabaté & Symmetric Orchestra

Ali Farka Touré chamou-lhe o Deus da kora (harpa africana de 21 cordas). Foi há um ano atrás, em Lisboa, num dos concertos que dificilmente nos esqueceremos. Toumani Diabaté, além ser um dos mais virtuosos músicos do mais delicado instrumento construído em África é, sem dúvida, aquele que mais tem promovido o contacto entre a música da etnia Mandinga e de outras culturas. Depois de experiências tão díspares com o flamenco e o jazz de Ketama, os blues americanos de Taj Mahal, ou da aproximação aos “blues” da etnia Sonrai de Ali, Toumani reconstrói o império musical da etnia Mandinga que a colonização destruiu, através de uma orquestra com dezena e meia de griots de várias gerações e proveniências (Mali, Burquina Faso, Guiné Conacri, etc) e que resgata o espírito da big bands de animação de clubes africanos.

Värttinä

Os anos (23) passam. O factor surpresa e poder de fogo já não é o mesmo. Com mais ou menos pose à Eurovisão, as três vozes femininas, tão ferozes quanto harmoniosas continuam a transportar o poder divino e encantatório das canções milenares rúnicas, algumas delas inscritas na obra épica do Kalevala.
O fantástico continua a acompanhá-los: Escreveram recentemente a banda sonora para a peça de teatro “The Lord of The Rings”. Mas os pés encontram-se bem assentes no chão. No mundo real, Värttinä continua a ser um dos projectos internacionalmente mais bem sucedidos de uma Finlândia de múltiplas novas propostas anuais na área da folk.

Alamaailman Vasatat

“World music” ficcional, cinematográfica. “Ethic brass punk”. “Kosher-kebab jazz”. Os rótulos são muitos. Da Finlândia, os Alamaailman Vasarat que vieram do rock progressivo usam o órgão e o violoncelo (à semelhança dos Apocalíptica) e metais em chamas para tocarem valsas, polkas e os diversos temas de inspiração klezmer e da tradição dos Balcãs, com uma atitude de uma banda de metal. Uma banda que deveria ter ido ao act 1 do Super Bock, Super Rock.


Nuru Kane

Tem as suas raízes Medina – Dakar e as antenas mais a norte, entre o deserto do Sahara e a costa mediterrânica de África. O mbalax é quase posto de parte. A sua paixão centra-se nos blues do Mali, à beira do Níger, e na música de transe gnawa das irmandades muçulmanas de descendentes de escravos, comummente conhecida em Marrocos, miscigenada outros ritmos contagiantes: reggae e afrobeat. Além da guitarra acústica, toca guimbiri, baixo rudimentar acústico de três cordas e instrumento central nesta música de poderes curativos.

Cordel do Fogo Encantado

Há o sertão e a ruralidade profunda do nordeste brasileiro. A poeira do terreiro. Os emboladores. Os repentistas. Os autores de cordéis. O dilúvio da selva amazónica e os bárbaros tambores dos índios e dos escravos africanos. Há a declamação de Lirinha à beira do precipício, tentando não ser arrastado por uma tromba de água tropical. Há deuses irados. Muitos orixas irados que dificultaram a escrita deste texto. Durante estas curtas linhas o quadro de electricidade foi abaixo três vezes. Cordel é fogo. Cordel do Fogo Encantado é brutal.

Mariem Hassan

Atenção a esta arrebatadora voz. A intensidade com que canta o amor e o sofrimento dos saharauis em guerra civil com Marrocos ou a viver em campos de refugiados argelinos, transporta consigo a calor tórrido das dunas do Sahara. Blues do norte de África dos mais sentidos e hipnóticos que fazem da Avenida da Praia em Sines uma extensão do Festival do Deserto de Essakane.

Trilok Gurtu

Percussionista indiano de excelência de tablas , já actuou com diversos monstros do jazz (como Jan Garbarek ou Don Cherry), já se deixou contaminar pela electrónica do “asian undeground” de Nitin Sahwney e já participou em múltiplas expedições sonoras que resgataram a música de África (salve família Frikyiwa), da China e do Brasil. Em Sines, Trilok Gurtu celebra a tradição indiana apresenta-se com dois mestres do canto virtuoso e de improvisação khylal: Rajan e Sajan Misra.

Trio Rabih Abou-Khalil & Joachim Kühn

O que é que nasceu primeiro? O jazz ou a música improvisada? A música clássica ocidental ou árabe? A viagem ao centro do ovo sem qualquer perigo de sermos atacados pelo vírus da gripe das aves. Diálogos criativos de alaúde, piano e percussão, por Rabih Abou-Khalil (Líbano), Joachin Kühn (Alemanha) e Jarrod Cagwin (EUA). Um luxo.

Tony Allen

É para Brian Eno o melhor baterista do mundo dos últimos 50 anos. Ajudou Fela Kuti a criar o afro-beat quando se encontrava na incendiária orquestra Africa 70, promovendo a abertura dos ritmos frenéticos de Lagos ao jazz e ao funk americano. Actualmente, o seu afro-beat mutante dialoga com as novas coordenadas da música de dança, como o dub e o hip hop.

Seun Kuti & Egypt 80

O espírito de Fela paira de novo no ar e o afro-beat volta a ser Rei em Sines. Depois de Femi é a vez de Seun Kuti encerrar as noites do Castelo, entre os estrondos do habitual ritual de fogo de artifício. O saxofonista que aos nove anos tocava com Fela, traz-nos a antiga banda do pai - a Egypt 80 e ainda convida para subir ao palco outro grande nome nigeriano do cartaz deste ano: Tony Allen.

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KIMMO POHONEN, KROKE, BORIS KOVAC: A Sant�ssima trindade da folk europeia

April 14, 2003

Kroke
Ten Pieces to Save the World
(Oriente / Megam�sica)

Kimmo Pohjonen
Kluster
(Rocadillo / Mundo da Can��o)

Boris Kovac & Ladaaba Orkest
Ballads at the End of Time
(Piranha / Megam�sica)

Kroke, Kimmo Pohjonen e Boris Kovac encontram-se no clube restrito dos compositores e int�rpretes da folk do velho continente que, ap�s terem estudado a fundo as suas tradi��es musicais (afinal, a matriz do seu trabalho), conseguem apresentar solu��es inovadoras, extravasando a geografia e as compartimenta��es estanques a que muitos g�neros estavam sujeitos pelos mais puristas, conferindo uma nova e empolgante dimens�o ao seu legado, sem necessidade de ceder aos clich�s das modas da miscigena��o de ocasi�o, impostas pelo mercado editorial e pelos produtores de espect�culos.

Os polacos Kroke de s�lida forma��o cl�ssica e jazz�stica, para quem a m�sica klezmer � um modo de vida, continuam a esbater todas as fronteiras da m�sica caracter�stica da di�spora judaica, aprofundando a ruptura com o modelo de base um pouco mais conservador (mas que, m�os dos Kroke � bastante criativo, basta escutar o �lbum ao vivo “Live at The Pit”) assente na tr�ade violino, contrabaixo e acorde�o. “Sounds Of The Vanishing World” (de 99) f�-los olhar para o Universo atrav�s de uma janela em Crac�via. Em “Ten Pieces To Save The World” os Kroke tornam-se cidad�os errantes do mundo, sem contudo perderem as suas maiores refer�ncias. O sangue klezmer a continua a correr-lhes nas veias. Em “Cave”, tema inicial, mant�m o mesmo tom fren�tico, a sublime t�cnica com que mudam frequentemente de ritmo e pe�a, incorporando agora instrumentos de sopro, guitarra e percuss�o (al�m daquela que Tomasz Kukurba improvisa com o seu contra-baixo), em flashes de flamenco e m�sica mediterr�nica de aroma turco que encaixam na perfei��o, como num puzzle, entre andamentos klezmer de euforia e tristeza. Em “Cave”, escutam-se pingos a cair por entre ambientes electr�nicos e soturnos de contempla��o aos Boards of Canada. “Montains” repleto de altos e baixos como as montanhas e a folk norueguesa, revela-nos o lado mais cl�ssico-contempor�neo por via das cordas. Um �lbum inovador, com solu��es simples onde uns assobios, um estalar de dedos, um dedilhar do contra-baixo e um acorde�o manso, chegam para construir uma pe�a carregada de swing (“Take It Easy”).

Embuido do esp�rito da Sibelius Academy e de um dos mais carism�ticos professores de m�sica finlandeses, Heikki Leitinen que aconselha primeiro a estudar a fundo a tradi��o e posteriormente a efectuar trabalho explorat�rio, a ir mais al�m, Kimmo Pohjonen cedo se revelou como um dos mais criativos, rebeldes e consistentes m�sicos da folk europeia. J� no seu anterior projecto, os Ottopasuuna, testava o experimentalismo (sobretudo em “Suokaasua”), incorporando ru�dos de correntes a serem arrastadas, decompondo melodias, sem perder a adocicada sonoridade da folk finlandesa. No seu projecto a solo, Pohjonen, transcende-se, projectando momentos de tens�o e ambientes sombrios kalevaliano-cibern�ticos. “Kluster” � a parte dois de “Kielo” onde a folk purista � literalmente implodida. Aqui Pohjonen usa o acorde�o como um instrumento de destrui��o maci�a, ocupando todo o nosso espectro sonoro, inquietando-nos, amorda�ando-nos a alma. As notas que tira do fole contaminado por overdubs e samples do pr�prio acorde�o usados como percuss�o, s�o como m�sseis que explodem nas nossas colunas, anunciando o apocalipse de forma t�o veemente quanto a israelita Meira Asher.

Boris Kovac apresenta a sequela de “Last Balkan Tango”, m�sica p�s-apocal�tica para fazer dan�ar quem sobreviveu ao fim do mundo, carregada de nostalgia, humor negro e eleg�ncia, de coordenadas bem definidas no grande caldeir�o balc�nico da extrema pobreza cigana, mas a piscar o olho �s vetustas e decandentes valsas, cha cha chas e tango de requintada ostenta��o, prato forte dos bailes nobres dos grandes sal�es imperiais da velha e rica Europa. H� na m�sica deste jugoslavo um certo toque minimal e cin�filo, tornando-o numa op��o pertinente para criar os ambientes sonoros dos maravilhosos universos imagin�rios de Peter Greenway, em alternativa a Michael Nyman. S�o deliciosas as passagens em que se escutam vozes de rua que parecem ser italianas e que se erguem dos escombros de uma guerra nuclear, ou quando o jazz swingante rasga a toda a tristeza melanc�lica que atravessa o �lbum e devolve-nos a alegria esfuziante de uma big band dos anos 40 / 50.

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KIMMO POHONEN, KROKE, BORIS KOVAC: A Sant?ssima trindade da folk europeia

April 14, 2003

Kroke
Ten Pieces to Save the World
(Oriente / Megam?sica)

Kimmo Pohjonen
Kluster
(Rocadillo / Mundo da Can??o)

Boris Kovac & Ladaaba Orkest
Ballads at the End of Time
(Piranha / Megam?sica)

Kroke, Kimmo Pohjonen e Boris Kovac encontram-se no clube restrito dos compositores e int?rpretes da folk do velho continente que, ap?s terem estudado a fundo as suas tradi??es musicais (afinal, a matriz do seu trabalho), conseguem apresentar solu??es inovadoras, extravasando a geografia e as compartimenta??es estanques a que muitos g?neros estavam sujeitos pelos mais puristas, conferindo uma nova e empolgante dimens?o ao seu legado, sem necessidade de ceder aos clich?s das modas da miscigena??o de ocasi?o, impostas pelo mercado editorial e pelos produtores de espect?culos.

Os polacos Kroke de s?lida forma??o cl?ssica e jazz?stica, para quem a m?sica klezmer ? um modo de vida, continuam a esbater todas as fronteiras da m?sica caracter?stica da di?spora judaica, aprofundando a ruptura com o modelo de base um pouco mais conservador (mas que, m?os dos Kroke ? bastante criativo, basta escutar o ?lbum ao vivo “Live at The Pit”) assente na tr?ade violino, contrabaixo e acorde?o. “Sounds Of The Vanishing World” (de 99) f?-los olhar para o Universo atrav?s de uma janela em Crac?via. Em “Ten Pieces To Save The World” os Kroke tornam-se cidad?os errantes do mundo, sem contudo perderem as suas maiores refer?ncias. O sangue klezmer a continua a correr-lhes nas veias. Em “Cave”, tema inicial, mant?m o mesmo tom fren?tico, a sublime t?cnica com que mudam frequentemente de ritmo e pe?a, incorporando agora instrumentos de sopro, guitarra e percuss?o (al?m daquela que Tomasz Kukurba improvisa com o seu contra-baixo), em flashes de flamenco e m?sica mediterr?nica de aroma turco que encaixam na perfei??o, como num puzzle, entre andamentos klezmer de euforia e tristeza. Em “Cave”, escutam-se pingos a cair por entre ambientes electr?nicos e soturnos de contempla??o aos Boards of Canada. “Montains” repleto de altos e baixos como as montanhas e a folk norueguesa, revela-nos o lado mais cl?ssico-contempor?neo por via das cordas. Um ?lbum inovador, com solu??es simples onde uns assobios, um estalar de dedos, um dedilhar do contra-baixo e um acorde?o manso, chegam para construir uma pe?a carregada de swing (“Take It Easy”).

Embuido do esp?rito da Sibelius Academy e de um dos mais carism?ticos professores de m?sica finlandeses, Heikki Leitinen que aconselha primeiro a estudar a fundo a tradi??o e posteriormente a efectuar trabalho explorat?rio, a ir mais al?m, Kimmo Pohjonen cedo se revelou como um dos mais criativos, rebeldes e consistentes m?sicos da folk europeia. J? no seu anterior projecto, os Ottopasuuna, testava o experimentalismo (sobretudo em “Suokaasua”), incorporando ru?dos de correntes a serem arrastadas, decompondo melodias, sem perder a adocicada sonoridade da folk finlandesa. No seu projecto a solo, Pohjonen, transcende-se, projectando momentos de tens?o e ambientes sombrios kalevaliano-cibern?ticos. “Kluster” ? a parte dois de “Kielo” onde a folk purista ? literalmente implodida. Aqui Pohjonen usa o acorde?o como um instrumento de destrui??o maci?a, ocupando todo o nosso espectro sonoro, inquietando-nos, amorda?ando-nos a alma. As notas que tira do fole contaminado por overdubs e samples do pr?prio acorde?o usados como percuss?o, s?o como m?sseis que explodem nas nossas colunas, anunciando o apocalipse de forma t?o veemente quanto a israelita Meira Asher.

Boris Kovac apresenta a sequela de “Last Balkan Tango”, m?sica p?s-apocal?tica para fazer dan?ar quem sobreviveu ao fim do mundo, carregada de nostalgia, humor negro e eleg?ncia, de coordenadas bem definidas no grande caldeir?o balc?nico da extrema pobreza cigana, mas a piscar o olho ?s vetustas e decandentes valsas, cha cha chas e tango de requintada ostenta??o, prato forte dos bailes nobres dos grandes sal?es imperiais da velha e rica Europa. H? na m?sica deste jugoslavo um certo toque minimal e cin?filo, tornando-o numa op??o pertinente para criar os ambientes sonoros dos maravilhosos universos imagin?rios de Peter Greenway, em alternativa a Michael Nyman. S?o deliciosas as passagens em que se escutam vozes de rua que parecem ser italianas e que se erguem dos escombros de uma guerra nuclear, ou quando o jazz swingante rasga a toda a tristeza melanc?lica que atravessa o ?lbum e devolve-nos a alegria esfuziante de uma big band dos anos 40 / 50.

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