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FMM Sines 2008: guia de sobrevivência para dez intensos dias

July 16, 2008 by Luís Rei  
Filed under Especial, Notícias

sines2008.jpg Arranca hoje a mais extensa edição do FMM de Sines, com um a discussão «A Barreira do Som: Seminário “Música, cultura e nação”». “Discussão sobre as raízes do fenómeno da “world music” e as identidades musicais na era da globalização”, que serve de aquecimento para os restantes dez dias que apresentará mais de quarenta espectáculos. Um conjunto de conversas organizadas pela e pelo INET (Instituto de Etnomusicologia da Universidade Nova de Lisboa), com coordenação científica de Manuel Deniz Silva que, com Pedro Moreira (também do INET - MD), a partir das 12h, debruçar-se-ão sobre “O que é a «world music»”. Um pouco mais tarde (a partir das 15h30), o tema «Música, cultura e nação» será aprofundado pelos investigadores Salwa Castelo Branco (INET-MD), Nuno Domingos (SOAS, Londres) e José Neves (ICS-UL). Às 18h haverá ainda uma mesa-redonda sobre «Música Portuguesa e globalização com José Mário Branco (músico), Chullage (músico) e Pedro Rodrigues (musicólogo e jornalista do Público).

Ao todo, são mais de 40 projectos distribuídos por dez dias de festival que, este ano, além de ganhar mais um palco (na zona exterior do Centro de Artes de Sines), acrescenta mais horário ao alinhamento típico dos últimos dias (totalmente) fora-de-horas na Avenida da Praia, com início previsto para as 4h da manhã.

Isto quer dizer que, este ano, as sessões de DJ foram reduzidas apenas e só à noite (ou será manhã?) do último dia, num final em total apoteose com início às 6h e em que terá como protagonistas o cativo Bailarico Sofisticado com o convidado António Pires.

Num FMM ecléctico a tocar em várias franjas e à procura de públicos diversificados, do rock, ao hip hop e à música de dança, ao jazz e à música experimental, esta décima edição apresenta propostas para todos os públicos, apesar de insistir em não oferecer espectáculos em simultâneo (como acontece em qualquer festival internacional).

As lendas

A Orchestra Baobab do Senegal, a indiana Asha Bhosle, rainha da indústria cinematográfica Bollywood (que já gravou para cima de 12 mil canções), os norte-americanos Last Poets, que estiveram na génese do hip hop e da luta pelos direitos civis dos afro-americanos na década de 60, e o rocker chinês Cui Jian que enche estádios no continente asiático, são os nomes deste FMM que maior peso do passado carregam consigo.

As estrelas do momento

Entre aquilo que de mais suculento se vai fazendo actualmente nestas áreas, destacam-se os nomes do maliano Bassekou Kouyaté & Ngoni Ba que não pára de ganhar prémios de “world music”, do britânico Justin Adams e do gambiano Juldeh Camara que oferece provavelmente o blues-transe-rock-do-deserto actual mais acutilante, os congoleses Kasaï All Stars responsáveis por mais uma boa dose de dança tribal «congotronics», o afrobeat do colectivo norte-americano Antibalas, o surf-tuba-rock dos israelitas Boom Pam, o afro-rock dos Toubab Krewe, o tributo «garifuna» a Andy Palácio, a tecno e o chili-downtempo de inspiração mariachi com Nortec Collective presents Bostich and Fussible, a música de baile dos galegos Marful, os blues que vão ao encontro dos metais e do canto gutural das estepes da Ásia Central dos norte-americanos Hazmat Modine, o portento rítmico e vocal da Ocitânia denominado Lo Cor de La Plana, o italiano Enzo Avitabile, a folk sombria, bucólica e belíssima da britânica Rachel Unthank & The Winterset, a enorme voz da checa Iva Bittova, a multi-músicas «naked-citianas» de Koby Israelite, o experimentalismo jazzístico e clássico da Moscow Art Trio.

Encontros de peso

Ao longo das nove anteriores edições, o FMM tem sido palco de encontros provocados e já «empacotados», como é o caso de Toto Bona Lokua que reúne Gerald Toto, Richard Bona e Lokua Kanza. Há também um tributo a Jimi Hendrix pelo quarteto quarteto Doran – Stucky – Studer – Tacuma. Ou seja, os repetentes Erika Stucky e Jamaladeen Tacuma, com Fredy Studer e Christy Doran. A união que o FMM «fabrica» este ano é entre os portugueses Mandrágora e os músicos residentes na Bretanha ligados à Kreiz Breizh Akademy (Jacky Molard, Simone Alves e Guillaume Guern e também da “big band” belga Flat Earth Society com o finlandês Jimi Tenor.

Os Repetentes

Uma grande novidade. Este ano não consta no cartaz nenhum dos muitos projectos de David Murray. Mas volta a haver Kimmo Pohjonen com o trio KTU. E a enormíssima Rokia Traoré que acabou de editar aquele que será certamente um dos dez melhores discos de 2008: “Tchamanché”

A lusofonia

Entre os músicos residentes em Portugal, Sines apresenta além dos já referidos Mandrágora, A Naifa que está neste momento a terminar uma muito bem sucedida digressão de “Uma Leve Inclinação Para O Mal”, o duo Dead Combo que ainda têm fresco o grande disco “Lusitânia Playboys” (belíssima a voz de Ana Quintans), o quarteto de concertinas Danças Ocultas que estreia um novo espectáculo audiovisual e encontra-se neste momento a gravar o sucessor de “Pulsar”, o angolano Waldemar Bastos que, além de ter participado numa compilação de tributo aos U2 por músicos africanos, deve lançar novo disco em breve. De Cabo Verde teremos ainda o registo clássico das mornas de Hermínia. Do nordeste brasileiro, a banda sonora perfeita para o processo Apito Final (canção “Meu Time”) com Siba e a Fuloresta e o amor pelo forró e o frevo de um apoiante do Movimento dos Sem Terra: o ex-Cascabulho Silvério Pessoa.

Para descobrir

Neste universo das músicas do mundo, com propostas oriundas de mais de 190 países e com músicos que são descobertos ao minuto, seria muito mau se já não nos surpreendêssemos com mais nada. A música sul-africana de Dizu Plaatjies’ Ibuyambo Ensemble, canto qâwwali oriundo do Paquistão de Asif Ali Khan & Party, o bhangra-punk dos norte-americanos Firewater, a poesia e a soul do trinidense Anthony Joseph, a música de tabernas e aldeias galedas de Serra-lhe Aí!!! & Os Rosais, a «weird folk» dos americanos radicados em França, Moriarty, prometem agradáveis surpresas.

Mais Iniciativas Paralelas

  • Exposição “Transurbana”, de Luís Campos

Integrada num retrospectiva do trabalho de Luís Campos, uma visão original das figuras e paisagens dos subúrbios de Lisboa. No Centro de Artes de Sines, de 19 Julho a 20 Setembro. Todos os dias, 14h00-20h00. Inauguração: 19 de Julho, 15h00. Parceria O Museu Temporário / CAS. Entrada livre.

  • Ciclo de cinema documental: Migrações

As migrações e o modo como estão a alterar a geografia política, cultural e económica do mundo são o tema do ciclo de cinema do FMM 2008. No Centro de Artes de Sines, 23, 24, 25 e 26 de Julho. Sessões às 16h00. Entrada livre.

  • 23 Julho: “Les Maîtres Fous”, de Jean Rouch. Clássico do cinema antropológico de Jean Rouch, mostra uma cerimónia de possessão, mas também tudo aquilo que a antecede e que se lhe segue, a vida de cada um dos “possuídos” independentemente desta cerimónia. (1954, França, 36m)
  • 24 Julho: “Before the Flood”, de Yan Yu e Li Yifan. A barragem das Três Gargantas na China, a maior jamais construída no mundo, deverá estar terminada em 2009. Até lá, milhões de pessoas terão que ser realojadas e várias cidades e monumentos ficarão submersos. Neste filme, regista-se o processo de realojamento na cidade de Fengjie e o modo como afectou a vida dos seus habitantes. (2005, China, 143m)
  • 25 Julho. “Bab Sebta”, de Pedro Pinho e Frederico Lobo. “Bab Sebta” significa “a porta de Ceuta” em árabe e é o nome da passagem na fronteira entre Marrocos e Ceuta. É o local para onde convergem aqueles que, vindos de várias partes de África, procuram chegar à Europa. Neste filme percorre-se quatro cidades, ao encontro dos rituais de espera e das vozes desses viajantes. (2008, Portugal, 110m)
  • 26 Julho. “One Plus One”, de Jean-Luc Godard. “One Plus One” não é um musical com ou sobre os Rolling Stones, mas uma reportagem sobre o capitalismo, a publicidade, a sociedade de consumo, o nazismo, as lutas raciais, as guerras mundiais e tantos outros dramas do Ocidente. (1968, França, 110m).
  • Ateliês para crianças

Os artistas do Festival Músicas do Mundo partilham conhecimentos e experiências com o público mais novo. No Centro de Artes de Sines, 24-26 Julho. Sessões às 11h30. 6-12 anos. Gratuito sob marcação (Tel. 269 860 080). Com Toubab Krewe (dia 24), Rachel Unthank & The Winterset (dia 25) e The Dizu Plaatjies’ Ibuyambo Ensemble (dia 26).

  • Masterclasses

Oportunidades para conhecer a visão da música e alguns segredos criativos de cinco artistas de elite que passaram ou vão passar pelo FMM. Na Escola das Artes de Sines, 23-26 Julho. Duração média das sessões: 2 horas. Preço: 25 euros. Tel. 912158903 (Vasco Agostinho). Marcação no Centro de Artes de Sines e na Escola das Artes de Sines. Com Pat Mastelotto (dia 23, 11h30), Carlos Bica Portugal (dia 23, 15h30), Zé Eduardo (dia 24, 11h30), Jacky Molard (dia 25, 11h30), Koby Israelite (dia 26, 11h30)

  • Conversas com artistas

No Centro de Artes de Sines, de 24 a 26 Julho. Sessões às 18h00. Entrada livre. Com Silvério Pessoa (dia 24), Cui Jian (dia 25) e Boom Pam (dia 26).

Alterações de última hora

Devido a questões logísticas, os espectáculos que irão ocorrer no exterior do Centro de Artes de Serra-lhe Aí & Os Rosais (dia 17), Danae (dia 21) e Dead Combo (dia 22) passam a realizar-se não no fim da noite, mas no seu início, às 21h00.

Ao longo destes dez dias poderão ocorrer outras alterações de última hora, nomeadamente no cartaz. Devido, uma vez mais às questões dos vistos, ainda não é certo que o colectivo do Pasquistanês Asif Ali Khan possa pisar solo europeu.

Para ir acompanhando eventuais alterações de última hora, aconselha-se a consulta diária do blogue do FMM.

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Rokia Traoré: À procura do som perfeito III

July 3, 2008 by Luís Rei  
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rokia3.jpgTerceira e última parte da entrevista com a maliana Rokia Traoré, a propósito do seu regresso ao nosso país para apresentar no FMM de Sines o mais recente álbum, “Tchamantché”

Uma das suas canções refere que toda a riqueza de África atrai guerras e chacina. Este não é um problema que tem a ver com a qualidade de muitos dos líderes africanos? Por exemplo, muitos músicos como o Thomas Mapfumo do Zimbabué, têm de viver no exílio por questões políticas. Por ter escrito canções com os nomes de “Disaster” e “Corruption”. Na sua opinião, qual será a solução para tornar a riqueza dos recursos naturais em bem-estar e prosperidade?

A solução é tão complicada como o problema em si. Alguns líderes africanos estão a vender todas as riquezas, não sei a quem. Mas se os líderes europeus não tivessem mesmo nada a ver com isto, o problema seria mais simples de resolver. Mas é mesmo complicado. No Mali, é muito difícil de concretizar os projectos que tenho em mente. O colonialismo foi uma coisa muito má para África. Muitas das pessoas estão de mãos atadas, não podem realizar os seus sonhos. A corrupção é a forma que muitos têm para melhorar a sua vida. O dia de hoje pode ser mais fácil, mas amanhã voltará a ser difícil outra vez. A corrupção é como um enorme buraco sem janelas e sem portas. E quando esse buraco cresce, não há forma de sair dele. O problema de muitos africanos é que vêem esse buraco ficar maior e continuam felizes. É muito difícil para mim falar da classe política africana porque eu não gosto de falar sobre um meio que eu não conheço. Não faço parte da classe política e, por isso, não sei o que custa ser um líder político em África. Quando um líder político começa a governar um país africano, poderá achar que o poder totalitário é o melhor. Mas, para ele, isso não será boa coisa. É sempre melhor que toda a população lhe peça resultados. O grande problema em África é que as populações não sabem como questionar os políticos.

O povo não está informado…

Não

Mas os músicos vão informando o povo…

Certamente. Mas há certos limites. A democracia é uma cultura de escrita, de leitura. A maior parte da população não vai à escola e não sabe ler e escrever. De momento, pensamos que o poder militar não é uma coisa boa para África, mas eles trouxeram a democracia e esta tem de ser construída. As pessoas têm de ter tempo para compreender como este sistema funciona. Há jornalistas que vão fazendo o seu trabalho, mas isso não é fácil. Porque os líderes não gostam do contraditório. E a democracia sem contraditório é mais eficaz do que o poder militar. África tem este paradoxo. Penso também que o trabalho de um líder é muito difícil. A democracia está a desenvolver-se, há mais jornalistas, há mais músicos, há mais jovens a irem à escola. As populações têm mais educação e maior capacidade de pedir contas aos líderes. Mas este progresso não é ainda usado pelos líderes de forma mais positiva. Sentem-se chocados com algumas reacções e, de uma maneira geral, ainda não fazem aquilo que deveriam fazer. É complicado. Ao mesmo tempo, quando há eleições, as pessoas votam em quem lhes dá uma t-shirt. O programa não tem qualquer valor.

Acontece o mesmo em Portugal. T-shirts, canetas, sacos de plástico e até mesmo electrodomésticos…

Por causa da extrema pobreza as pessoas contentam-se com pouco. Vendem-se por 10 euros. Não pensam que se trabalharem de forma árdua mais um pouco, podem ganhar mil euros amanhã. Toda a gente quer dinheiro rápido e fácil. Penso que teremos de trabalhar a parte psicológica e social das populações.

Este álbum é uma homenagem a Ali Farka Touré. Porquê? Por ele ter sido um músico de excepção? Um homem que comunicava com os espíritos do Rio Níger? Ou por ter sido aquele que também realizou através da agricultura enormes progressos sociais na aldeia onde vivia? O tal homem que preferiu trabalhar de forma árdua e não cedeu à vida fácil, que «pegou na cana de pesca e começou a pescar» e que nunca quis viver fora do Mali e que é um modelo para o desenvolvimento de África?

Penso que é tudo isso que acabou de descrever. Era uma das grandes estrelas de África. Não tenho mais nada a dizer, você disse tudo. Este disco não é suficiente grande para homenagear a pessoa que ele foi.

“Tchamantché” acaba com um tema escondido que é uma versão de “The Man I Love” imortalizado por Billie Holiday. Tem planos para gravar repertório de Billie Holliday com a Diane Reeves?

De facto, eu a Diane Reeves fizemos a digressão «Bilie And Me» em que cantámos juntas vários temas da Billie Holiday. Foi uma grande experiência. No final desta digressão queria continuar o meu tributo à Billie Holiday, porque é uma cantora que gosto muito. Gostava de dar continuidade a este tributo. Um jornalista disse-me que não havia nenhuma cantora africana que tivesse gravado este repertório. Fiquei muito satisfeita em gravar “The Man I Love”. Para já, não há nada planeado. Vamos ver o que acontece no futuro.

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Rokia Traoré: À procura do som perfeito II

July 2, 2008 by Luís Rei  
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Segunda parte da conversa com a maliana Rokia Traoré que este ano regressa ao FMM de Sines para apresentar o seu mais recente disco, “Tchamanthcé” dedicado à memória de Ali Farka Touré.

- Parece-me que o engenheiro de som Phill Brown desempenhou um papel muito importante neste disco. Houve a transição do som acústico para o eléctrico, sem perder as raízes bambara, houve também a inclusão de um tratamento sonoro mais ambiental em vários temas, houve ainda a participação do grande percussionista norte-americano Steve Shehan, habituado desde há muito tempo a fundir sonoridades ocidentais e ambientais com a música árabe de Baly Othmani, entre outros músicos do médio-oriente..

O Steve Shehan participou no final das gravações. Não esteve connosco de início, mas o facto de ele ter experiência e o conhecimento de música que tem, de já ter participado em muitos projectos, faz com que não tenhamos perdido muito tempo. Teve uma grande sensibilidade e percebia muito rapidamente aquilo que queríamos. A maior dificuldade neste trabalho que tive com o produtor Calum McCall foi mesmo o de encontrarmos o engenheiro de som perfeito, que estivesse interessado em gravar este disco e os dois músicos que nos faltavam (um baterista e um outro guitarrista). Tomei conhecimento do Phill Brown ao ouvir o álbum da Beth Gibbons. Fiquei fascinada com o som desse disco. Era esse mesmo tipo de som que queria para este projecto. Conhecia bem o baixista, o tocador de n’goni que vieram do projecto anterior. Conhecia também o guitarrista maliano [Sibiri Koné] e já sabia o que esperar dele. Ele não anda comigo em digressão, mas sabia que se enquadrava no projecto. Outra pessoa muito difícil de encontrar foi também o baterista [Vincent Taeger]. Fizemos várias audições antes de escolhermos a pessoa certa. A última pessoa que seleccionámos para a gravação do disco foi o guitarrista Seb Martel. O Calum foi determinante na escolha deste músico, já que tem um grande conhecimento de guitarras e do som destas. Sentimos que tínhamos que chegar ao som que queríamos durante a gravação destas guitarras e não após a mistura final. Foi importante escolhermos todo o tipo de material adequado: instrumentos, amplificadores, microfones.

- Essa escolha de material foi mesmo determinante no tipo de som que queria obter neste disco?

Claro, mas não foi só isso. Há todo o tipo de material e também a forma de tocar. Foi também importante optarmos por uma gravação analógica. Não queríamos usar Protools ou outro processo de captação digital. Tudo foi captado de forma analógica, em bobines. Foi um processo muito complicado. Tudo foi numerado para facilitar a mistura final. Volto a referir que o trabalho do Calum McColl foi muito importante na escolha das guitarras e dos amplificadores certos. A produção deste disco foi mesmo uma tarefa árdua.

-Ainda não falámos sobre as letras. Em África os músicos são o principal meio de comunicação de difusão de notícias. Neste e noutros discos dá conselhos às mulheres africanas, à sociedade maliana, por exemplo, para não emigrarem em massa e «sem rede».

Penso que já não somos o principal meio de comunicação. Fomos ultrapassados pelo telemóvel. É incrível o trabalho que a Orange está a fazer em África e no Mali. Mas tudo isso é óptimo. Se os telemóveis estão a ter todo este sucesso é porque as pessoas sentiam necessidade de os usar. Antes, o seu uso era considerado um luxo, hoje é uma coisa normal. Ao mesmo tempo, os artistas continuam a fazer parte de diferentes meios de comunicação. Na música consegue encontrar letras de todo o tipo, de amor e outros aspectos da vida. Neste mundo, o que é concreto é que através de uma letra passamos uma mensagem. E a audiência está aberta a essa mensagem. É por isso que penso que, quando o nosso trabalho é este, quando temos uma audiência, é importante ter uma mensagem a difundir e tirar vantagens deste sistema para chegarmos às pessoas. Em “Tounka” não digo para não imigrarem porque não é uma boa coisa. Hoje em dia, não é um muito bom para África as pessoas saírem em massa. Se quisermos que África seja um melhor sítio, temos de ser nós a fazer o trabalho. Ninguém virá de fora para nos ajudar. Sabemos que quem vem de fora apenas vem para tirar aquilo que precisa para o seu país. De momento a questão é: Que continente é este? África? Como será possível ter melhor qualidade de vida neste continente? Sei do que estou a falar porque ainda do ontem cheguei do Mali. Reparto a minha residência entre a França e o Mali. Sei o que custa para muitos africanos viver o dia-a-dia. Mas, se deixar o país é a única solução, já o fazemos desde o fim do colonialismo e, por isso, deveríamos estar melhor do que estamos actualmente. Temos de encontrar juntos uma solução melhor. Mesmo que os líderes europeus digam que África é um problema, que não consegue desenvolver-se e que está condenada ao fracasso. Essa tese é confortável para eles. O equilíbrio económico e social deles depende desta tese. Nada é a preto e branco em termos económicos e políticos. Tudo é complicado. Os líderes africanos têm a sua parte de responsabilidade nesta tese. Mas o que é certo é que este problema é humano e há muita gente a sofrer por causa disso. Não é possível aceitarmos este estado de coisas nos dias de hoje.

[parte 2 de 3; continua amanhã]

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Rokia Traoré: À procura do som perfeito

June 5, 2008 by Luís Rei  
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Rokia Traoré, maliana de etnia Bamana, editou este mês o seu quarto disco denominado “Tchamantché”. Uma obra dedicada à memória de Ali Farká Touré. A cantora que actuou pela primeira vez no nosso país, há cerca de oito anos no Multi Músicas de Lisboa (no saudoso Cais do Gás), vem apresentar o sucessor de “Bownboï” à Xª edição do FMM de Sines (local onde já esteve em 2004), que marca a transição da orquestração complexa e acústica para uma outra mais simples, eléctrica, suave e «abluesada». “Tchamantché” acentua ainda mais a ideia de estarmos perante uma das mais interessantes vozes femininas nascidas em África. Filha de um diplomata (que entretanto se reformou e que regressou ao Mali), partilhou residência, durante a sua infância e adolescência, entre a Argélia, a Arábia Saudita, a França e Bélgica. Há cerca dez anos, comprou casa em Amiens, no norte de França, na localidade da editora que lhe gravou os seus dois primeiros discos, a Label Blue. Apesar dessa outrora magnífica etiqueta de jazz e de música africana tradicional e moderna ter cessado funções há vários anos, ainda mantém essa habitação. Contudo, Rokia teve de alugar um apartamento em Paris, uma vez que «as actividades de promoção concentram-se todas aí». Actualmente reparte a sua residência entre Amiens, Paris e Bamako no Mali. É esta excitante vivência que lhe permite, por um lado, manter os laços profundos com a sua cultura do ancestral Império Bamana, por outro, ter abertura de espírito suficiente para produzir um disco esteticamente ocidentalizado, moderno, repleto de pequenos e sofisticados pormenores de produção, que mantém intacta a alma africana de Rokia.
Segue-se a primeira de três partes de uma entrevista realizada no próprio dia em que Rokia Traoré actou como convidada no espectáculo de Kronos Quartet no Centro Cultural de Belém (para interpretar os dois temas que gravaram em “Bownboï”). Um dia antes, a Universal Music de França lançou “Tchamantché” no mercado europeu.

Até que ponto o facto de ter ido viver para França há 10 anos atrás lhe deu uma visão mais abrangente da música que lhe permitiu criar o seu próprio estilo, sem nunca perder as raízes da sua etnia Bamana?

Penso é importante para mim sentir-me eu própria. Mas já não me preocupo mais em manter-me ligada às minhas raízes. Aquilo que eu sei acerca da cultura francesa ou do resto do mundo é algo que já está intrincado em mim. Não posso fazer nada contra isso. Mas para assumir isso preciso de estar ligada às minhas raízes, não esquecer quem sou e especialmente de onde venho. Que tipo de origens malianas tenho. Ao mesmo tempo já não penso naquilo que tenho de fazer para continuar a ser maliana. Isso era algo que procurava quando era adolescente, quando não sabia o suficiente sobre as minhas raízes. Há dez anos atrás, quando comecei a gravar o primeiro disco, “Mouneïssa”, visitei a minha aldeia para conhecer esta cultura da minha região, onde há muitos tocadores de balafon. Antes disso, apenas conhecia esta cultura somente por os meus pais me falarem dela. Nessa altura senti necessidade de ir à aldeia onde os meus pais nasceram [Kolokani], onde tive a oportunidade de conhecer os meus tios e os meus primos.

Claro que nessa altura fi-lo apenas por causa da música. Fui lá para tentar encontrar um tocador balafon para actuar comigo no resto do mundo. Mas continuo a ter uma grande ligação com minha família dessa aldeia, ainda que não viva lá. Ainda esta sexta-feira dei um concerto em Bamako. Gostava de ter tocado na minha aldeia, mas não foi possível porque não há infraestruturas para realizar um espectáculo deste tipo. Aluguei um autocarro para trazer 75 pessoas a ver o concerto em Bamako. Esta é a relação que tenho com a minha aldeia. Actualmente, não preciso de ligar aos meus pais para ver se há alguém que me possa arranjar um tocador de balafon, caso precise. Tenho a minha própria relação com estas pessoas que fazem parte de mim. Afinal somos da mesma família. Temos apenas estilos de vida diferentes. Mas o facto de virmos das mesmas raízes foi suficiente para nos voltarmos a ligar. E isso, para mim, é algo de muito concreto.

Referiu por diversas vezes o balafon, mas neste disco não há um tocador deste instrumento de percussão. Ao invés, há bateria. Também não há corá, há harpa ocidental. No entanto faz um uso exaustivo do n’goni. Porquê?

Não há uma pesquisa aprofundada naquilo que faço. Tudo acontece de forma muito natural. A história da harpa é muito simples. Esse tema foi composto inicialmente através de corá, o músico que tocou o tema não o pode gravar. O meu melhor músico [o baixista] também toca harpa. A escolha do n’goni na orquestração é que este é um instrumento que faz parte da música acústica clássica maliana e eu adoro o som desse instrumento. Imaginei este disco como algo só com guitarra, n’goni, baixo e bateria. Quando estamos a criar um novo projecto nunca sabemos se vai ser um sucesso ou não, quer em termos acústicos, quer em termos de marketing. Apenas quis fazer aquilo que sentia. Decidi que tinha de mudar ao verificar que tinha trabalhado cerca de oito anos com orquestração clássica e acústica nos três anteriores álbuns. Não queria fazer um quarto disco desta forma.

Foi a partir dessa necessidade que encontrou a guitarra eléctrica “Gretsch”?

O que está claro é que não decidi parar por causa disso. Continuo a trabalhar com orquestração acústica em diferentes projectos, não neste álbum e não na digressão actual. Queria fazer algo novo, como se fosse para mim um desafio. Com novas coisas para perceber e novas pessoas para trabalhar. Quis voltar à guitarra, que é o meu primeiro instrumento. Há mais dez anos atrás, descobriram-me a cantar e a tocar esta guitarra acústica. Diziam que eu dizia que eu era uma Tracy Chapman. [risos]

Toca três tipos de guitarra [acústica e eléctrica]. Pode descrever as diferenças entre todas elas?

Estas guitarras não soam de forma semelhante. A folk é mais suave e está mais próxima de nós. A guitarra eléctrica é fisicamente tocada um pouco mais afastada de nós. A “Gretsch” é tocada numa posição intermédia, entre essas duas guitarras. À parte disto, não podemos exprimir os mesmos sentimentos com uma guitarra folk, do que com uma guitarra eléctrica. O mais complicado é sempre sabermos aquilo que queremos. Não é fácil chegarmos aonde ambicionamos. Mas quando sabemos exactamente onde queremos chegar, temos 40 ou 50% do trabalho feito.

Que tipo de som procurava quando pegou na guitarra “Grestch”?

Um som blues, um som rock e a mesmo tempo o meu som. Não queria fazer um som demasiado eléctrico, demasiado pop. O mais complicado neste projecto foi a pesquisa que fizemos com o engenheiro de som [Phill Brown] que é também um artista. Sabia o que queria, mas não sabia como o conseguir. O trabalho que lhe dei foi o de ajudar-me a conseguir este som diferente. Não lhe estava a pedir que criasse esse som, estava a pedir-lhe que me ouvisse. É muito difícil encontrar alguém disponível para nos compreender e dar luminosidade à nossa música. Algo que não saberia como fazer, pois esse não é o meu trabalho.

[continua amanhã]

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A sensualidade de Rokia, a alma «zorniana» de Koby e os amigos franceses dos Mandrágora no FMM de Sines

May 18, 2008 by Luís Rei  
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rokia.jpgAinda não é conhecido o programa oficial da X edição do FMM de Sines que se realiza entre os dias 17 e 26 de Julho, mas já é possível saber que o décimo e último «round» de 2008 promete um grande, grande espectáculo da repetente maliana Rokia Traoré. Esta semana, a senhora que divide residência entre Paris e Bamako editou “Tchamanché” e passou por Lisboa para actuar com Kronos Quartet e falar a alguma imprensa. “Tchamanché” é um álbum que homenageia o mestre Ali Farka Touré e marca uma viragem assumidamente «blues-rock» nas canções de crítica social aguçada, interpretadas por Rokia agora com uma guitarra eléctrica (e não acústica) “Gretsch” (famosa entre as bandas de «rockabilly» dos anos 60 e 70). Sem nunca perder a génese da música africana e da sua etnia bambara, Rokia aventura-se de forma exemplar pelo repertório de Billie Holiday (que grande versão a de “The Man I Love” que aparece escondida a seguir ao último tema do disco).

No último dia (26 de Julho) do FMM é também possível assistirmos à estreia de Koby Israelite. Compositor e multi-instrumentista (toca acordeão, bateria, guitarra, piano, banjo, clarinete de bolso, flauta, melódica) israelita residente em Londres que edita os seus discos com selo da editora de John Zorn (de quem se considera discípulo), a Tzadik, na série ‘Radical Jewish Series’. No Castelo iremos ter em palco um homem que, à semelhança de projectos como Naked City, Mr. Bungle, Farmers Market ou Secret Chiefs 3, percorre em meia-dúzia de minutos uma amálgama (e sobreposição em camadas) de estilos: do metal e do funk, ao klezmer e ao jazz e à música cigana dos Balcãs. Em Sines, Koby deverá tocar somente acordeão e será acompanhado por Yaron Stavi-Upright (baixo eléctrico), Tim Giles (bateria), John Turville (teclados) e Jez Franks (guitarra).

Dois dias antes (24 de Julho), é também possível observarmos a união entre a folk progressiva que traça no horizonte paisagens repletas de fiordes (tais os altos e baixos) dos portuenses Mandrágora e três músicos oriundos da Bretanha e intimamente ligados à Kreiz Breizh Akademy dirigida artisticamente por Erik Marchand. São eles o gigante violinista Jacky Molard, a luso-francesa Simone Alves e Guillaume Guern. Um encontro que é consequência da residência bretã dos Mandrágora (que ocorreu no início deste ano), sugerida pelo programador do FMM, Carlos Seixas.

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DISCOGRAFIA ESSENCIAL (11)
ROKIA TRAOR� - “WANITA”

October 25, 2003 by Luís Rei  
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Rokia Traor�
Wanita
(Indigo)

Ao segundo disco, Rokia Traor� e j� um dos maiores tesouros que nos chega do Mali. Com a profundidade e simplicidade do estilo abluesado de Ali Farka Tour�, que oferece paisagens sonoras � beira do rio Niger, mesmo � entrada do Sara, sem perder de ouvido o balan�o fren�tico dos ritmos wassolou caracter�sticos em Oumou Sangar�, Rokia Traor� mostra a Youssou N’Dour que se podem fazer discos em �frica que agradem a ouvidos ocidentais, sem alterar geneticamente a raiz local. Num estilo hipn�tico e repousante que serena os esp�ritos mais malignos, esta nova diva merece que acreditemos em anjos negros. Divinal.

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DISCOGRAFIA ESSENCIAL (11) ROKIA TRAOR? - “WANITA”

October 25, 2003 by  
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Rokia Traor?
Wanita
(Indigo)

Ao segundo disco, Rokia Traor? e j? um dos maiores tesouros que nos chega do Mali. Com a profundidade e simplicidade do estilo abluesado de Ali Farka Tour?, que oferece paisagens sonoras ? beira do rio Niger, mesmo ? entrada do Sara, sem perder de ouvido o balan?o fren?tico dos ritmos wassolou caracter?sticos em Oumou Sangar?, Rokia Traor? mostra a Youssou N’Dour que se podem fazer discos em ?frica que agradem a ouvidos ocidentais, sem alterar geneticamente a raiz local. Num estilo hipn?tico e repousante que serena os esp?ritos mais malignos, esta nova diva merece que acreditemos em anjos negros. Divinal.

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