O MED no YOU TUBE
July 17, 2007
Final com BAJOFONDO
e CHAMBAO
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Festival Med [dia #1] IN-CANTO, AYNUR DOGAN, SARA TAVARES
July 16, 2007
IN-CANTO | Festival MED | Palco do Castelo | dia 27 de Junho | Espaço bem composto
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No palco secundário do Castelo, LUISA AMARO, antiga companheira de CARLOS PAREDES, mostrou durante cerca de uma hora porque é que considera este projecto In-Canto como o fim de um ciclo de memória ao mestre Paredes, iniciado com a edição do seu disco “Canção Para Carlos Paredes” de 2004, gravado em parceria com Miguel Carvalhinho.
Além do belíssimo entendimento entre a guitarra portuguesa de Luisa Amaro e a guitarra clássica de MIGUEL CARVALHINHO, realce-se também intervenção do clarinete de GONÇALO LOPES e das percussões árabes como o tar ou a darabuka de TIAGO PEREIRA (uma surpresa se tivermos em conta a prestação deste percussionista tanto em RONCOS DO DIABO como no SEBASTIÃO ANTUNES TRIO). Ambos promovem um espaço de entendimento entre a música portuguesa e a música clássica do médio-oriente. E que bem que ali fica a dança de JOANA GRÁCIO que, apesar de exibir inevitavelmente a sua sensualidade não ofusca nem a prestação dos músicos, nem o teor mais sério e rigoroso do projecto. A bailarina demarca-se com uma certa classe ao lado mais folclórico daquilo que poderia resultar na vulgar dança do ventre. E ainda bem.
[fotos em breve; video disponível no blog do festival]
AYNUR DOGAN| Festival MED | Palco da Cerca | dia 27 de Junho | Espaço bem composto
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No palco da cerca onde, em anos anteriores, assistimos a espectáculos mais festivos (desde AMPARANOIA a BABYLON CIRCUS), foi improvisado um auditório ao ar livre para recebermos sentados a curda do lado Turco AYNUR DOGAN. Não é por acaso que os juízes turcos obrigaram há três anos atrás a retirar o álbum “Keçe Kurdan” (isto é rapariga curda) das lojas de discos, sob o pretexto da canção que dá título ao álbum apelar ao separatismo curdo e de induzir à retirada das mulheres curdas para a montanha.
As canções tradicionais curdas e turcas interpretadas por AYNUR são de confronto, falam de difícil condição da mulher islâmica, de amores impossíveis e crimes de honra e são suportadas por uma poderosíssima secção de percussão. Mas esta tradição ‘denge benge’ é também de aproximação a um universo superior, celestial, a deus, sobretudo quando AYNUR exibe todo o seu portento vocal. A intensidade e profundidade do seu canto evoca os espíritos benignos dos sufis da refinada linhagem de NUSRAT FATEH ALI KHAN ou da grandiosidade musical do azeri ALIM QASIMOV.
A cantora e tocadora de baglama (cordofone local de 7 cordas da família do saz) possui também a sagacidade natural de modernizar os arranjos das suas canções, seja através da inclusão de um violino de toque ocidental ou de um baixo eléctrico. Felizmente, nesta actuação do palco da cerca, não houve aquele sintetizador que estragou um pouco o ‘showcase’ que ela deu na WOMEX de Sevilha em Outubro do ano passado. E foi melhor assim. Ganha e muito a música tradicional que AYNUR interpreta e ganha a audiência que desfruta de um espectáculo de maior autenticidade.
[fotos em breve; video disponível no blog do festival]
SARA TAVARES | Festival MED | Palco da Matriz | dia 27 de Junho | Espaço completamente lotado
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Com a ampliação do espaço da zona antiga de Loulé, o Med ganhou mais um belíssimo cenário para a realização de espectáculos com alguns dos cabeças-de-cartaz. O espaço encaixado entre a Igreja Matriz e o Jardim dos Amuados recebeu SARA TAVARES que tocou para uma multidão sentada (foi ela que exigiu as cadeiras) que lotava por completo um espaço que pode receber cerca de 4000 espectadores de pé.
É notável a boa vibração que emana do discurso de SARA que puxou a sua costela de algarvia (era nesta região que vivia a sua mãe e onde ela passava as suas férias de infância) e apresentou à plateia algumas das suas sobrinhas que se encontravam em frente ao palco. Apesar de um início algo morno, a enorme rodagem da cantautora e dos músicos africanos que a acompanham, efectuada sobretudo em solo europeu e americano, confere uma enorme segurança a este espectáculo de facílima combustão que atinge directamente a mente e o corpo da maioria da assistência. SARA TAVARES já não se pode queixar que, quem a conhece, desconhece as canções do arrojado álbum “Balancê” (hábil na forma como miscigena pop, soul, a morna, o soukous e até mesmo o reggae e o dub). Muito bons os momentos em que canta com BOY GE MENDES e em que este cabo-verdiano põe toda a turba a gingar com uma malha de soukous em “Mi Ma Bô”, quando “One Love” na recta final é ampliado e chega aos 13 minutos, ou quando, já em encore, regressam a “Balancê” agora com uma linha brutal de dub servida pelo baixo do guineense GOGUI. Final mais do que perfeito para o primeiro dia de Med.
[fotos em breve; video disponível no blog do festival]
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TERRAKOTA à conquista da Europa
July 9, 2007
Apesar de totalmente ignorados no interessante documentário “Lusofonia a (R) Evolução” que retrata parte “de um novo som lusófono que emerge em Lisboa e que começa a contagiar o mundo” os TERRAKOTA, além de continuarem a tocar com regularidade na Europa, acabam de conquistar a 19ª posição da tabela do World Music Charts Europe com o mais recente álbum “Oba Train” (distribuído em todo o mundo pela etiqueta italiana Felmay).
A WMCE contabiliza mensalmente o “air play” de cerca de seis dezenas de realizadores de programas de rádios de músicas do mundo do velho continente. Curiosamente, apenas artistas lusófonos residentes em Lisboa, editados ou distribuídos por editoras estrangeiras, como MARIZA, SARA TAVARES (ambos World Connection), BONGA, LURA (ambos Lusafrica) e MANECAS COSTA (BBC Radio 3 - onde andava ele também no documentário? apenas e só no clip da Sara Tavares?) lograram atingir este top 20 mensal.
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[Prémios BBC Radio 3]: MARIZA e SARA TAVARES “morrem na praia”
April 1, 2007

MAHMOUD AHMED no SET| (C) Cristina Pinto Pinto
A BBC Radio 3 divulgou no passado dia 31 de Março, no programa “World Routes” de Lucy Duran, os vencedores dos prémios de world music desta rádio estatal inglesa.
MARIZA, que já tinha ganho o galardão da edição de 2003 deste “award” referente à melhor artista europeia, não conseguiu conquistar a segunda distinção nesta categoria ganha este ano pela francesa CAMILLE. Já SARA TAVARES, nomeada pela primeira vez na qualidade de artista revelação, é superada pelo rapper somali residente no Canadá K’NAAN (uma das grandes surpresas da edição de 2006 do FMM de Sines).
Mas a maior surpresa vem da Etiópia. MAHMOUD AHMED (que esteve em muito bom plano na edição do Sons em Trânsito de 2005) conquista o galardão referente à zona geográfica africana onde se incluíam entre os nomeados ALI FARKA TOURÉ e TOUMANI DIABATÉ. No entanto, “Savane” do malogrado maliano de Niafunké recebeu o prémio referente a melhor álbum.
O indiano das ‘slide guitars’ DEBASHISH BHATTACHARYA que também já esteve no Sons em Trânsito de Aveiro notabilizou-se na zona geográfica Ásia / Pacífico. A libanesa GHADA SHBEIR é a figura maior do Norte de África / Médio Oriente. Os norte-americanos GOGOL BORDELLO do ucraniano EUGENE HUTZ (que devem pisar solo português no início do verão) destacam-se entre os artistas do continente americano, o tecno-tango dos franceses GOTAN PROJECT granjeia o prémio “Club Global” e o argelino MAURICE EL MEDIONI em duo com o cubano ROBERTO RODRIGUEZ convencem na categoria “Culture Crossing”.
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[Prémios BBC Radio 3]: MARIZA e SARA TAVARES “morrem na praia”
April 1, 2007

MAHMOUD AHMED no SET| (C) Cristina Pinto Pinto
A BBC Radio 3 divulgou no passado dia 31 de Março, no programa “World Routes” de Lucy Duran, os vencedores dos prémios de world music desta rádio estatal inglesa.
MARIZA, que já tinha ganho o galardão da edição de 2003 deste “award” referente à melhor artista europeia, não conseguiu conquistar a segunda distinção nesta categoria ganha este ano pela francesa CAMILLE. Já SARA TAVARES, nomeada pela primeira vez na qualidade de artista revelação, é superada pelo rapper somali residente no Canadá K’NAAN (uma das grandes surpresas da edição de 2006 do FMM de Sines).
Mas a maior surpresa vem da Etiópia. MAHMOUD AHMED (que esteve em muito bom plano na edição do Sons em Trânsito de 2005) conquista o galardão referente à zona geográfica africana onde se incluíam entre os nomeados ALI FARKA TOURÉ e TOUMANI DIABATÉ. No entanto, “Savane” do malogrado maliano de Niafunké recebeu o prémio referente a melhor álbum.
O indiano das ‘slide guitars’ DEBASHISH BHATTACHARYA que também já esteve no Sons em Trânsito de Aveiro notabilizou-se na zona geográfica Ásia / Pacífico. A libanesa GHADA SHBEIR é a figura maior do Norte de África / Médio Oriente. Os norte-americanos GOGOL BORDELLO do ucraniano EUGENE HUTZ (que devem pisar solo português no início do verão) destacam-se entre os artistas do continente americano, o tecno-tango dos franceses GOTAN PROJECT granjeia o prémio “Club Global” e o argelino MAURICE EL MEDIONI em duo com o cubano ROBERTO RODRIGUEZ convencem na categoria “Culture Crossing”.
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Os sete ofícios de JÚLIO PEREIRA
February 14, 2007

Ilustração da região do Baixo Alentejo impressa na capa do disco “Miradouro”
Encontra-se em fase de masterização o novo álbum de JÚLIO PEREIRA que conta com as participações vocais de SARA TAVARES e MARISA PINTO do projecto de “nu fado” DONNA MARIA. “Este é o meu regresso aos discos enquanto instrumentista, porque os dois primeiros [“Faz de Conta” e “Rituais”] foram mais de produção”, explicou o músico à agência Lusa. Neste disco, ainda sem data de edição anunciada, JÚLIO PEREIRA (bandolim) é acompanhado por BERNARDO COUTO (guitarra porutguesa) e MIGUEL VERAS (viola), numa parceria inédita em termos de trabalho em estúdio.
O músico que já tocou com os CHIEFTAINS, encontra-se também a preparar um novo espectáculo de apresentação deste novo trabalho e anda à procura de uma nova voz feminina. Até ao final de Fevereiro, decorre um “casting” dirigido a todas as “jovens cantoras urbanas (mas sem voz urbana)”. Não importa o “género musical de onde venha”, refere o comunicado, o importante é sobretudo “gostar da nossa música tradicional”. As candidatas devem enviar nome, idade, foto, experiência, disponibilidade e, se possível, um Mp3 e contacto para: vozcasting@gmail.com.
Esta semana, o músico que recuperou vários cordofones portugueses, tem estado a colaborar no filme “Fados” do realizador espanhol CARLOS SAURA, tendo feito arranjos de bandolim para o tema “Fado Tropical” que é hoje gravado em Madrid, em conjunto com CHICO BUARQUE e CARLOS DO CARMO.
A Lusa refere ainda que JÚLIO PEREIRA tem estado a desenvolver uma mapa ilustrado de Portugal na internet, desenhado por Henrique Cayatte, com referências à nossa etnografia musical portuguesa, que recupera desenhos publicados há cerca de 20 anos, na capa do álbum “Miradouro”. O projecto deverá estar pronto no final do ano (cuja primeira versão é já possível consultar na página da Internet do músico), conta com a colaboração do Instituto Camões e é dirigido sobretudo para o público escolar em Portugal e no estrangeiro. Os textos de João Luís Oliva explicam o que são os Zés Pereiras, o que é a dança fandango e o canto de trabalho leva-leva.
Júlio Pereira irá interpretar músicas típicas de todas as regiões de Portugal continental, com os temas a serem disponibilizados para audição no futuro site do mapa.
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[Reportagem SET'06; dia 3] SARA TAVARES e LO’JO: Nómadas na cidade
December 2, 2006
SARA TAVARES não tem razões para afirmar que, apesar de a maioria das pessoas a conhecerem como artista muito mediática que é, desconhecem a sua proposta musical actual. “Balancê” já conquistou o disco de ouro.
Ontem, a maioria da assistência que lotava (mais uma vez) os 600 ou 700 lugares deslocou-se ao Teatro Aveirense, sobretudo para a ver. A avaliar pelo que se passou no período temporal em que muita gente encontrava-se agarrada ao televisor a ver o Benfica controlar os segundos 45 minutos do jogo com o Sporting, a luso-caboverdiana que não tem praticamente tocado no nosso país (mas que possui uma agenda repleta de datas na Europa, América e Ásia) dava uma lição de como se conquista uma plateia aos primeiros acordes (de forma tão rápida como o golo de Ricardo Rocha em Alvalade).
Para além de uma óptima compositora que é, de gosto refinado e com muita “vibração positiva”, que parece transformar o mais empedernido coração num caloroso e afectuoso órgão, SARA TAVARES é sobretudo uma excelente comunicadora. De trato fácil, em que um “bué” (e outras expressões crioulas e do calão angolano) saídas da sua boca, soa-nos a benção. A sua música miscigenada, que tanto deve a Cabo Verde como à Lisboa multicultural, é muito equilibrada. Bebe alguma da sua inspiração no arquipélago dos seus antepassados, mas não fica aí ancorada. Voa livremente e solitariamente (como uma águia?) pelas várias africanidades da capital. Das mais autênticas e “guettizadas”, às mais urbanas e mais desenraizadas. Bica o fado, a soul, o funk, o reggae (que bela versão dub de “Balancê” no encore final, pena a melódica não se ter escutado), como o semba e o gumbé, sem se comprometer em demasia com nenhum destes géneros. O resultado final é melhor do que a soma das partes. É muito próprio. Genuíno. E ainda possui o dom de unir toda a lusofonia. O espectáculo de ontem tocou na alma e encheu de orgulho, não só cabo-verdianos, como angolanos, moçambicanos e guineenses. Ficamos ansiosamente à espera de uma digressão “a sério” pelos auditórios do país.
O “derby” da segunda circular tinha há muito terminado quando os franceses de espírito nómada (com algum sangue tuaregue no seu ADN) subiram ao palco Aveirense com a contrariedade de terem de “virar um resultado” desfavorável. Toda a euforia final que se viveu antes com SARA TAVARES foi contra-producente para o desempenho inicial dos LO’JO. Apesar do projecto do visionário DENIS PÉAN ter tido uns quinze minutos iniciais de ataque descoordenado, foi gradualmente ajustando a sua estratégia, lutando pelo empate até ao último minuto. E o melhor foi mesmo deixado para o fim: um brutal “De Timbuktu À Essakane” (que integra o mais recente álbum “Bazar Savant”), talvez a melhor canção que estes franceses criaram até hoje. No Teatro Aveirense, os LO’JO que não perderam as todas as suas qualidades criativas de diluir como ninguém a canção francesa à alma nómada africana, através de um “cocktail” de culturas sarianas e sub-sarianas, como a magrebina, a tuaregue (é este colectivo que organiza o famoso festival do deserto que se realiza anualmente no Mali), a etnia sonrai (de ALI FARKA TOURÉ) e a casta griot, e ao lado físico (leia-se ritmico) assente em algum dub jamaicano, acusaram o facto de jogar fora-de-casa, faltando a profundidade e (sobretudo) a intensidade com que nos brindaram em Loulé (e mesmo em Lisboa há meia-dúzia de anos). Como que a querer dizer-nos que a sua música deve ser consumida no verão, em altas temperaturas, a céu aberto. Se possível, sob um manto infinito de areia debaixo dos pés.
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[Reportagem SET’06; dia 3] SARA TAVARES e LO’JO: Nómadas na cidade
December 2, 2006
SARA TAVARES não tem razões para afirmar que, apesar de a maioria das pessoas a conhecerem como artista muito mediática que é, desconhecem a sua proposta musical actual. “Balancê” já conquistou o disco de ouro.
Ontem, a maioria da assistência que lotava (mais uma vez) os 600 ou 700 lugares deslocou-se ao Teatro Aveirense, sobretudo para a ver. A avaliar pelo que se passou no período temporal em que muita gente encontrava-se agarrada ao televisor a ver o Benfica controlar os segundos 45 minutos do jogo com o Sporting, a luso-caboverdiana que não tem praticamente tocado no nosso país (mas que possui uma agenda repleta de datas na Europa, América e Ásia) dava uma lição de como se conquista uma plateia aos primeiros acordes (de forma tão rápida como o golo de Ricardo Rocha em Alvalade).
Para além de uma óptima compositora que é, de gosto refinado e com muita “vibração positiva”, que parece transformar o mais empedernido coração num caloroso e afectuoso órgão, SARA TAVARES é sobretudo uma excelente comunicadora. De trato fácil, em que um “bué” (e outras expressões crioulas e do calão angolano) saídas da sua boca, soa-nos a benção. A sua música miscigenada, que tanto deve a Cabo Verde como à Lisboa multicultural, é muito equilibrada. Bebe alguma da sua inspiração no arquipélago dos seus antepassados, mas não fica aí ancorada. Voa livremente e solitariamente (como uma águia?) pelas várias africanidades da capital. Das mais autênticas e “guettizadas”, às mais urbanas e mais desenraizadas. Bica o fado, a soul, o funk, o reggae (que bela versão dub de “Balancê” no encore final, pena a melódica não se ter escutado), como o semba e o gumbé, sem se comprometer em demasia com nenhum destes géneros. O resultado final é melhor do que a soma das partes. É muito próprio. Genuíno. E ainda possui o dom de unir toda a lusofonia. O espectáculo de ontem tocou na alma e encheu de orgulho, não só cabo-verdianos, como angolanos, moçambicanos e guineenses. Ficamos ansiosamente à espera de uma digressão “a sério” pelos auditórios do país.
O “derby” da segunda circular tinha há muito terminado quando os franceses de espírito nómada (com algum sangue tuaregue no seu ADN) subiram ao palco Aveirense com a contrariedade de terem de “virar um resultado” desfavorável. Toda a euforia final que se viveu antes com SARA TAVARES foi contra-producente para o desempenho inicial dos LO’JO. Apesar do projecto do visionário DENIS PÉAN ter tido uns quinze minutos iniciais de ataque descoordenado, foi gradualmente ajustando a sua estratégia, lutando pelo empate até ao último minuto. E o melhor foi mesmo deixado para o fim: um brutal “De Timbuktu À Essakane” (que integra o mais recente álbum “Bazar Savant”), talvez a melhor canção que estes franceses criaram até hoje. No Teatro Aveirense, os LO’JO que não perderam as todas as suas qualidades criativas de diluir como ninguém a canção francesa à alma nómada africana, através de um “cocktail” de culturas sarianas e sub-sarianas, como a magrebina, a tuaregue (é este colectivo que organiza o famoso festival do deserto que se realiza anualmente no Mali), a etnia sonrai (de ALI FARKA TOURÉ) e a casta griot, e ao lado físico (leia-se ritmico) assente em algum dub jamaicano, acusaram o facto de jogar fora-de-casa, faltando a profundidade e (sobretudo) a intensidade com que nos brindaram em Loulé (e mesmo em Lisboa há meia-dúzia de anos). Como que a querer dizer-nos que a sua música deve ser consumida no verão, em altas temperaturas, a céu aberto. Se possível, sob um manto infinito de areia debaixo dos pés.
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[entrevista SARA TAVARES]: Orgulho Crioulo
September 14, 2006
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(c) Jurrien Wouterse
Nasceu em Portugal, mas é 100% africana. Fillha de pais cabo-verdianos, cresceu e foi educada pelos avós. Tornou-se figura pública por ter ganho aos 16 anos o concurso televisivo “Chuva de Estrelas” e por ter colaborado com vários músicos de grande exposição mediática como a ALA DOS NAMORADOS (em “Solta-se o Beijo”). Tem já três discos gravados. “Balancé” é a pérola maior que reflecte a persistência de quem acredita no “trabalho pelo trabalho”. Um disco que balança entre duas culturas, feito de inúmeros afectos e cumplicidades.
SARA TAVARES é, talvez, a única artista portuguesa que não canta fado e que já conquistou os placos internacionais. Da Europa à América e à Ásia. A concorrida agenda fala por si. É a negra (coisa rara!) que dá a cara a uma massiva campanha publicitária de um banco português. É a artista que os portugueses bem conhecem da televisão, mas que não conhecem da obra maior “Balancé”.
Há dias, Pedro Rolo Duarte, comentava no DN (a propósito dos “cavalos” oferecidos com os jornais) que os portugueses eram o povo da Europa que mais dicionários com letra “A” coleccionavam, porque o primeiro fascículo é sempre grátis. As Crónicas da Terra desejam que os cidadãos que habitam o nosso país possam conhecer mais temas de “Balancé”, para além de “Bom Feeling”. Tema que é oferecido em CD single nessa instituição bancária, ao fazermos uma simulação de crédito para compra de casa.
Já agora SARA, que tal retirares o “Bom Feeling” do teu My Space e colocares temas como “Ess Amor”, “One Love” ou “Planeta Sukri” ?
Deixo-vos com parte da entrevista realizada no programa de rádio Terra Pura, há cerca de dois meses atrás.
A tua história de vida é um pouco atribulada. De qualquer forma conseguiste encontrar forças para te afirmares para sobressaíres.
Acho que não foi muito consciente essa questão da afirmação. Mais uma questão de viver e de me expressar. Sempre amei essa expressão de “ser da música”. Sempre me acompanhou desde miúda. Tinha os ouvidos aguçados para ouvir música. Adorava. Depois foi um processo de olhar para as coisas com olhos de ver, inclusive para mim mesma.
Vemos grande parte desta segunda geração de filhos de imigrantes que cresceram em Portugal a sentir uma certa falta de identidade e a revoltarem-se contra os pais e contra a nossa sociedade. Mas aquilo que sobressai da tua música e do teu discurso é sempre uma mensagem positiva, calorosa. Onde é que vais buscar essa energia positiva que te impede de também seres uma pessoa revoltada?
Os poemas que ponho nos discos já são coisas filtradas. Também tenho os meus momentos de revolta, de baixa auto-estima. Acho que aqueles que, como eu, são africanos e nasceram e Portugal precisam muito de fazer subir a sua auto-estima, sobretudo os que são filhos de pais separados. Os miúdos estão muito sozinhos. Há a massificação da cultura pela MTV e pela rádio, que não é a nossa. Olhamos para nós e verificamos que não somos iguais a eles. Isto é uma coisa que se passa com os filhos de pais africanos e não só. Passa-se com o povo português em geral e com a África Lusófona. A auto-estima é muito baixa por que não há referências nossas na comunicação social em geral que sejam celebradas, exaltadas. Da minha parte, acho que tenho os valores com os quais fui educada. A minha avó transmitiu-me valores muito interessantes: o trabalho pelo trabalho, o ser humano pelo ser humano, independentemente da sua origem e da sua aparência. Também sou uma pessoa com uma formação cristã, que acredita no amor ao próximo.
És uma cristã praticante?
Não sei o que isso quer dizer.
Fazes a tua oração diariamente?
Sim. Não tenho rituais específicos. Tenho uma relação com Deus bastante viva.
Sentes Deus dentro de ti…
…dentro, fora, à volta, em todas as coisas bonitas e em todos os desafios do dia-a-dia. Sinto que a minha questão de crença tem a ver que a minha passagem neste mundo é uma escola de evolução e uma ponte para me levar à minha raiz que é Deus.
Relativamente aos músicos de origem africana da tua geração que nasceram ou vivem em Portugal e que se têm afirmado internacionalmente, vemos que a Mariza que se dedicou ao fado. Já tanto Lura como a Nancy Vieira (ainda não é conhecida internacionalmente mas para lá caminha) afirmam-se mais pelo lado da tradição cabo-verdiana. Tu estás aqui um pouco no meio, no lado mestiço. É esta música mestiça que faz com que sejas tu própria?
Tem a ver com o partilhar daquilo que eu sou. Mais do que partilhar uma bandeira. Não há patriotismo em mim porque daí teria de escolher entre Portugal e Cabo Verde e o caso ficaria mal parado. Prefiro congregar essas duas riquezas minhas (culturalmente) que se cruzam entre si. Há muitas outras coisas que são transversais à cultura crioula e à cultura portuguesa. Toda a história em comum. Sou uma jovem e detecto à minha volta uma identidade muito especial que nasce do cruzamento entre duas culturas, que nasce da imigração, dos filhos de segunda geração e da diáspora africana em Portugal. Achei pertinente falar e celebrar isso, mais do que celebrar uma tradição que eu não conheço, que eu não vivi, seja ela cabo-verdiana ou portuguesa. Cresci em Portugal a ouvir música soul americana e pop inglesa na rádio. Porque foi aquilo que sempre nos deram. Porque a música portuguesa (e todas as outras) sempre foi segregada para um cantinho. Não tive essa escola e não me sentiria muito bem a defendê-la. Se bem que nos últimos anos tenho ido muito beber à folk de Cabo Verde e tenho integrado isso na minha forma de expressão, de tocar guitarra, de compor. Mas pretendo sempre fazê-lo à minha maneira, mesmo para exaltar perante as pessoas da minha idade, que estão na minha situação, que é bom sermos como somos. Não temos de ser mais cabo-verdianos e menos portugueses, nem vice-versa. Só temos de ser 100% nós mesmos.
O que é que aconteceu entre o primeiro disco e o segundo em que fizeste uma pesquisa da música de África (não apenas cabo-verdiana)?
Ouvi muita coisa. Tudo o que não era americano conhecia quase zero. Houve um crescer, olhar para o espelho, detectar em mim uma “africanidade” mais pela genética, pela forma como gingava, como fazia ritmos. Estava muito apaixonada pela percussão nessa altura. Uma coisa levou à outra.
Como é que entraste em contacto com o congolês LOKUA KANSA que acabou de produzir o segundo disco?
Muito simples. Ouvi um disco dele e gostei imenso. Na altura já tinha estado em Inglaterra e nos Estados Unidos a fazer pré-produção e a compor com alguns compositores de lá. Andava à procura de um produtor e não estava satisfeita porque achava que ninguém entendia aquilo que queria fazer: uma coisa que tivesse afro mas que fosse situado no mundo…
… um afro-europeu a partir de Lisboa?
Sim. Então, não encontrei essa consciência na América e em Inglaterra. O LOKUA embora não seja um africano da lusofonia é um africano que vive em Paris, é um homem virado para fora, extremamente enraizado na cultura congolesa, mas que experimenta muito. A música dele é de fusão, muito aberta. Ouvi um disco dele e amei-o. Entrámos em contacto com ele. Foi super simples e acessível. Mostrou-se super-cativado em trabalhar comigo e aí compusemos juntos e fizemos um disco.
Entre o segundo disco e o “Balancé” há um hiato de uns seis anos. Foi o tempo de efectuares uma nova introespecção, uma nova pesquisa pela música africana?
Desta vez não tanto da música africana, do que me rodeava, mas daquilo que estava cá dentro. Optei por fazer a pré-produção sozinha porque queria mesmo saber o que é que se passava cá dentro. Tinha andado a receber estímulos de fora, queria partilhar aquilo que era o meu âmago, para não me parecer a mim própria “Maria-vai-com-as-outras”. Queria provar a mim mesma que não estava a seguir uma tendência, porque a “world music” tem sido uma tendência difícil de resistir nos últimos anos. Um escape àquilo que é o “mainstream”.
Há também muita “mainstream” na “world music”. Esta designação é um “selo” que permite vender determinados artistas que não são anglo-saxónicos.
Quando falo em “mainstream”, falo em “top 10”. No que passa na MTV. Estes seis anos serviram para me agarrar à guitarra. Sou uma tocadora muito rudimentar. Com todo o meu tempo e o meu vagar, este tempo serviu para juntar acordes, juntar poemas e falar dessa identidade interior, pessoal.
“Balancé” é também um álbum de afectos com várias pessoas, de várias áreas. Isto é Lisboa. Sítio onde podes contactar com brancos, negros, mestiços, que tocam fado, dança, funk, hip hop. É essa a mais-valia da miscigenação?
Lisboa para mim é uma cidade fantástica. Adoro viver aqui. Há esses encontros constantes. No caso do “Balancé” foram encontros com quem tinha uma relação de alma, com a qual me identificava muito e achei ali uma oportunidade. Achei que havia ali um espaço para elas se expressarem também. Que havia ali algo em comum e queria muito falar dessa coisa do “comum”. A lusofonia é um jogo de cumplicidades entre vários tons da maneira de ser português. Achei e acho que fora de Portugal o que se conhece mais do nosso país é sempre aquela coisa mais temática do fado, do “português branco”. Quis mostrar que Portugal é bem mais do que isso, que é um universo muito vasto.
Lá fora, anunciam-te muitas vezes como uma artista cabo-verdiana. Muitas vezes também dizem que és uma artista portuguesa…
Sim. Muitas vezes anunciam-me como artista portuguesa. Eles ficam confusos com essa questão da dupla culturalidade. Muita gente não conhece a história da lusofonia. Olham para mim, sou negra de cor, a minha música esteticamente é bem mais africana do que portuguesa. Onde detectas o português é nas letras. Ainda assim há muitas canções escritas em calão, há muita gíria de influência africana. Sou uma africana em Portugal, mas sou 100% geneticamente africana. Acho que isso sobressai bastante na minha música. A terem de me idenficar com algum lado, acabam por dizer que sou africana de segunda geração. Mas também há muitas situações em que me apresentam como portuguesa e o público aparece lá à espera de uma mulher de xaile a cantar fado. Deparam ali com uma africana à frente deles. Ficam curiosos. Aproveito para partilhar esta nossa realidade diferente.
[1ª parte]
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