MARI BOINE: «SAY IT LOUD, I’M SAMI AND I’M PROUD»
February 15, 2008 by Luís Rei
Filed under Actual, Entrevistas
Não. MARI BOINE não lutou pelos direitos civis da população negra norte-americana, mas é uma espécie de zapatista Sami, que tem contribuído para que o seu povo, aqueles que “foram empurrados para o tecto do mundo”, sintam mais orgulho na sua cultura e na sua etnia.

Antes de passar este fim-de-semana pelo Teatro Municipal da Guarda e pela Culturgest em Lisboa, a cantora sami que vive na Noruega, participou na segunda edição do Festival Sons em Trânsito. A entrevista que se segue, realizou-se a 30 de Novembro de 2004, no próprio dia da sua actuação no Teatro Aveirense. Nessa altura, MARI BOINE preparava-se para descansar um pouco e para depois disso pensar no álbum que viria a editar em 2006, “Idjagiedas”. Uma obra que marcou um regresso às origens, a uma sonoridade mais orgânica, após a experimentação electrónica com o produtor de electro-jazz norueguês Bugge Wasseltoft, em “Eight Seasons” (2002) e do lançamento do disco “Remixed” (2001), que incluía remisturas de alguns dos temas mais simbólicos da sua carreira. Nesta conversa, MARI BOINE não renegou a hipótese de voltar a incluir electrónica em discos futuros, mas diz que é preciso «ir com calma». É preciso que isso não “retire a espiritualidade à minha voz”. Pode pressupor-se que o resultado de “Eight Seasons” e do álbum de remisturas não foi inteiramente do seu agrado. Boine escuda-se. Afima: “não é que não goste de trabalhar com electrónica, mas não é isso que quero fazer no futuro”; e destaca apenas duas ou três remisturas de que realmente gostou: as de “Gula Gula”, uma realizada pelos BIOSPHERE, a outra pelo seu saxofonista.
A pausa de cerca de dois anos que ocorreu depois do lançamento de “Room of Worship” (1998), permitiu a Mari participar em vários projectos com outros músicos de gélidas latitudes: com os FARLANDERS, com quem gravou o disco “Winter In Moscow” e com o projecto multinacional VERSHKI DA KORESHKI que envolvia dois artistas também russos, um senegalês, um indiano e o cantor dos HUUN HUUR TU de Tuva. Tempos conturbados em que parte dos elementos da banda de MARI BOINE foram à sua vida, colaborando com o queniano AYUB OGADA, ou multiplicando-se em inúmeros projectos, como é o caso da criativa violinista HEGE RIMESTAD. “Foi como um divórcio, por vezes não consegues compreender o que aconteceu”, tenta MARI BOINE explicar a causa afastamento desta norueguesa. Da anterior formação, restam agora apenas dois elementos. Destaque óbvio para o peruano das flautas, CARLOS QUISPE. Para a «yoikker», ele é um elemento chave na formação devido à sua “espiritualidade e profundidade enquanto ser humano”. Homem das montanhas andinas, que dá uma tonalidade mais xamânica ao projecto.
Zapatista xamânica.
A sua música, além de combinar arranjos de jazz com yoik, tem uma veia extremamente xamânica. Se repararmos, os xamans encontram-se em partes difusas do nosso planeta. Na Lapónia, na Sibéria, na Austrália, nas Américas. Que leitura faz deste “puzzle” com pedaços espalhados pelo mundo? Como é que a sua música recebe essas influências?
É a cultura original de todo o ser humano. Era a cultura que vigorava quando o homem estava muito próximo da natureza. Não é exclusivo apenas da Lapónia, existe até mesmo na Europa. A Cultura Celta tem esses elementos. É quando se torna interessante. A minha cultura não é apenas restrita ao local de onde venho, é universal. É como um tesouro que certas pessoas tiveram o privilégio de o preservar. Não percas isto! Este é o teu presente.
Quando os Cristãos colonizaram a Noruega, proibiram que se cantasse o yoik e queimaram todos os “Shaman Drums”, além dos violinos tatuados. «Era a música do diabo», diziam eles. Ainda cresceu no seio de uma geração em que era proibido cantar «joik» e falar-se o seu dialecto sami nas escolas. Até que ponto é que este panorama se tem alterado?
Agora as nossas crianças já falam sami nas escolas e cantam yoik sem restrições. No entanto, continua a haver um grupo cristão muito fundamentalista. Afirma que não deve ensinar as crianças a cantar desta forma e que o yoik nunca será permitido na igreja.
É o medo que eles têm dentro deles acerca da natureza. Se olhar para a história, observa o que Inquisição fez. Durante todos estes anos, temos lutado contra algo que está dentro de nós. O homem a lutar contra sua a natureza. Gosto de ver isto como um todo, não apenas como uma simples opressão Sami. O opressor oprime uma parte de si próprio. Precisamos de voltar a ter esta ligação com a natureza e de ter orgulho nisso.
Considera-se uma Zapatista Sami?
Não sei o que é o Zapatismo.
É o símbolo de resistência indígena no México liderado pelo Subcomandante Marcos que, através de canções e poemas tem tentado chamar a atenção dos média mundiais para a luta dos direitos dos indígenas mexicanos a não abdicarem das suas terras.
Penso que é o que sou (ri-se). Mas penso que na Escandinávia a situação social para o meu povo é muito melhor do que a dos Mexicanos. No entanto, continua a haver discussão sobre posse de terras. É uma situação difícil para a Escandinávia aceitar isso. Não somos noruegueses, finlandeses ou suecos, somos uma comunidade que possuía essas terras antes de sermos colonizados. Isto é algo que está a começar a ser discutido.
Ao longo de quase vinte anos de carreira como cantora de intervenção, o que é que conseguiu conquistar para a sua causa e para o seu povo?
As pessoas sentem-se mais orgulhosas em serem Samis. Já não se sentem tão envergonhadas. Os jovens têm ídolos Samis, o que é importante para esta geração. Fala-se mais abertamente de como nos sentíamos envergonhados da nossa cultura. Muitos Samis queriam esquecer a sua cultura, a sua língua e falavam com os seus filhos em norueguês. Isto tem mudado. Tem havido maior abertura. Essa mudança só se dá quando as pessoas se tornam mais orgulhosas de si próprias. As mudanças não vêm de um governo, vem de um povo que começa a sentir-se orgulhoso.
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Um presente da Lapónia chamado MARI BOINE
Vem da Lapónia, costuma vestir-se de vermelho e passa por Lisboa a 16 de Fevereiro. Felizmente, não é o pai natal.
MARI BOINE, respeitável artista sami que, ao longo de cerca de duas décadas de carreira musical, tem devolvido o orgulho pelas tradições e costumes milenares à minoria étnica que vive no extremo norte da Noruega (outras etnias Sami vivem também na Suécia, Finlândia e Rússia) e que sempre soube misturar o canto «yoik» (dos Samis) com jazz, música electrónica e até várias músicas indígenas e xamânicas da América Latina, Ásia Central e África, regressa ao nosso país, a 16 de Fevereiro, para apresentar repertório do seu último disco “Idjagiedas” (“Na Mão da Noite”) editado em 2006. Depois de ter actuado em Aveiro, na edição de 2003 do Sons em Trânsito, MARI BOINE, actua (finalmente) em Lisboa, na acolhedora sala da Culturgest. Os bilhetes variam entre os 18€ e os 5€ (para menores de 30 anos).
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Terra Pura 29NOV07
Rádio Zero - Segunda a Sexta-feira 18h às 19h. Repete no dia seguinte entre as 8h e as 9h da manhã.
Viagem europeia pelo universo musical feminino com as belgas LAÏS, o projecto basco BIDAIA onde pontifica a sanfoneira norte-americana CAROLINE PHILLIPS, as galegas FALTRIQUEIRA e os MARFUL da exuberante UGIA PEDREIRA, além de ZULYA AND THE CHILDREN OF THE UNDERGROUND da República Tartaristão situado na Federação Russa. Passagem ainda por alguns dos protagonistas do Sons em Trânsito deste fim-de-semana: VINICIO CAPOSSELA e TCHEKA.
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TCHEKA em Lisboa, Aveiro e Fnac’s
MANUEL LOPES ANDRADE, puto maravilha da música gravada actualmente em Cabo-Verde, comummente conhecido por TCHEKA, regressa ao nosso país para apresentar o seu último álbum “Longi”, disco produzido pelo brasileiro LENINE que confere um cariz cada vez mais global e experimental à música de Santiago. Para além do espectáculo (já anunciado neste espaço) em Aveiro, no Festival Sons em Trânsito (a 30 de Novembro), TCHEKA apresenta oficialmente este seu terceiro disco, a 17 de Novembro, no Cinema São Jorge em Lisboa. A par destes dois grandes concertos, haverão ainda vários showcases em Fnac’s da zona da grande Lisboa: No Colombo (já esta sexta-feira, às 18h), Em Almada (11 de Novembro, às 17h), no Chiado e na recém-inaugurada loja de Alfragide (a 20 de Novembro, às 18h30 e 21h, respectivamente). Durante este mês e o próximo, TCHEKA efectuará cerca de uma dúzia de espectáculos em França, Eslovénia, República Checa, Japão, Bélgica e Holanda. A acompanhar TCHEKA estarão LÚCIO VIEIRA (baixo) e MARCOS ALVES (percussão) e RUBEN ALVES (acordeão, como convidado especial).
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Sons em Trânsito mais ocidental e teatral e menos “exótico”
Entre os dias 28 de Novembro e 1 de Dezembro, realiza-se mais uma edição do Sons em Trânsito, nobre festival “world” de inverno e de auditório. Este ano, volta a não haver itinerância, mantendo-se a fórmula original (os quatro dias de festival realizam-se no Teatro Aveirense de Aveiro). À semelhança do ano passado o programa apresenta curiosas intersecções entre o caldeirão “world” e expressões musicais mais ligadas ao teatro e ao cinema.
A 28 de Novembro, a FANFARE CIOCARLIA regressa para apresentar, pela segunda vez no nosso país, o espectáculo “Queens and Kings” que reúne a constelação de estrelas da música cigana dos balcãs (e não só).
No dia seguinte (29 de Novembro) vinga a arte de bem escrever canções com aquele é que é, talvez, o mais interessante projecto nacional sem disco gravado (DEOLINDA) e o verdadeiro poeta SÉRGIO GODINHO.
A 30 de Novembro, o palco do Aveirense recebe o virtuoso guitarrista cabo-verdiano TCHEKA que apresenta em Aveiro o seu mais recente (e brilhante) disco “Longi” produzido pelo brasileiro LENINE. Segue-se a acriz e cantora francesa JANE BIRKIN (na foto) conhecida mundialmente pelo dueto “J’Taime (Moi Non Plus) com SERGE GAINSBURG. BIRKIN traz na bagagem “Fictions”, uma colecção de pérolas assinadas (algumas delas) por gente ilustre como TOM WAITS e NEIL YOUNG, com arranjos de RENAUD LETANG e GONZALES.
É, curiosamente, o pianista canadiano GONZALES que abre o último dia de festival (1 de Dezembro) para o italiano VINICIO CAPOSSELA. Homem de múltiplos talentos, de mil e uma músicas e responsável pelo melhor espectáculo do Med de Loulé deste ano.
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MAHMOUD AHMED: Caça ao tesouro Amárico
May 23, 2007 by Luís Rei
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MAHMOUD AHMED no SET | ©Cristina Pinto Pinto
MAHMOUD AHMED | Sons Em Trânsito | Teatro Aveirense| 1 de Dezembro de 2005 | meia casa

MAHMOUD AHMED é uma das grandes figuras da música africana que passará pelo FMM de Sines deste ano, a 26 de Julho. Este espaço recupera a apreciação do espectáculo de há ano e meio atrás, no Sons em Trânsito de Aveiro.
MAHMOUD AHMED pode ter levando muita pancada ao longo da vida. Pode ser uma pessoa introvertida, tímida, mas exorciza em palco todos os demónios que o querem acompanhar. Ao cantar em em língua amárica de forma poderosa (tendo conseguido contornar sempre uma certa limitação vocal de rouquidão provocada pela brusca mudança de temperatura entre o seu e o nosso país), ergue o polegar, como se nos tivesse a avisar para termos muito cuidado, pois o perigo espreita por todas as frestas. O modo como canta é de tal forma intenso, inflamado que, apesar de não percebermos uma palavra que seja, conseguimos sentir tudo aquilo que o etíope nos tenta transmitir. À semelhança da expressividade dos “lautaris” ciganos romenos da TARAF DE HAÏDOUKS.
O mais curioso é que a sua banda, sem possuir um único instrumento a que se possa apelidar de tradicional africano, de a sua música ser de fusão com soul, r&b, funk e jazz americano, toca de forma profunda na alma africana. Dois sexy-saxofones tenores que piscam o olho ao afro-beat de Lagos, um teclado e um baixo groovie q.b., uma guitarra a fazer lembrar, por vezes, os esguios rendilhados zairenses e uma bateria, conduzem-nos por uma viagem sonora à multi-culturalidade de África. Através de um caminho obscuro, algo nebuloso (como se estivéssemos em Bruxelas durante três meses debaixo de chuva intensa, ou num bunker de uma cidade debaixo sob fogo aéreo), com algumas abertas pelo meio a demonstrar um sol radioso, expressas nos momentos de transe que evocam os espíritos gnawa do norte de África e numa certa pureza e beleza melódica, capaz de evocar a toda a alegria da música nubiana (superiormente expressa no malogrado ALI HASSAN KUBAN e nos seus discípulos SALAMAT).
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[reportagem SET'06; dia 4] ALDINA DUARTE, RENÉ AUBRY e DAZKARIEH: Memórias do futuro
December 4, 2006 by Luís Rei
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Acto I. Num futuro próximo em que o fado deixará de estar na moda, sobreviverão as personagens menos espalhafatosas. Manter-se-ão firmes as figuras mais sérias que prescindem do floreado das indumentárias e das estratégias para contagiar instantaneamente uma plateia.
Terão uma vida mais longa aqueles que sabem que o fado é como uma “religião”, mas uma “religião” saudável, que deve ser praticada de alma e coração, com descrição e profundo respeito pelos símbolos “religiosos” (não como uma celebração matinal de uma nova igreja repleta de pastores brasileiros exímios em comunicar com os crentes), por uma certa conduta que trate o fado, mais como uma arte, do que como entretenimento descartável.
É com a devoção de um crente, que pratica diariamente a humildade perante Deus, que ALDINA DUARTE, toda ela, respira fado. Do mais tradicional e puro. Interpretando canções simples (acompanhada de viola e de guitarra portuguesa), despidas de artifícios, cujos poemas de João Monge interpretados com uma grande carga emocional, dão uma outra aragem ao fado que não sofreu metamorfose estética.
A entrada de ALDINA no Aveirense foi difícil, à procura do registo certo, com uma plateia um pouco distante que se tornou extremamente calorosa e emotiva a partir do momento em que a fadista se agigantou como intérprete (lá para ou sexto ou sétimo fado). A sua indumentária negra, sofisticada mas discreta, o xaile também preto, a postura em palco, variando entre o estar de pé e de braços cruzados e o estar sentada no meio e ao lado e à frente dos instrumentistas que a acompanhavam, com movimentos estudados, deram outra segurança a Aldina. Conquistou aos poucos um “território” que não é o seu habitat natural (a casa de fados). Respeitou sempre a nobreza desta arte, ao empregar toda a emotividade crua nos seus fados, ao não permitir, por exemplo, as palminhas da assistência em “Xaile Vermelho”. Acabou em grande, com a plateia (e o primeiro balcão) rendida de pé, a aplaudi-la.
Acto II. Para quem nunca tinha ouvido um disco sequer, RENÉ AUBRY revelou-se uma muito agradável surpresa. Prolífico compositor para dança (Pina Bausch) e cinema, o autor de “Mémoires du Futur” (último de 15 álbuns gravados) apresentou-se no Teatro Aveirense com uma espécie de orquestra “fake”, que nos faz lembrar um PASCAL COMELADE a utilizar instrumentos de gente adulta. Ao decompor harmonias clássicas, ao passar por territórios jazzísticos e roqueiros (com picos de clarinete-baixo de grande intensidade, à ALAMAAILMAN VASARAT, a fazer-nos crer que a ORQUESTRINHA DO TERROR andou a consumir a discografia de AUBRY) e por alguma música tradicional europeia e norte-americana (folk britânico? rembetika? bluegrass?), o multi-instrumentista AUBRY (que neste espectáculo pega em vários cordofones: guitarra, banjo, bandolim) evoca a beleza inocente e informal de uma PENGUIN CAFÉ ORQUESTRA do malogrado SIMON JEFFS. Muitas das suas composições de visão futurista, mas apegadas ao passado assentavam que nem ginjas como banda sonora de um “Delicatessen” ou de uma “Cidade das Crianças Perdidas” de Jeunet e Caro. É o urgente o seu regresso ao nosso país.
Acto III. Depois dos dois espectáculos na sala do TA, a organização do SET reservou a apoteose final para o salão nobre deste teatro. Os DAZKARIEH são hoje em dia uma das mais promissoras bandas folk lusitanas de uma nova e interessante fornalha que, além de trazer outros timbres a temas tradicionais portugueses, representa a tentativa mais bem sucedida de unir a folk portuguesa e do norte da Europa, com o noise-rock de escola nova-iorquina dos Sonic Youth. Um dos futuros possíveis para a música folk feita em Portugal, passará por aqui. Não só porque a banda integra três instrumentistas de primeira água, muito entrosados entre si, como têm sabido renovar a sua proposta, tornado-se cada vez mais coerente e consistente. Longe vão os tempos de repertório mais ambicioso (geograficamente) e anárquico (na forma de o interpretar). O quarteto que este ano já passou pelo FMM de Sines e o Med de Loulé, tem conquistado hordas de fãs. São actualmente um fenómeno de culto que arrasta consigo muitos adeptos que se deslocaram a Aveiro só para os ver (tendo dispensado os dois anteriores espectáculos). Audiência essa que, ao contrário deste escriba que não suportou o mau som (bem pior do que aquele que o Mercado da Ribeira em Lisboa usualmente nos oferece), manteve-se heroicamente até ao final da actuação. Tanto a organização do SET’06, como os DAZKARIEH, mereciam um final diferente. Não só porque a primeira conseguiu manter a qualidade dos “ovos moles” com menos ingredientes, a segunda porque tem sido um exemplo de organização e capacidade de iniciativa, rara no nosso meio musical.
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[reportagem SET’06; dia 4] ALDINA DUARTE, RENÉ AUBRY e DAZKARIEH: Memórias do futuro
December 4, 2006 by
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Acto I. Num futuro próximo em que o fado deixará de estar na moda, sobreviverão as personagens menos espalhafatosas. Manter-se-ão firmes as figuras mais sérias que prescindem do floreado das indumentárias e das estratégias para contagiar instantaneamente uma plateia.
Terão uma vida mais longa aqueles que sabem que o fado é como uma “religião”, mas uma “religião” saudável, que deve ser praticada de alma e coração, com descrição e profundo respeito pelos símbolos “religiosos” (não como uma celebração matinal de uma nova igreja repleta de pastores brasileiros exímios em comunicar com os crentes), por uma certa conduta que trate o fado, mais como uma arte, do que como entretenimento descartável.
É com a devoção de um crente, que pratica diariamente a humildade perante Deus, que ALDINA DUARTE, toda ela, respira fado. Do mais tradicional e puro. Interpretando canções simples (acompanhada de viola e de guitarra portuguesa), despidas de artifícios, cujos poemas de João Monge interpretados com uma grande carga emocional, dão uma outra aragem ao fado que não sofreu metamorfose estética.
A entrada de ALDINA no Aveirense foi difícil, à procura do registo certo, com uma plateia um pouco distante que se tornou extremamente calorosa e emotiva a partir do momento em que a fadista se agigantou como intérprete (lá para ou sexto ou sétimo fado). A sua indumentária negra, sofisticada mas discreta, o xaile também preto, a postura em palco, variando entre o estar de pé e de braços cruzados e o estar sentada no meio e ao lado e à frente dos instrumentistas que a acompanhavam, com movimentos estudados, deram outra segurança a Aldina. Conquistou aos poucos um “território” que não é o seu habitat natural (a casa de fados). Respeitou sempre a nobreza desta arte, ao empregar toda a emotividade crua nos seus fados, ao não permitir, por exemplo, as palminhas da assistência em “Xaile Vermelho”. Acabou em grande, com a plateia (e o primeiro balcão) rendida de pé, a aplaudi-la.
Acto II. Para quem nunca tinha ouvido um disco sequer, RENÉ AUBRY revelou-se uma muito agradável surpresa. Prolífico compositor para dança (Pina Bausch) e cinema, o autor de “Mémoires du Futur” (último de 15 álbuns gravados) apresentou-se no Teatro Aveirense com uma espécie de orquestra “fake”, que nos faz lembrar um PASCAL COMELADE a utilizar instrumentos de gente adulta. Ao decompor harmonias clássicas, ao passar por territórios jazzísticos e roqueiros (com picos de clarinete-baixo de grande intensidade, à ALAMAAILMAN VASARAT, a fazer-nos crer que a ORQUESTRINHA DO TERROR andou a consumir a discografia de AUBRY) e por alguma música tradicional europeia e norte-americana (folk britânico? rembetika? bluegrass?), o multi-instrumentista AUBRY (que neste espectáculo pega em vários cordofones: guitarra, banjo, bandolim) evoca a beleza inocente e informal de uma PENGUIN CAFÉ ORQUESTRA do malogrado SIMON JEFFS. Muitas das suas composições de visão futurista, mas apegadas ao passado assentavam que nem ginjas como banda sonora de um “Delicatessen” ou de uma “Cidade das Crianças Perdidas” de Jeunet e Caro. É o urgente o seu regresso ao nosso país.
Acto III. Depois dos dois espectáculos na sala do TA, a organização do SET reservou a apoteose final para o salão nobre deste teatro. Os DAZKARIEH são hoje em dia uma das mais promissoras bandas folk lusitanas de uma nova e interessante fornalha que, além de trazer outros timbres a temas tradicionais portugueses, representa a tentativa mais bem sucedida de unir a folk portuguesa e do norte da Europa, com o noise-rock de escola nova-iorquina dos Sonic Youth. Um dos futuros possíveis para a música folk feita em Portugal, passará por aqui. Não só porque a banda integra três instrumentistas de primeira água, muito entrosados entre si, como têm sabido renovar a sua proposta, tornado-se cada vez mais coerente e consistente. Longe vão os tempos de repertório mais ambicioso (geograficamente) e anárquico (na forma de o interpretar). O quarteto que este ano já passou pelo FMM de Sines e o Med de Loulé, tem conquistado hordas de fãs. São actualmente um fenómeno de culto que arrasta consigo muitos adeptos que se deslocaram a Aveiro só para os ver (tendo dispensado os dois anteriores espectáculos). Audiência essa que, ao contrário deste escriba que não suportou o mau som (bem pior do que aquele que o Mercado da Ribeira em Lisboa usualmente nos oferece), manteve-se heroicamente até ao final da actuação. Tanto a organização do SET’06, como os DAZKARIEH, mereciam um final diferente. Não só porque a primeira conseguiu manter a qualidade dos “ovos moles” com menos ingredientes, a segunda porque tem sido um exemplo de organização e capacidade de iniciativa, rara no nosso meio musical.
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[Reportagem SET'06; dia 3] SARA TAVARES e LO’JO: Nómadas na cidade
December 2, 2006 by Luís Rei
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SARA TAVARES não tem razões para afirmar que, apesar de a maioria das pessoas a conhecerem como artista muito mediática que é, desconhecem a sua proposta musical actual. “Balancê” já conquistou o disco de ouro.
Ontem, a maioria da assistência que lotava (mais uma vez) os 600 ou 700 lugares deslocou-se ao Teatro Aveirense, sobretudo para a ver. A avaliar pelo que se passou no período temporal em que muita gente encontrava-se agarrada ao televisor a ver o Benfica controlar os segundos 45 minutos do jogo com o Sporting, a luso-caboverdiana que não tem praticamente tocado no nosso país (mas que possui uma agenda repleta de datas na Europa, América e Ásia) dava uma lição de como se conquista uma plateia aos primeiros acordes (de forma tão rápida como o golo de Ricardo Rocha em Alvalade).
Para além de uma óptima compositora que é, de gosto refinado e com muita “vibração positiva”, que parece transformar o mais empedernido coração num caloroso e afectuoso órgão, SARA TAVARES é sobretudo uma excelente comunicadora. De trato fácil, em que um “bué” (e outras expressões crioulas e do calão angolano) saídas da sua boca, soa-nos a benção. A sua música miscigenada, que tanto deve a Cabo Verde como à Lisboa multicultural, é muito equilibrada. Bebe alguma da sua inspiração no arquipélago dos seus antepassados, mas não fica aí ancorada. Voa livremente e solitariamente (como uma águia?) pelas várias africanidades da capital. Das mais autênticas e “guettizadas”, às mais urbanas e mais desenraizadas. Bica o fado, a soul, o funk, o reggae (que bela versão dub de “Balancê” no encore final, pena a melódica não se ter escutado), como o semba e o gumbé, sem se comprometer em demasia com nenhum destes géneros. O resultado final é melhor do que a soma das partes. É muito próprio. Genuíno. E ainda possui o dom de unir toda a lusofonia. O espectáculo de ontem tocou na alma e encheu de orgulho, não só cabo-verdianos, como angolanos, moçambicanos e guineenses. Ficamos ansiosamente à espera de uma digressão “a sério” pelos auditórios do país.
O “derby” da segunda circular tinha há muito terminado quando os franceses de espírito nómada (com algum sangue tuaregue no seu ADN) subiram ao palco Aveirense com a contrariedade de terem de “virar um resultado” desfavorável. Toda a euforia final que se viveu antes com SARA TAVARES foi contra-producente para o desempenho inicial dos LO’JO. Apesar do projecto do visionário DENIS PÉAN ter tido uns quinze minutos iniciais de ataque descoordenado, foi gradualmente ajustando a sua estratégia, lutando pelo empate até ao último minuto. E o melhor foi mesmo deixado para o fim: um brutal “De Timbuktu À Essakane” (que integra o mais recente álbum “Bazar Savant”), talvez a melhor canção que estes franceses criaram até hoje. No Teatro Aveirense, os LO’JO que não perderam as todas as suas qualidades criativas de diluir como ninguém a canção francesa à alma nómada africana, através de um “cocktail” de culturas sarianas e sub-sarianas, como a magrebina, a tuaregue (é este colectivo que organiza o famoso festival do deserto que se realiza anualmente no Mali), a etnia sonrai (de ALI FARKA TOURÉ) e a casta griot, e ao lado físico (leia-se ritmico) assente em algum dub jamaicano, acusaram o facto de jogar fora-de-casa, faltando a profundidade e (sobretudo) a intensidade com que nos brindaram em Loulé (e mesmo em Lisboa há meia-dúzia de anos). Como que a querer dizer-nos que a sua música deve ser consumida no verão, em altas temperaturas, a céu aberto. Se possível, sob um manto infinito de areia debaixo dos pés.
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[Reportagem SET’06; dia 3] SARA TAVARES e LO’JO: Nómadas na cidade
December 2, 2006 by
Filed under Reportagens
SARA TAVARES não tem razões para afirmar que, apesar de a maioria das pessoas a conhecerem como artista muito mediática que é, desconhecem a sua proposta musical actual. “Balancê” já conquistou o disco de ouro.
Ontem, a maioria da assistência que lotava (mais uma vez) os 600 ou 700 lugares deslocou-se ao Teatro Aveirense, sobretudo para a ver. A avaliar pelo que se passou no período temporal em que muita gente encontrava-se agarrada ao televisor a ver o Benfica controlar os segundos 45 minutos do jogo com o Sporting, a luso-caboverdiana que não tem praticamente tocado no nosso país (mas que possui uma agenda repleta de datas na Europa, América e Ásia) dava uma lição de como se conquista uma plateia aos primeiros acordes (de forma tão rápida como o golo de Ricardo Rocha em Alvalade).
Para além de uma óptima compositora que é, de gosto refinado e com muita “vibração positiva”, que parece transformar o mais empedernido coração num caloroso e afectuoso órgão, SARA TAVARES é sobretudo uma excelente comunicadora. De trato fácil, em que um “bué” (e outras expressões crioulas e do calão angolano) saídas da sua boca, soa-nos a benção. A sua música miscigenada, que tanto deve a Cabo Verde como à Lisboa multicultural, é muito equilibrada. Bebe alguma da sua inspiração no arquipélago dos seus antepassados, mas não fica aí ancorada. Voa livremente e solitariamente (como uma águia?) pelas várias africanidades da capital. Das mais autênticas e “guettizadas”, às mais urbanas e mais desenraizadas. Bica o fado, a soul, o funk, o reggae (que bela versão dub de “Balancê” no encore final, pena a melódica não se ter escutado), como o semba e o gumbé, sem se comprometer em demasia com nenhum destes géneros. O resultado final é melhor do que a soma das partes. É muito próprio. Genuíno. E ainda possui o dom de unir toda a lusofonia. O espectáculo de ontem tocou na alma e encheu de orgulho, não só cabo-verdianos, como angolanos, moçambicanos e guineenses. Ficamos ansiosamente à espera de uma digressão “a sério” pelos auditórios do país.
O “derby” da segunda circular tinha há muito terminado quando os franceses de espírito nómada (com algum sangue tuaregue no seu ADN) subiram ao palco Aveirense com a contrariedade de terem de “virar um resultado” desfavorável. Toda a euforia final que se viveu antes com SARA TAVARES foi contra-producente para o desempenho inicial dos LO’JO. Apesar do projecto do visionário DENIS PÉAN ter tido uns quinze minutos iniciais de ataque descoordenado, foi gradualmente ajustando a sua estratégia, lutando pelo empate até ao último minuto. E o melhor foi mesmo deixado para o fim: um brutal “De Timbuktu À Essakane” (que integra o mais recente álbum “Bazar Savant”), talvez a melhor canção que estes franceses criaram até hoje. No Teatro Aveirense, os LO’JO que não perderam as todas as suas qualidades criativas de diluir como ninguém a canção francesa à alma nómada africana, através de um “cocktail” de culturas sarianas e sub-sarianas, como a magrebina, a tuaregue (é este colectivo que organiza o famoso festival do deserto que se realiza anualmente no Mali), a etnia sonrai (de ALI FARKA TOURÉ) e a casta griot, e ao lado físico (leia-se ritmico) assente em algum dub jamaicano, acusaram o facto de jogar fora-de-casa, faltando a profundidade e (sobretudo) a intensidade com que nos brindaram em Loulé (e mesmo em Lisboa há meia-dúzia de anos). Como que a querer dizer-nos que a sua música deve ser consumida no verão, em altas temperaturas, a céu aberto. Se possível, sob um manto infinito de areia debaixo dos pés.
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[reportagem SET'06; dia 2] As cidades, os mares e o peixe
December 1, 2006 by Luís Rei
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Há uns anos atrás, Lisboa recebeu um festival da música dos portos inspirado na nossa relação com o mar. Acredito que, se alguém tivesse a ideia de criar um outro certame que unisse as qualidades musicais de músicos que vivem à beira-mar com as gastronómicas e lhe desse o nome de “festival do peixe e dos oceanos”, não teria problemas em criar um fortíssimo cartaz, com um orçamento baixo.
Isto é, se tivermos em conta o aspecto bizarro da contratação dos Klezmatics para o II Sons em Trânsito de 2003, em que a banda aceitou reduzir consideravelmente (para cerca de um terço) o cachet a partir do momento em que teve a garantia que se comia bom peixe em Aveiro.
Podemos ignorar vários séculos de história em comum do colonialismo português na Índia, desconhecer as contradições do rígido sistema de castas que Arundathy Roy tão bem caracteriza em “O Deus das Pequenas Coisas”, não entender a forma solene como hindus, sikhs e budistas põem diariamente em prática os seus ensinamentos religiosos, nem conseguir ter o empenho e rigidez na aprendizagem de um instrumento como a sítara indiana, em que se acorda às 3 ou 4 da manhã para praticar durante mais de 12 horas diárias. Contudo, há um (de vários) aspecto(s) que nos une. Aquele que DEBASHISH BHATTACHARYA frisou no espectáculo de ontem: tanto indianos como portugueses gostam muito de peixe.
Por muito que o peixe se exinga dos mares em 2050 e passêmos a degustar espécies criadas em viveiros de aquacultura, haverá sempre o Atlântico, o Índico e o Pacífico a fazer a ligação entre a nossa música e a deles. Não só porque as “ragas” que BATTACHARYA interpretou são, segundo o virtuoso guitarrista de várias “slides”, “como oceanos”, mas também porque a sua música é milenar, toca-nos enquanto povo que levou o cavaquinho para a Madeira e a Braguinha para o Havaii. Sobretudo as “ragas” para Anandi, um “slide” ukelele que é um dos três instrumentos de cordas (o mais pequeno) que Bhattacharya construiu e que tão bem toca no álbum “Calcutta Slide-Guitar”. Há ecos de música minhota, madeirense, havaiana, mas também da ilha japonesa de Okinawa. Como se BATTACHARYA,BOB BROZMAN, JÚLIO PEREIRA e TAKASHI HIRAYAZU habitassem um espaço comum. É através da “chaturangui”, guitarra “slide” de maiores dimensões e com 22 cordas e quatro tons adicionais, que música clássica indiana se aproxima mais do “delta blues” e do poder de fogo do BEN HARPER dos bons velhos tempos (dos dois primeiros álbuns), através de múltiplos solos de virtuosismo e intensidade rock que evoca o espírito rebelde de HENDRIX. Contudo, a sua música, a sua postura e a dos seus companheiros (SUBHASIS BHATTACHARJEE – Tablas e CHRISTIAN LEDOUX – tambura) mantêm os cânones da tradicão clássica indiana: o drone da tambura a servir de tapete para as arrancadas a várias velocidades das tablas e das “slides”, o respeito pelo som e os jogos com os silêncios, a postura de lótus dos músicos e forma respeitosa com que agradecem a benção de serem virtuosos instrumentistas, de terem efectuado um óptimo espectáculo, com um Teatro Aveirense lotado e rendido a aplaudi-los de pé.
cidades de KEPA
Confesso que não sou muito admirador da forma como certos projectos da folk oriunda das várias regiões de Espanha reduzem ao mínimo e indispensável o “exotismo” da sua música mais enraizada e dos instrumentos mais típicos, em detrimento de uma formação mais simples, mais universal, mais globalizada, mais pop – guitarra, bateria e baixo – que vá conquistando outras audiências que não estão ainda preparadas para a folk pura e dura. É assim com a galega SUSANA SEIVANE, com o asturiano XUACU AMIEVA e com o basco KEPA JUNKERA. Nem MANUEL LUNA nem JUAN MARI BELTRAN (com propostas musicalmente muito mais ricas) tocam com tanta regularidade nem têm tanta assistência como estes músicos. Mas esta é também a versão portátil, reduzida ao minimo formato que permite mais mobilidade. Seria impossível KEPA oferecer-nos todo o aparato registado no álbum ao vivo “K”.
Para além da omnipresente txalaparta, escuta-se muito pouco a alboka e a pandeireta, o que é pena. Quando os tocadores de txalaparta largam as tábuas e pegam nesses instrumentos, encontramos os melhores momentos em termos colectivos. Mais puristas, não tão pop. Mas um espectáculo deste basco vale não só pela forma com que o músico ataca a trikitixa, mas também pela capacidade de comunicar com o público, sem ter grande necessidade de se expressar verbalmente. A mímica comanda. Se perguntarem ao meu filho de quase seis anos qual o artista que ele gostou mais, ele diz que foi do KEPA. Se lhe perguntarem qual foi o melhor momento desse espectáculo, ele dirá que foi a parte em que batia uma, duas, dez palmas, ou nenhuma. Pode parecer piroso, aborrecido para quem continuar a deleitar-se com todo o virtuosismo do trixitixista voador, mas são estes momentos que criam maior empatia e a plateia que toma o primeiro contacto com o músico que acaba por ser seduzida e que compra os discos à saída.
A primeira meia-hora foi morna, insonsa, mas a partir do momento em que os tocadores de txalaparta tocaram percussão com tubos de metro e meio numa placa estendida no chão, KEPA transfigurou-se. Voltou a ser o músico das grandes arrancadas, do toque instintivo, de múltiplos e inesperados floreados. Há sempre mais alguma coisa num tema. Tanto “Bok Espok” como “Ataun” (um dos temas mais dancáveis de “Hiri”) ganham outra vivacidade inexistente nas versões gravadas em estúdio.
A viagem por várias cidades do mundo registada em “Hiri” – Buenos Aires, Napoli, Agadir, Tblisi, Kokkola, etc - não é tão perceptível ao vivo. Sente-se a falta dos inúmeros convidados que oferecem tonalidades mais marítimas e épicas, de ênfase “new-ageano” à moda de ENYA. Houve, por isso, neste espectáculo, mais do que a apresentação de um novo disco, um recordar permanente de “Bilbau 00:00h”. Apesar das opções estéticas sempre discutíveis, KEPA continua a ser um dos melhores (se não o melhor) executantes de concertina. A cidade do museu de Gugenheim deve-lhe uma estátua.
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[reportagem SET’06; dia 2] As cidades, os mares e o peixe
December 1, 2006 by
Filed under Reportagens
Há uns anos atrás, Lisboa recebeu um festival da música dos portos inspirado na nossa relação com o mar. Acredito que, se alguém tivesse a ideia de criar um outro certame que unisse as qualidades musicais de músicos que vivem à beira-mar com as gastronómicas e lhe desse o nome de “festival do peixe e dos oceanos”, não teria problemas em criar um fortíssimo cartaz, com um orçamento baixo.
Isto é, se tivermos em conta o aspecto bizarro da contratação dos Klezmatics para o II Sons em Trânsito de 2003, em que a banda aceitou reduzir consideravelmente (para cerca de um terço) o cachet a partir do momento em que teve a garantia que se comia bom peixe em Aveiro.
Podemos ignorar vários séculos de história em comum do colonialismo português na Índia, desconhecer as contradições do rígido sistema de castas que Arundathy Roy tão bem caracteriza em “O Deus das Pequenas Coisas”, não entender a forma solene como hindus, sikhs e budistas põem diariamente em prática os seus ensinamentos religiosos, nem conseguir ter o empenho e rigidez na aprendizagem de um instrumento como a sítara indiana, em que se acorda às 3 ou 4 da manhã para praticar durante mais de 12 horas diárias. Contudo, há um (de vários) aspecto(s) que nos une. Aquele que DEBASHISH BHATTACHARYA frisou no espectáculo de ontem: tanto indianos como portugueses gostam muito de peixe.
Por muito que o peixe se exinga dos mares em 2050 e passêmos a degustar espécies criadas em viveiros de aquacultura, haverá sempre o Atlântico, o Índico e o Pacífico a fazer a ligação entre a nossa música e a deles. Não só porque as “ragas” que BATTACHARYA interpretou são, segundo o virtuoso guitarrista de várias “slides”, “como oceanos”, mas também porque a sua música é milenar, toca-nos enquanto povo que levou o cavaquinho para a Madeira e a Braguinha para o Havaii. Sobretudo as “ragas” para Anandi, um “slide” ukelele que é um dos três instrumentos de cordas (o mais pequeno) que Bhattacharya construiu e que tão bem toca no álbum “Calcutta Slide-Guitar”. Há ecos de música minhota, madeirense, havaiana, mas também da ilha japonesa de Okinawa. Como se BATTACHARYA,BOB BROZMAN, JÚLIO PEREIRA e TAKASHI HIRAYAZU habitassem um espaço comum. É através da “chaturangui”, guitarra “slide” de maiores dimensões e com 22 cordas e quatro tons adicionais, que música clássica indiana se aproxima mais do “delta blues” e do poder de fogo do BEN HARPER dos bons velhos tempos (dos dois primeiros álbuns), através de múltiplos solos de virtuosismo e intensidade rock que evoca o espírito rebelde de HENDRIX. Contudo, a sua música, a sua postura e a dos seus companheiros (SUBHASIS BHATTACHARJEE – Tablas e CHRISTIAN LEDOUX – tambura) mantêm os cânones da tradicão clássica indiana: o drone da tambura a servir de tapete para as arrancadas a várias velocidades das tablas e das “slides”, o respeito pelo som e os jogos com os silêncios, a postura de lótus dos músicos e forma respeitosa com que agradecem a benção de serem virtuosos instrumentistas, de terem efectuado um óptimo espectáculo, com um Teatro Aveirense lotado e rendido a aplaudi-los de pé.
cidades de KEPA
Confesso que não sou muito admirador da forma como certos projectos da folk oriunda das várias regiões de Espanha reduzem ao mínimo e indispensável o “exotismo” da sua música mais enraizada e dos instrumentos mais típicos, em detrimento de uma formação mais simples, mais universal, mais globalizada, mais pop – guitarra, bateria e baixo – que vá conquistando outras audiências que não estão ainda preparadas para a folk pura e dura. É assim com a galega SUSANA SEIVANE, com o asturiano XUACU AMIEVA e com o basco KEPA JUNKERA. Nem MANUEL LUNA nem JUAN MARI BELTRAN (com propostas musicalmente muito mais ricas) tocam com tanta regularidade nem têm tanta assistência como estes músicos. Mas esta é também a versão portátil, reduzida ao minimo formato que permite mais mobilidade. Seria impossível KEPA oferecer-nos todo o aparato registado no álbum ao vivo “K”.
Para além da omnipresente txalaparta, escuta-se muito pouco a alboka e a pandeireta, o que é pena. Quando os tocadores de txalaparta largam as tábuas e pegam nesses instrumentos, encontramos os melhores momentos em termos colectivos. Mais puristas, não tão pop. Mas um espectáculo deste basco vale não só pela forma com que o músico ataca a trikitixa, mas também pela capacidade de comunicar com o público, sem ter grande necessidade de se expressar verbalmente. A mímica comanda. Se perguntarem ao meu filho de quase seis anos qual o artista que ele gostou mais, ele diz que foi do KEPA. Se lhe perguntarem qual foi o melhor momento desse espectáculo, ele dirá que foi a parte em que batia uma, duas, dez palmas, ou nenhuma. Pode parecer piroso, aborrecido para quem continuar a deleitar-se com todo o virtuosismo do trixitixista voador, mas são estes momentos que criam maior empatia e a plateia que toma o primeiro contacto com o músico que acaba por ser seduzida e que compra os discos à saída.
A primeira meia-hora foi morna, insonsa, mas a partir do momento em que os tocadores de txalaparta tocaram percussão com tubos de metro e meio numa placa estendida no chão, KEPA transfigurou-se. Voltou a ser o músico das grandes arrancadas, do toque instintivo, de múltiplos e inesperados floreados. Há sempre mais alguma coisa num tema. Tanto “Bok Espok” como “Ataun” (um dos temas mais dancáveis de “Hiri”) ganham outra vivacidade inexistente nas versões gravadas em estúdio.
A viagem por várias cidades do mundo registada em “Hiri” – Buenos Aires, Napoli, Agadir, Tblisi, Kokkola, etc - não é tão perceptível ao vivo. Sente-se a falta dos inúmeros convidados que oferecem tonalidades mais marítimas e épicas, de ênfase “new-ageano” à moda de ENYA. Houve, por isso, neste espectáculo, mais do que a apresentação de um novo disco, um recordar permanente de “Bilbau 00:00h”. Apesar das opções estéticas sempre discutíveis, KEPA continua a ser um dos melhores (se não o melhor) executantes de concertina. A cidade do museu de Gugenheim deve-lhe uma estátua.
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A slide indiana, a trikitixa basca, a kora maliana e os espírito tuaregue-francófono no SET’06 em Aveiro
A partir de hoje e até ao próximo dia 2 de Dezmebro, realiza-se a quinta edição do Festival Sons em Trânsito. Um festival comprimido agora para quatro dias, num só fim-de-semana (e não dois, como anteriormente acontecia) e num só palco em Aveiro: o Teatro Aveirense.
A noite de hoje é dividida entre uma das vozes argentinas que tem renovado o tango – CRISTOBAL REPETTO – e o projecto a dois entre o pianista italiano LUDOVICO EINAUDI (que também tem tocado com RODRIGO LEÃO) e um dos maiores mestres malianos de kora, BALLAKÉ SISSOKO. Músico que já gravou o belíssimo disco “New Ancient Strings”, assinado em conjunto com TOUMANI DIABATÉ.
Amanhã, o indiano DEBASHISH BHATTACHARYA mostrará toda a sua perícia nas várias “slide guitars” que construiu e o basco KEPA JUNKERA, virtuoso da pequeno fole basco, de nome trikitixa, vem apresentar o seu novo disco “Hiri”. Mais uma mega-produção conceptual que descreve uma viagem por várias cidades do mundo (Hiri designa cidade em euskera) – Agadir, Kokkola, Tbilisi – que conta com a participação de inúmeros músicos folk europeus: ELISEO PARRA, MERCEDES PEÓN, TACTEQUETE, XOSÉ MANUEL BUDIÑO, IBON KOTERON, ALOS QUARTET, BULGARKA, ENZO AVITABILE AND I BOTTARI DI PORTICO, entre outros.
No dia 1 de Dezembro, SARA TAVARES tem uma rara oportunidade de apresentar em Portugal a sua mais recente criação – “Balancê” – num anfi-teatro nacional. Seguem-se os nómadas (de espírito) franceses LO’JO (na foto), responsáveis pelo melhor espectáculo do Festival Med de Loulé em 2005. Projecto que tanto mergulha a fundo na canção francesa como é engolido pelas areias do deserto do norte do Saara e como é absorvido pela intensa fumarada dos ritmos de Kingston.
No último dia, haverá a alma intensa e dorida do fado de ALDINA DUARTE e a música funcional do cordofonista francês RENÉ AUBRY, que se tem destacado em Portugal na criação de música para espectáculos de dança. Músico que já colaborou com o coreógrafo PAULO RIBEIRO. O V SET termina em festa, no primeiro piso do Teatro Aveirense, com os DAZKARIEH.
Oiça o Terra Pura especial sobre o Sons em Trânsito, com análise a todos os nomes presentes nesta edição do SET
clique para ouvir esta hora de emissão
[audio:http://www.cronicasdaterra.com/Terrapura/terra20061125_2.mp3|autostart=no|bgcolor=0x000000]
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A partir de hoje e até ao próximo dia 2 de Dezmebro, realiza-se a quinta edição do Festival Sons em Trânsito. Um festival comprimido agora para quatro dias, num só fim-de-semana (e não dois, como anteriormente acontecia) e num só palco em Aveiro: o Teatro Aveirense.
A noite de hoje é dividida entre uma das vozes argentinas que tem renovado o tango – CRISTOBAL REPETTO – e o projecto a dois entre o pianista italiano LUDOVICO EINAUDI (que também tem tocado com RODRIGO LEÃO) e um dos maiores mestres malianos de kora, BALLAKÉ SISSOKO. Músico que já gravou o belíssimo disco “New Ancient Strings”, assinado em conjunto com TOUMANI DIABATÉ.
Amanhã, o indiano DEBASHISH BHATTACHARYA mostrará toda a sua perícia nas várias “slide guitars” que construiu e o basco KEPA JUNKERA, virtuoso da pequeno fole basco, de nome trikitixa, vem apresentar o seu novo disco “Hiri”. Mais uma mega-produção conceptual que descreve uma viagem por várias cidades do mundo (Hiri designa cidade em euskera) – Agadir, Kokkola, Tbilisi – que conta com a participação de inúmeros músicos folk europeus: ELISEO PARRA, MERCEDES PEÓN, TACTEQUETE, XOSÉ MANUEL BUDIÑO, IBON KOTERON, ALOS QUARTET, BULGARKA, ENZO AVITABILE AND I BOTTARI DI PORTICO, entre outros.
No dia 1 de Dezembro, SARA TAVARES tem uma rara oportunidade de apresentar em Portugal a sua mais recente criação – “Balancê” – num anfi-teatro nacional. Seguem-se os nómadas (de espírito) franceses LO’JO (na foto), responsáveis pelo melhor espectáculo do Festival Med de Loulé em 2005. Projecto que tanto mergulha a fundo na canção francesa como é engolido pelas areias do deserto do norte do Saara e como é absorvido pela intensa fumarada dos ritmos de Kingston.
No último dia, haverá a alma intensa e dorida do fado de ALDINA DUARTE e a música funcional do cordofonista francês RENÉ AUBRY, que se tem destacado em Portugal na criação de música para espectáculos de dança. Músico que já colaborou com o coreógrafo PAULO RIBEIRO. O V SET termina em festa, no primeiro piso do Teatro Aveirense, com os DAZKARIEH.
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